Por Franklin Távora (1878)
Ao penetrar na estreita e sombria nave, o espetáculo que a Lourenço se mostrou, foi o seguinte:
No meio da igreja, ao lado de um monte de terra fresca, jazia um cadáver; era o de Victorino. Entre esse cadáver e o monte, uma mulher tirava do chão onde estava abrindo uma cova, pás de terra, que atirava sobre a que havia fora. Era Joaquina.
Lourenço quase a não conheceu, tão demudado estava o resto da infeliz. A dor envelhecera-a em poucas horas. A dor tem mais violência e rapidez na sua obra do que o próprio tempo.
- Joaquina só se deixava ver da cintura para cima. A outra parte do corpo estava metida na cova. Os cabelos, em sua maior parte embranquecidos pelas necessidades usuais da vida do pobre, e agora pelo sopro da adversidade que lhe enrelegara os últimos alentos, caindo sobre as faces murchadas e macilentas, davam-lhe uma feição que gerava vexame em quem a via.
- Sem dizer uma palavra sequer, Lourenço que aprendera de Marcelina a Ter para os cadáveres pias demonstrações, ajoelhou-se aos pés do corpo de Victorino, rezou em silencio sua oração, e, erguendo-se, aproximou-se de Joaquina, tomou-lhe a pá das mãos e pôs em lugar dela a prosseguir o ultimo trabalho que o morto exigia dos vivos na terra. A mãe e a filha, mudas e taciturnas, acompanharam com suas lagrimas as que o rapaz verteu, abrindo o leito final do seu vizinho, amigo de seu pai e quase seu parente, a quem votava estima e prestava respeito.
- Chegou enfim o momento de ser entregue à sepultura o corpo do finado. O pranto das mulheres redobrou. Marianinha fazia exclamações de cortar o coração. Joaquina carpia-se inconsolável, envolvendo com o nome do marido o da filha mais velha que lhe fora arrebatada momentos antes da perda do primeiro. A mão tremula, o braço hesitante, começou Lourenço a impelir para dentro da cova, depois de se haver sumido nela para sempre o seu mudo habitador, com a pá que lhe pesava como barra de ferro, a terra acumulada nas bordas. A tristeza era profunda, solene o momento, indescritível o espetáculo. Que será de mim sem meu marido? exclamou Joaquina soluçando.
Que será de mim sem meu pai? acrescentou Marianinha, desfazendo-se em lagrimas e suspiros. Lourenço tinha posto na cova a ultima pá de terra.
Sua mão descaíra sobre o cabo do instrumento.
Por impulso irresistível de espirito, ele voltou-se para as mulheres, ouvindo aquelas palavras, e disse-lhes:
- E onde estão os outros filhos de Deus? Onde está meu pai? Onde está minha mãe? Onde estou eu? Deus é Deus em toda a parte, e quando tira um arrimo ao necessitado, já tem posto outro diante dos olhos dele.
Ouvindo estas palavras, Marianinha sentiu descer-lhe ao intimo do coração um como bálsamo reparador e divino. Ergueu os olhos ao rapaz. estavam inundados de um clarão suave. Havia ali talvez um agradecimento que lhe dirigia pela doce esperança que, depois de tantas contrariedades, penas e agonias, muitas delas ocasionadas por ele próprio, ressurgia agora, posto que banhada em prantos, no solo crestado, que de repente se tornava fresco e fecundo ao calor dessa bendita consolação.
Nesse momento ouviram bater a porteira do engenho, e logo após o estrepito das pisadas de um animal que corria à toda a brida. Lourenço lança-se à porta da igreja, a fim de ver quem era o cavaleiro, e dá com olhos em Marcelina.
O conforto no coração de Joaquina e de Marianinha aumentou com a chegada da cabocla, e especialmente depois que souberam que Francisco estava na vila, e que os mascates naquele momento deviam ter já perdido a mão. Lourenço quis voltar imediatamente a Goiana, mas Marcelina não consentiu que o fizesse, dizendo-lhe que em pouco tempo Francisco se acharia com eles.
De feito, não se meteram duas horas que o matuto se reuniu à família, trazendo a importante nova da vitoria. Para Marianinha a vitoria maior foi a que o matuto exprimiu nestas palavras:
Não chores, Marianinha. Perdeste teu pai, mas ali tens teu marido. E indicou Lourenço que, com os olhos pregados na imagem do Crucificado, se mostrava nesse momento diante do altar, inteiramente alheio ao que se falava a seu lado.
Eis em que estava absorvido o rapaz.
Quando viera de Goiana horas antes, encontrara caído, entre a casa de Victorino e a de Manoel das Dores, um bandoleiro de Pedro de Lima à sombra de uma arvore. O malfeitor tinha passado a noite em claro, e na adega do senhorde-engenho fora do que mais entraram pelo vinho generoso, o qual, dando-lhe na fraqueza, o impossibilitou para preencher o seu oficio naquele dia. Em uma das mãos tinha ainda um saco, de que marejava sangue.
Lourenço saltou do cavalo abaixo, tirou o saco das mãos do dono que estava ressonando, e abriu-o para ver o que continha. Era a cabeça do cevado de Joaquina, com que o salteador tencionava aumentar o almoço que por eles devia estar esperando, segundo calculava, em casa de Coelho ou de Paes.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.