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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

- Uma bulha! - acudiu com perversidade o vil Negrão, ansioso por empanar o brilho de santidade com que eu deslumbrava a Titi. Uma bulha, na cidade de Jesus Cristo! Ora essa! Que desacato!

Com os dentes cerrados encarei o torpíssimo padre:

- Sim, senhor! Um chinfrim!... Mas fique Vossa Senhoria sabendo que o senhor Patriarca de Jerusalém me deu toda a razão; até me bateu no ombro e me disse: "Pois Teodorico, parabéns; você portou-se como um pimpão!" Que tem agora Vossa Senhoria a piar?

Negrão curvou a cabeça, onde a coroa punha uma lividez azulada de lua em tempo de peste:

- Se Sua Eminência aprovou...

- Sim, senhor! E aqui tem a Titi porque foi a bulha!... No quarto ao lado do meu havia uma inglesa, uma herege, que mal eu me punha a rezar, aí começava ela a tocar piano, e a cantar fados e tolices e cousas imorais do Barba-Azul dos teatros... Ora, imagine a Titi, estar uma pessoa a dizer com todo o fervor e de joelhos: "Oh Santa Maria do Patrocínio, faze que a minha boa Titi tenha muitos anos de vida" - e vir lá detrás do tabique uma voz de excomungada a ganir: "Sou o BarbaAzul, olé.! Ser viúvo é o meu filé!..." E de encavacar!... De modo que uma noite, desesperado, não me tenho em mim, saio ao corredor, atiro-lhe um murro à porta, e grito-lhe para dentro: "Faz favor de estar calada, que está aqui um cristão que quer rezar!..."

- E com todo o direito - afirmou o Doutor Margaride. - Você tinha por si a lei!

- Assim me disse o patriarca! Pois senhores, como ia contando, grito isto para dentro à mulher, e ia recolher muito sério ao meu quarto, quando me sai de lá o pai, um grande barbaças, de bengalório na mão... Eu fui muito prudente; cruzei os braços e, com bons modos, disse-lhe que não queria ali escândalos ao pé do túmulo de Nosso Senhor, e o que desejava era rezar em sossego... E vai, que me há de ele responder? Que se estava a... Enfim, nem eu posso repetir! Uma cousa indecente contra o túmulo de Nosso Senhor... E eu, Titi, passa-me uma oura pela cabeça, agarro-o pelo cachaço...

- E magoaste-o, filho?

- Escavaquei-o, Titi!

Todos aclamaram a minha ferocidade. Padre Pinheiro citou leis canônicas autorizando a fé a desancar a impiedade. Justino, aos pulos, celebrou esse John Bull desmantelado a sólida murraça lusitana. E eu, excitado pelos louvores como por clarins de ataque, bradava de pé, medonho:

- Lá impiedades diante de mim, não! Arrombo tudo, esborracho tudo! Em cousas de religião sou uma fera!

E aproveitei esta santa cólera para brandir, como um aviso, diante do queixo sumido do Negrão, o meu punho cabeludo e pavoroso. O macilento e esgrouviado servo de Deus encolheu. Mas nesse instante a Vicência entrava com o chá, nas pratas ricas de G. Godinho.

Então os diletos amigos, com a torrada na mão, romperam em ardentes encômios:

- Que instrutiva viagem! É como ter um curso!

- E que belo bocadinho de noite aqui se tem passado! Qual São Carlos! Isto é que é gozar!

- E como ele conta! Que fervor, que memória!...

Lentamente, o bom Justino, com a sua chávena fornecida de bolos, acercara-se da janela, como a espreitar o céu estrelado e dentre as franjas das cortinas os seus olhinhos luzidios e gulosos chamavam-me confidencialmente. Fui, trauteando o Bendito; ambos mergulhamos na sombra dos damascos; e o virtuoso tabelião, roçando o lábio pelas minhas barbas:

- Oh amiginho, e de mulheres?

Eu confiava no Justino. Segredei para dentro do seu colarinho: - De deixarem lá os miolos, Justininho!

As suas pupilas faiscaram como as de um gato em janeiro; a xícara ficou-lhe tremelicando na mão.

E eu, pensativo, repenetrando na luz:

- Sim, bonita noite... Mas não são aquelas estrelinhas santinhas que nós vimos lá no Jordão!...

Então Padre Pinheiro, tomando aos goles cautelosos a sua chalada, veio timidamente bater-me no ombro ... Lembrara-me eu, nessas santas terras, com tantas distrações, do seu frasquinho de água do Jordão? ...

- Oh Padre Pinheiro, pois está claro!... Trago tudo! E o raminho do Monte Olivete para o nosso Justino... E a fotografia para o nosso Margaride ... Tudo!

Corri ao quarto, a buscar essas doces “lembrancinhas” da Palestina. E ao regressar, sustentado pelas pontas um lenço repleto de devotas preciosidades, estaquei por trás do reposteiro ao sentir dentro o meu nome ... Suave gozo! Era o inestimável Doutor Margaride que afiançava à Titi, com sua tremenda autoridade:

- Dona Patrocínio, eu não lho quis dizer diante dele ... Mas isto agora é mais do que ter um sobrinho e um cavalheiro! Isto é Ter, de casa e pucarinho, um amigo íntimo de Nosso Senhor Jesus Cristo!...

Tossi, entrei. Mas a senhora D. Patrocínio ruminava um escrúpulo ciumento. Não lhe parecia delicado para Nosso Senhor (nem para ela), que se repartissem estas relíquias mínimas antes de lhe ser entregue a ela, como senhora e como tia, na capela, a grande relíquia...

(continua...)

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