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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Chegara tão cansado, de corpo e de espírito, tão desnorteado, tão incapaz de pensar e de sentir que entrara maquinalmente naquela casa hospitaleira, maquinalmente aceitara o quarto, a cama, os obséquios que lhe ofereciam, e só naquela manhã recobrara a presença de espírito, a lucidez necessária para relacionar os fatos com as pessoas, religar a corrente das idéias e dos acontecimentos, dar-se contas da sua situação presente e reconstituir o passado de três dias, espaço de tempo que fazia uma solução de continuidade na sua vida mental. Naquele prazo decorrido tudo lhe havia passado, não desapercebido, porque os mínimos detalhes se lhe gravavam na memória, mas vago, obscuro, como em sonho, ou alheio à sua individualidade psíquica, como quadros e figuras dum caleidoscópio gigante, de que ele fosse o espectador único, distraído e desinteressado. A enorme tensão de espírito que os últimos acontecimentos da sua vida lhe haviam produzido, a meditação aturada e constante dum tema único, no meio de vicissitudes e acidentes que o obrigavam a atender às realidades objetivas, haviam-no de súbito mergulhado num colapso profundo, que lhe tirara a noção exata do eu, e o fazia estranho à sua própria personalidade. Agia, falava, movia-se, mas como se um outro por ele estivesse preenchendo essas funções vitais. A sensibilidade estava embotada, o pensamento adormecido. Os fatos, as pessoas, os quadros passavam-lhe por diante dos olhos, mas não sabia dar-lhes a verdadeira significação, ficava indiferente, como se tudo aquilo não tivesse relação alguma com a sua pessoa. Entretanto agora, repousado, tranqüilo, sentindo-se bem naquela cama, em que estirava os membros para verificar se haviam recobrado a antiga energia e elasticidade, naquele quarto onde a luz suave da manhã lhe patenteava o conforto relativo de que se privara por tantos dias, parecia que abria de novo o entendimento à percepção exata das coisas, e que de pronto entrava na posse das suas faculdades mentais. Então queria examinar o passado, informar-se do que o outro fizera, vira e ouvira, para reatar o fio da sua vida, o curso das suas meditações. Começava por querer assenhoriar-se do presente, explicando a sua situação e permanência naquela casa perdida nas brenhas do igarapé da Sapucaia, em pleno Guaranatuba, mas já o aspecto daquela habitação sertaneja, misto inexplicável de atraso e de civilização, de simplicidade rústica e de um confortável estranho naquelas paragens, punha-o em confusão, baralhando-lhe as idéias.

Aquela casa tinha uma história, e a recordação dessa história prendia-se à lembrança de fatos que a tinham antecedido na memória do padre; e não podia acudir-lhe sem que primeiro viessem pela ordem do tempo os acontecimentos que a haviam originado. Quem a contaria? Que série de fatos a tornara necessária? A recordação dessa história lhe daria a razão de ser da sua estada naquela cama e naquele quarto? Os fatos do passado lhe vinham vindo pouco a pouco à memória, porém sem ordem nem clareza, intercalando-se o que vira com o que lhe haviam contado, o que observara com o que ouvira. Faltava-lhe o nexo dos acontecimentos. Via-se na situação de quem lesse o último capítulo duma narrativa sem ter lido os primeiros.

Não conseguiria jamais coordenar as suas reminiscências, evocar os fatos do passado mais antigo sem que a percepção do presente ou a lembrança do passado mais recente se lhes interpusesse, para desviar-lhe a atenção e obscurecer-lhe a memória? Faria um esforço de abstração, e para a completar, fecharia os olhos, a fim de não ver o quarto, as paredes caiadas, o ladrilho lavado, as imagens dos santos penduradas em quadros de pau pintado de preto.

E então, lucidamente as recordações lhe foram chegando, em ordem, concatenadas, como uma história que lhe tivessem contado. Primeiro, de súbito, nas trevas, procurando remontar-se ao mais longínquo passado, via-se ajoelhado, olhos para o céu numa fervorosa prece, esperando o golpe que lhe deviam dar João Pimenta e Felisberto enquanto o Macário corria para o porto...

Sim, desta vez, a sua memória não o iludia. Os dois tapuios que de terçado em punho, cortando o mato que lhes impedia a passagem, se dirigiam para ele, eram o João Pimenta e o Felisberto. Um era velho, de face enrugada, cabelos pretos e corredios, narinas e beiços furtados, fisionomia de selvagem mal iniciado na civilização, em que sobressaía principalmente a estupidez, estampada numa larga face achatada, sem vida. O outro, o Felisberto, o insuportável tagarela que com a sua verbiagem tola concorria para aturdi-lo, era moço, muito menos trigueiro do que o velho, nariz grosso, olhos pretos e belíssimos dentes, aparados em ponta, o que lhe dava um vago ar canino. Este não mostrava indícios de haver sofrido nos lábios, nas narinas nem nas orelhas as perfurações em voga. Era mestiço, segundo o indicavam a cor do rosto, o leve ondeado da farta cabeleira mal tratada, e tinha também um certo ar palerma, que lhe garantia a consangüinidade com o velho; era mais a simplicidade de espírito do que a estupidez profunda que a pródiga natureza gravara com mão pesada na fronte enrugada do companheiro. Ambos vestiam apenas calças de riscado azul e traziam terçados americanos e espingardas Laporte. Os troncos nus luziam ao sol, destacando-se o do velho no meio da folhagem com uns tons quentes de urucu e jenipapo, cuja tinta o revestia de desenhos caprichosos com antiga e indelével tatuagem, e o do moço desmaiando em coloração branda de entrecasca de canela, nos contornos cheios, de suavidade feminina...

Tendo-os assim retratado complacentemente, começou a vê-los logo em ação, seguindo-os com uma curiosidade nova. Via-os, quando os supunha agressivos e ferozes, caindo-lhe aos pés, extáticos, fascinados, pedindo-lhe a benção, balbuciando palavras de humildade, na crença, como depois lhe disseram, que era a alma do padre santo João da Mata. Eram moradores do furo da Sapucaia, que atravessa do Sucundari para o Mamiá até o rio Abacaxis, e ali viviam desde que o velho, avô do moço, deixara de ser tuxaua duma tribo de mundurucus para batizarse e vir a ser camarada do vigário de Maués, o santo padre João. Andavam naquela ocasião a colher guaraná e castanhas por sua conta, pois que o padre santo morrera, havia já tempo bastante para estar fedendo de velho lá no céu.

(continua...)

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