Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Das portas algumas tinham sido arrancadas, outras postas por terra. Só as janelas estavam nos seus lugares. Lourenço não pode fugir de entrar, não obstante sua pressa em chegar à casa grande. O estado interior da habitação do almocreve não era mais animador do que o seu estado exterior. Tamboretes, caixas de madeira, giraus de varas, potes, estavam despedaçados e destruídos. Lia-se ali só perversidade, porque nesses moveis e vasilhas ninguém suspeitava a existência de objetos que pudessem tentar a cobiça, e explicar até certo ponto a sua violação ou arrombamento. E para onde teriam fugido as mulheres? inquiriu de se para se o matuto. Ao montar de novo, o espirito cheio de pesar e incertezas, lançou Lourenço as vistas casualmente ao chiqueiro, onde Joaquina tinha o cevado, que devia dar uma fartadela à família no dia de S.Thomé. A sangueira, que cobria o chão desde o chiqueiro até a meia-agua de palha, a cuja sombra as mulheres lavavam a sua roupa, fazia certo que o cevado passara pela execução capital antes do dia aprazado, e que se tinham aproveitado dele, não a família, que devia encher de alegrias, mas os salteadores e assassinos. O banco de lavar roupa, coberto de sangue, e aos pés dele uns restos de palha queimada indicavam que ali mesmo se praticara o cruento sacrifício.

Triste e colérico ao mesmo tempo, Lourenço prosseguiu o caminho.

Adiante apareceu-lhe a casa de Manoel das Dores, matuto muito pegado com Victorino, de quem se dizia contra-parente. Este sujeito era solteirão do lugar. Vivia muito metido consigo mesmo, e só uma vez ou outra surgia sem ser esperado em casa dos vizinhos.

Ainda de longe o rapaz reconheceu que por ali passara também o devastador soão. As portas, às escancaras, deixavam à mostra a destruição efetuada dentro. Não havia ficado ai pedra sobre pedra. Pela estreita sala viam-se espalhadas esteiras e roupas velhas. O chão fora revolvido à ponta de espada ou de ferro-de-cova. Praticando assim, os salteadores deixavam manifesta a sua intenção. Tinham procurado dar com o mealheiro em que se dizia guardava o velho a pratinha que podia ajuntar.

- Oh meu Deus! Não vejo ninguém. Onde se meteu esse povo? Nem morador nem negro do engenho! Parece que todos fugiram para o mato com medo dos ladrões.

Estas palavras escaparam dos lábios de Lourenço como uma dor que não cabia no coração.

Adiante da casa do velhote, era a de Sabino, em cuja companhia morava Saturnino. Do lado de fora, ao pé da porta da frente, via-se um volume imóvel, no meio de uma poça de sangue, por cima do qual esvoaçava um enxame de moscas. Era o cão de Sabino, que por ser fiel defensor da morada de seu senhor, e ter feito fortes e repetidas investidas sobre os assaltantes, para impedir que entrassem, recebera uma bala, que o deixou por terra, com a cabeça aberta e a língua a nadar sobre sanguinolento escumeiro.

Começou a impressionar-se Lourenço com esta solidão, este deserto cruel em que só se lhe deparavam indícios de atrocidades e carnificinas, de fraqueza e terror.

Tinha já descoberto o oitão da casa grande e ia passar para ela por entre a capela e o pomar, quando um vulto se lhe apresenta do lado dos canaviais. Afirmando a vista, reconheceu Marianinha.

Correu para ela tomado de súbita alegria. As antigas reservas e aborrecimentos não lhe lembraram nesse momento. A presença da moça fora como um raio de luz que atravessara as densas sombras que enchiam o espirito do rapaz.

- Você por aqui, Marianinha?! Estou cansado de ver solidão, estragos e sangue. Onde está sua gente? Não ouço nenhum rumor, nem vejo ninguém na casa grande. Que quer dizer isto?

- A primeira resposta da moça foram as lagrimas. Depois, em rápidas palavras, ela contou toda a desgraça, ou antes a serie de desgraças de que o engenho fora teatro momentos antes.

- Ouvindo a fúnebre narração, Lourenço não soube o que dizer por alguns instantes. Ficou a modo de privado, do uso da razão. O pesar, a cólera, o desejo de vingar-se o tiveram entre o idiotismo e a loucura. O estado melindroso de suas faculdades aumentou ainda mais, quando ele soube que no engenho não havia ninguém com quem contar para ir em socorro dos que estavam precisando dele na vila. Alguns corpos sem vida era só o que restava das forças que tinham ficado para defesa da casa grande. Os negros que no combate não tinham caído mortos ou feridos, esses haviam fugido para o mato, determinados a não voltarem segunda vez para a escravidão.

- Para contar o acontecido, Marianinha parara ao pé da ingazeira centenaria que se levantava de um dos lados do caminho, e que com outras formava uma como galeria por cima do braço de rio que cortava por dentro do cercado. Foi ai, na sombra e no retiro, que davam mais solenidade ás suas palavras, mais gravidade a seus prantos, que ela desfiou o rosário dos episódios de que tinha conhecimento. Quando chegou ao da morte de Victorino, a pobre rapariga entrou a chorar como louca.

- - Vamos para fora, Marianinha, disse Lourenço, vencendo a custo sua comoção. Quero ver sua mãe. Vamos, sim, disse a moça. Eu tinha vindo em busca de Saturnino para ajudar minha mãe... - Ajudá-la a que...?

Você vai já saber, Lourenço – respondeu a moça, deixando-se banhar cada vez mais em suas aflitas lagrimas. Do lado de fora da galeria, à luz livre da manhã, luz graciosa e tépida que parecia um sorriso de noiva, luz que patenteava os mínimos acidentes da natureza, pode Lourenço ver melhor Marianinha.

Trazia ela os cabelos revoltos, avermelhados os olhos de muito chorar, crestada a macia pelúcia das faces, que não obstante mais acesas se mostravam de natural rubor. Mas esses olhos, posto que chorosos, tristes e afligidos, eram ainda tão matadores, tão ternos, que parecia concentrarem em se toda a suavíssima beleza, esparzida pelas várzeas, pelos vales distantes, na luz que caia do céu como chuva de ouro, nas flutuações da folhagem, na frescura das vastas sombras, atiradas como leitos de paz e tranqüilidade no meio da solidão rica de esplendores e cantos.

Entraram na capela pela portinha da sacristia.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...8990919293Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →