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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Raimundo! gritou a moça com um gemido.

E abraçou-se à avó vibrando toda numa convulsão de soluços.

O rapaz saiu e achou-se no meio da rua, distraído apatetado, sem saber bem para que lado tinha de tomar. “Ah! precisava ainda fazer algumas compras...” Pôs-se a aviá-las; nem havia tempo a perder correu às lojas. Mas, independente da sua vontade e do seu discernimento dentro dele alimentava-se por conta própria, uma dúbia esperança de que aquela viagem não se realizaria; contava topar com qualquer obstáculo que a transtornasse; confiava num desses abençoados contratempos que nos acodem muito a propósito, quando a despeito do coração, cumprimos o que nos manda o dever. Desejava um pretexto que lhe satisfizesse a consciência.

Entrou em várias casas, comprou charutos, um par de chinelas, um boné, mas fazia tudo isto como por mera formalidade, como que para justificar-se aos seus próprios olhos, cada vez mais abstrato sem prestar atenção a coisa alguma. Foi ao armazém, em que mandara, logo ao romper do dia, depositar as suas malas; contava, ao entrar aí, receber a noticia de que elas já lá não estavam, que alguém as havia reclamado que alguém as roubara, e esta circunstância lhe impediria de sair por aquele vapor; mas qual! todos os seus objetos se achavam intactos e respeitosamente vigiados. Mandou carregar tudo para a rampa e seguiu atrás, esperando ainda que na Agencia lhe dariam a noticia de que a viagem fora transferida para o dia seguinte.

Pois sim!...

Não havia remédio senão ir. Estava tudo pronto tudo concluído, só `lhe faltava embarcar. Despedira-se de todos a quem devia essa fineza nada mais tinha que fazer em tenra; as suas malas estavam já a caminho do cais - era partir!

Senha um terrível desgosto em aproximar-se do mar, e contudo era para lá que ele se dirigia, vacilante, oprimido. Consultou o relógio, o ponteiro marcava pouco mais de oito horas e parecia-lhe como nunca disposto a adiantar-se. O desgraçado, depois disso perdeu de todo a coragem de puxá-lo da algibeira; aquela inflexível diminuição do tempo o torturava profundamente. “Tinha de seguir! Diabo! Só lhe faltava meter-se no escaler!... Tinha de seguir! E, daí a pouco estaria a bordo, e o paquete em breve navegando, a afastar-se, a afastar-se, sem tomar atrás!... Tinha de seguir! isto é: tinha de renunciar, para sempre a sua única felicidade completa - a posse de Ana Rosa! lá desaparecer deixá-la, para nunca mais a ver! para nunca mais a ouvir, abraçá-la possuí-la! Inferno!”

E, à proporção que Raimundo se aproximava da rampa sentia escorregar-lhe das mãos um tesouro precioso. Tinha medo de prosseguir, parava, respirando alto, demorando-se, como se quisesse conservar por mais alguns instantes a posse de um objeto querido, que depois nunca mais seria seu, mas a razão o escoltava com um bando de raciocínios. “Caminha! caminha pra diante!” gritava-lhe a maldita. E ele obedecia, de cabeça baixa, como um criminoso. Entretanto, Ana Rosa nunca se lhe afigurou tão bela, tão adorável, tão completa e tão lhe como naquele momento! chegou a ter ciúme e a censurá-la do intimo da sua dor, porque a orgulhosa não correra ao encontro dele, para impedir aquela separação. E ia deixá-la desamparada, exposta ao amor do primeiro ambicioso que se apresentasse, e a quem ela se daria inteira, fiel, palpitante e casta, porque todo o seu ideal era ser mãe! “Inferno! Inferno!” Inferno!”

Raimundo surpreendeu-se parado na rua, a fazer estas considerações, como um tonto, observado pelos transeuntes; olhou em tomo de si, e pôs-se a caminhar apressado, quase a correr, para a rampa de embarque. À medida que se aproximava do mar, ia avultando ao seu lado o número de carregadores de bagagens; pretos e pretas passavam com baús, malas de couro e de folha-deflandres, cestas de vime de todos os feitios, cofos de pindoba, caixas de chapéu de pêlo e gaiolas de pássaros. Ele continuava a correr. Todo aquele aparato de viagem que lhe fazia mal aos nervos. De repente, estacou defronte de um raciocínio, que lhe puxou aos olhos um clarão de esperanças: “E se o Manuel não tivesse ido ao cais?... Sim era bem possível que ele, sempre tão cheio de serviço, coitado! tão ocupado, não pudesse lá ir!... E seria uma dos diabos - partir assim, sem lhe dizer adeus!...” E, como em resposta à oposição de um estranho, seu pensamento acrescentou: “Oh! como não? Seria uma dos diabos! O homem podia tomar por acinte!... supor-me ridículo!... Seria, além disso, uma imperdoável grosseria, uma ingratidão até! Ele foi receber-me a bordo, hospedou-me no seio da sua família, cercou-me sempre de mi! obséquios!... Não, no fim de contas devo-lhe muitas obrigações!... Não é justo que agora parta sem despedir-me dele!...”

Passava um cano vazio. Raimundo consultou rapidamente o relógio.

— Rua da Estrela, número 80, gritou ao cocheiro, atirando-se para cima da almofada. Toda força! Toda força! Não podemos perder um minuto!

(continua...)

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