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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


Jagurecaca é um animal do tamanho de um gato grande; tem a cor pardaça e o cabelo comprido, e os pés e mãos da feição dos bugios; o rosto como cão, e o rabo comprido, o qual se mantém das frutas do mato. Anda sempre pelo chão, onde pare uma só criança, o qual é estranho e federonto, que por onde quer que passa deixa tamanho fedor que, um tiro de pedra afastado de uma banda e da outra, não há quem o possa sofrer, e não há quem por ali possa passar mais de dois meses, por ficar tudo tão empeçonhentado com o mau cheiro que se não pode sofrer. Deste animal pegam os cães quando vão à caça, mas vão-se logo lançar na água, e esfregam-se com a terra por tirarem o fedor de si, o que fazem por muitos dias sem lhes aproveitar, e o caçador fica de maneira que por mais que se lave fica sempre com este terrível cheiro, que lhe dura três e quatro meses; e "como este bicho se vê em pressa perseguido dos cães, lança de si tanta ventosidade, e tão peçonhenta, que perfuma desta maneira a quem lhe fica por perto; e com estas armas se defendem das onças e de outros animais", quando se vêem perseguidos deles, cuja artilharia tem tanta força que a onça ou outros inimigos que os buscam se tornam e os deixam; e vão-se logo lavar e esfregar pela terra, por tirar de si tão terrível cheiro. E aconteceu a um português que, encontrando com um destes bichos, que trazia o seu caçador do mato morto para mezinha, ficou tão fedorento que, não podendo sofrer-se a si, se fez muito amarelo, e se foi para casa doente do cheiro que em si trazia, que lhe durou muitos dias. A carne deste bicho é boa para estancar câmaras de sangue; mas a casa onde está fede toda a vida, pelo que as índias a têm assada, muito embrulhada em folhas, depois de bem seca ao ar do fogo; e a têm no fumo para se conservar; mas nem isso basta para deixar de feder na rua, enquanto está na casa.


C A P Í T U L O C
Em que se declara a natureza dos porcos-do-mato que há na Bahia.


Criam-se nos matos da Bahia porcos monteses, a que os índios chamam tajaçu, que são de cor parda e pequenos; tudo têm semelhante com o porco, senão o rabo, que não têm mais comprido que uma polegada; e têm umbigo nas costas; as fêmeas parem muitos no mato, por onde andam em bandos, comendo as frutas dele; onde os matam com cachorros e armadilhas, e às fle-chadas; os quais não têm banha, nem toucinho, senão uma pele viscosa; a carne é toda magra, mas saborosa e carregada para quem não tem boa disposição.Tajaçutirica é outra casta de porcos monteses, maiores que os primeiros, que têm os dentes como os monteses da Espanha; e os índios que os flecham hão de ter, prestes, aonde se acolham, porque, se se não põem em salvo com muita presteza, não lhes escapam; os quais são muito ligeiros e bravos, e têm também o em-bigo nas costas; e não têm banha, nem toucinho, mas a carne mais gostosa que os outros; e em tudo mais são como eles.Tajaçueté é outra casta de porcos monteses que são maiores que os de que fica dito, e têm toucinho como os monteses da Espanha, e grandes presas e o umbigo nas costas, mas não são tão bravos e perigosos para os caçadores; os quais os fazem levantar com os cachorros para os flecharem; e estes e os mais andam em bandos pelo mato, onde as fêmeas parem muito filhos; e no tempo das frutas entram pelas aldeias dos índios e pelas casas; os quais fazem muito dano nas roças e nos canaviais de açúcar. A estes porcos cheira o embigo muito mal; e se, quando os matam, lhos não cortam logo, cheira-lhes a carne muito ao mato; e se lhos cortam é muito saborosa.

C A P Í T U L O CI
Dos porcos e outros bichos que se criam na água doce.

(continua...)

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