Por Eça de Queirós (1878)
Sebastião começara-as pensando que duzentos ou trezentos mil réis fariam as restaurações necessárias; mas depois umas coisas tinham trazido outras - e, dizia, está-se-me tornando um sorvedouro!
Luísa riu, forçadamente.
- Ora, quando se é proprietário e rico!...
- Isso sim! Parece que não é nada: mas uma pintura numa porta, uma janela nova, uma salaforrada de papel, um soalho, e isto e aquilo, e lá se vão oitocentos mil réis... Enfim!...
Levantou-se, e despedindo-se:
- Eu espero que aquele vadio se não demore muito...
- Se a estanqueira der licença... Ficou a passear na sala, nervosa, com aquela idéia. Deixar-senamorar pela estanqueira, e a mulher do delegado, e as outras!... Decerto, tinha confiança nele, mas os homens!... De repente representou-lhe a estanqueira prendendo-o nos braços detrás do balcão, ou Jorge beijando, nalguma entrevista, de noite, o colo bonito da mulher do delegado!... E tumultuosamente apareceram-lhe todas as razoes que provavam irrecusavelmente a traição de Jorge: estava há dois meses fora! Sentia-se cansado da sua viuvez! Encontrava uma mulher bonita! Tomava aquilo como um prazer passageiro, sem importância!... Que infame! Resolveu escrever-lhe uma carta digna e ofendida, que viesse imediatamente - ou que partia ela - Entrou no quarto, muito excitada. A fotografia de Jorge, que ela tirara na véspera do saco de marroquim, ficara no toucador. Pôs-se a olhá-la: não admirava que o namorassem; era bonito, era amável... Veio-lhe uma onda de ciúme, que lhe obscureceu o olhar; se ele a enganasse, se tivesse a certeza da "mais pequena coisa" - separava-se, recolhia-se a um convento, morria decerto, matava-o!...
- Minha senhora - veio dizer Joana -, é um galego com esta carta. Está à espera da resposta.
Que espanto! Era de Juliana!
Escrita em papel pautado, numa letra medonha, eriçada de erros de ortografia, dizia:
Minha senhora.
Bem sei que fui imprudente, o que a senhora deve atribuir tanto à minha desgraça como à falta de saúde, o que às vezes faz que se tenham gênios repentinos. Mas se a senhora quer que eu volte e faça o serviço como dantes - ao qual creio que a senhora não pode opor-se, terei muito gosto em ser agradável na certeza que nunca mais se falará em tal até que a senhora queira, e cumpra o que prometeu. Prometo fazer o meu serviço, e desejo que a senhora esteja por isto pois que é para bem de todos. Pois que foi gênio e naturalmente todos têm os seus repentes, e com isto não canso mais e sou Serva muito obediente
a criada
Juliana Couceiro Tavira.
Ficou com a carta na mão, sem resolução. A sua primeira vontade foi dizer - "não!" Tornar a recebê-la, vê-la, com a sua face horrível, a cuia enorme! Saber que ela tinha no bolso a sua carta, a sua desonra, e chamá-la, pedir-lhe água, a lamparina, ser servida por ela! Não! Mas veio-lhe um terror; se recusasse irritava a criatura; Deus sabe o que faria! Estava nas mãos dela; devia passar por tudo. Era o seu castigo... Hesitou ainda um momento:
- Que sim, que venha, é a resposta.
Juliana veio com efeito às oito horas. Subiu pé ante pé para o sótão, pôs o fato de casa e as chinelas, e desceu para o quarto dos engomados, onde Joana sentada num tapete costurava, à luz do petróleo.
Joana, muito curiosa, acabrunhou-a logo de perguntas: onde estivera? O que tinha acontecido? Por que não dera notícias? - Juliana contou que fora a uma visita a uma amiga, à Calçada do Marquês de Abrantes, e que de repente lhe dera um flato, e a dor... Não quis mandar dizer, porque imaginara que poderia vir. Mas qual! Estivera dia e meio de cama...
Quis saber então o que tinha feito a senhora, se saíra, quem estivera...
- A senhora tem andado a modo incomodada - disse Joana.
- É do tempo - observou Juliana. - Tinha trazido a sua costura, e ambas caladas continuaram oserão.
As dez horas Luísa ouviu bater devagarinho à porta do quarto. Era ela, decerto!
- Entre...
A voz de Juliana disse muito naturalmente:
- Está o chá na mesa.
Mas Luísa não se decidia a ir à sala, com medo, horror de a ver! Deu voltas no quarto, demorouse; foi enfim, toda trêmula. Juliana vinha justamente no corredor; encolheu-se contra a parede, com respeito, disse:
- Quer que vá pôr a lamparina, minha senhora? Luísa fez que sim com a cabeça, sem a olhar.
Quando voltou ao quarto Juliana enchia o jarro; e depois de ter aberto a cama, cerrado as portas, quase em pontas de pés:
- A senhora não precisa mais nada? - perguntou.
- Não.
- Muito boa noite, minha senhora. E não houve outra palavra mais.
- "Parece um sonho!" - pensava Luísa, ao despir-se melancolicamente.
- Esta criatura, com as minhas cartas, instalada em minha casa para me torturar, me roubar!" -
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.