Por Eça de Queirós (1878)
Sebastião, sentado à beira da cadeira, coçava a barba, olhando-a, muito contrariado. E Luísa de repente, franzindo a testa:
- O quê? - A leitura espalhava-lhe no rosto uma surpresa irritada. - Realmente!...
- São tolices, são tolices! - murmurava Sebastião, muito vermelho.
Luísa pôs-se então a ler alto, devagar:
- Saberás, amigo Sebastião, que fiz aqui uma conquista. Não é o que se pode chamar umaprincesa, porque é nem mais nem menos que a mulher do estanqueiro. Parece estar abrasada no mais impuro fogo, por este seu criado. Deus me perdoe, mas desconfio até que me leva apenas um vintém pelos charutos de pataco, fazendo assim ao esposo, o digno Carlos, a dupla partida de lhe arruinar a felicidade e a tenda!
- Que graça! - murmurou Luísa, furiosa.
- Receio muito que se repita comigo o caso bíblico da mulher de Putifar. Acredita que há umcerto mérito em lhe resistir, porque a mulher, estanqueira como é, é lindíssima. E tenho medo que suceda algum fracasso à minha pobre virtude...
Luísa interrompeu-se, e olhou Sebastião com um olhar terrível.
- São brincadeiras! - balbuciou ele.
Ela seguiu, lendo:
- Olha, se a Luísa soubesse desta aventura! De resto, o meu sucesso não pára aqui: a mulherdo delegado faz-me um olho dos diabos! É de Lisboa, de uma gente Gamacho, que parece que mora para Belém, conheces? E dá-se ares de morrer de tédio, na tristeza provinciana da localidade. Deu uma soirée em minha honra, e em minha honra, creio também, decotou-se. Muito bonito colo.
Luísa fez-se escarlate.
- É uma queda do diabo...
- Está doido! - exclamou ela.
- E aqui tens o teu amigo feito um D. Juan do Alentejo, e deixando um rasto de chamassentimentais por essa província fora. O Pimentel recomenda-se...
Luísa ainda leu baixo algumas linhas, e erguendo-se bruscamente, dando a carta a Sebastião:
- Muito bem, diverte-se! - disse com uma voz sibilante.
- São lá coisas que se tomem a sério! Não deve tomar a sério...
- Eu! - exclamou ela. - Acho muito natural até!
Sentou-se, começou, com volubilidade, a falar de outras coisas, de D. Felicidade, de Julião...
- Trabalha muito agora para o concurso - disse Sebastião. - Quem não tenho visto é oConselheiro.
- Mas, quem é essa gente Gamacho, de Belém?
Sebastião encolheu os ombros - e com um ar quase repreensivo:
- Ora, realmente tomou a sério...
Luísa interrompeu-o:
- Ah! Sabe? Meu primo Basílio partiu.
Sebastião teve um alvoroço de alegria.
- Sim?
- Foi para Paris; não creio que volte. - E depois de uma pausa, parecendo ter esquecido Jorge, ea carta: - Só em Paris está bem... Estava no ar para partir. - Acrescentou com pancadinhas leves nas pregas do vestido: - Precisava casar, aquele rapaz.
- Para assentar - disse Sebastião.
Mas Luísa não acreditava que um homem que gostava tanto de viagens, de cavalos, de aventuras, pudesse dar um bom marido.
Sebastião era de opinião que às vezes sossegavam, e eram homens de família...
- Têm mais experiência - disse.
- Mas um fundo leviano - observou ela.
E depois destas palavras vagas calaram-se com embaraço.
- Eu, a falar a verdade - disse então Luísa -, estimei que meu primo partisse... Como tinhahavido essas tolices na vizinhança... Ultimamente mesmo quase que o não vi. Esteve aí ontem; veio despedir-se, fiquei surpreendida...
Estava tornando impossível a história de um galanteio platônico, cartas trocadas - mas um sentimento mais forte que ela impelia-a a atenuar, distanciar as suas relações com Basílio. Acrescentou mesmo:
- Eu sou amiga dele, mas somos muito diferentes... Basílio é egoísta, pouco afeiçoado... Deresto a nossa intimidade nunca foi grande...
Calou-se bruscamente; sentiu que se enterrava.
Sebastião lembrava-se ouvir-lhe dizer que tinham sido criados ambos de pequenos; mas, enfim, aquela maneira de falar do primo, parecia-lhe a prova maior de que não houvera nada. Quase se queria mal pelas dúvidas, que tivera, tão injustas!...
- E volta? - perguntou.
- Não me disse, mas não creio. Em se pilhando em Paris!
E com a idéia da carta, de repente:
- Então Sebastião é o confidente de Jorge?
Ele riu:
- Oh, minha senhora! Pois acredita...
- E a mim quando me escreve, que se aborrece, que está só, que não suporta o Alentejo... - Masvendo Sebastião olhar o relógio: - O quê, já? É cedo.
Tinha de estar na Baixa antes das três, disse ele.
Luísa quis retê-lo. Não sabia para quê - porque a cada momento sentia a sua resolução diminuir, desaparecer como a água de um rio que se absorve no seu leito. Pôs-se a falar-lhe das obras de Almada.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.