Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Criam-se no rio de São Francisco umas alimárias tamanhas como poldros, às quais os índios chamam jaguaruçu, que são pintadas de ruivo e preto e malhas grandes; e têm as quatro presas dos dentes do tamanho de um palmo; criam-se na água deste rio, no sertão; de onde saem à terra, a fazer suas presas em antas; e ajuntam-se três e quatro destas alimárias, para levarem nos dentes a anta ao rio, onde a comem à sua vontade, e a outras alimárias; e também aos índios que podem apanhar.Jaguaracanguçu é outra alimária e casta de tigres ou onça da que tratamos já; e são muito maiores, cuja cabeça é tão grande como de um boi novilho. Criam-se estas alimárias pelo sertão, longe do mar, e têm as feições e mais condições dos tigres de que primeiro lalamos. Quando essas alimárias matam algum índio que se encarniçam nele, fazem despovoar toda uma aldeia, porque em saindo alguma pessoa dela fora de casa não escapa que a não matem e comam.Há outra alimária, a que o gentio chama suçurana, que é do tamanho de um rafeiro, tem o cabelo comprido e macio, o rabo como cão, o rosto carrancudo, as mãos como rafeiro, mas tem maiores unhas e mui agudas e voltadas; vivem da rapina, têm muita ligeireza para correr e saltar; e são semelhantes na rapina ao lobo, e matam os índios se os podem alcançar, e pela terra adentro as há muito maiores que na vizinhança do mar. Para os índios matarem estas alimárias esperam-nas em cima das árvores, de onde as flecham, e lhes comem a carne; as quais não têm mais que uma só tripa.
C A P Í T U L O XCVII
Em que se declaram as castas dos veados que esta terra cria.
Criam-se nos matos desta Bahia muitos veados, a que os índios chamam suaçu, que são ruivos e tamanhos como cabras, os quais não têm cornos nem sebo, como os da Espanha. Correm muito; as fêmeas parem uma só criança. Tomam-nos em armadilhas, e com cães; cuja carne é sobre o duro, mas saborosa; as peles são muito boas para botas, as quais se curtem com casca de mangues; e fazem-se mais brandas que as dos veados da Espanha.Mais pela terra adentro, pelas campinas, se criam outros veados brancos, que têm cornos, que não são tamanhos como os da Espanha, mas são muito maiores que os primeiros, os quais andam em bandos, como cabras, e têm a mesma qualidade das que se criam perto do mar.Entrando pelo mato além das campinas, na terra dos taba-jaras, se criam uns veados ruivaços, maiores que os da Espanha, e de maior cornadura, dos quais se acha armação pelo mato de cinco e seis palmos de alto, e de muitos galhos; os quais mudam os cornos como os da Espanha, e têm as peles muito grossas, e não têm nenhum sebo; as fêmeas parem uma só criança, às quais os índios chamam suaçuapara, cuja carne é muito boa; os quais matam em armadilhas, em que os tomam, às flechadas.
C A P Í T U L O XCVIII
Em que se trata de algumas alimárias que se mantêm de rapina.
Tamanduá é um animal do tamanho de raposa, que tem o rosto como furão; a cor é preta, rabo delgado na arreigada, e com o cabelo curto; e daí para a ponta é muito felpudo, e tem nela os cabelos grossos como cavalo, e tamanhos e tantos que se cobre todo com eles quando dorme; tem as mãos como cão, com grandes unhas e muito voltadas, e de que se fazem apitos. Este bicho se mantém de formigas, que toma da maneira seguinte: chega-se a um formigueiro deita-se ao longo dele como morto, e lança-lhe a língua fora, que tem muito comprida, ao que acodem as formigas, com muita pressa; e cobrem-lhe a língua, umas sobre as outras; e como a sente bem cheia, recolhe-a para dentro, e engole-as; o que faz até que não pode comer mais, cuja carne comem os índios velhos, que os mancebos têm nojo dela.Jaguapitanga é uma alimária do tamanho de um cachorro, de cor preta, e tem o rosto de cordeiro; tem pouca carne, as unhas agudas, e é tão ligeira que se mantém no mato de aves que andam pelo chão, toma a cosso, e em povoado faz ofício de raposa, despovoa uma fazenda de galinha que furta.Quati é um bicho tamanho como gato, tem o focinho como furão e mais comprido. São pretos, e alguns ruivos; têm os pés como gato, o rabo grande felpudo, o qual trazem sempre levantado para o ar; são mui ligeiros, andam pelas árvores, de cujas frutas se mantêm, e os pássaros que nelas tomam. Tomam-nos os cães quando os acham fora do mato, a que ferem com as unhas mui valentemente; os novos se amansam em casa, onde tomam as galinhas que podem alcançar; as fêmeas parem três e quatro.Maracajás são uns gatos bravos tamanhos como cabritos de seis meses; são muito gordos, e na feição pontualmente como os outros gatos, mas pintados de amarelo e preto em raias, coisa muito formosa; e são felpudos, mas têm o rabo muito macio, e as unhas grandes e muito agudas; parem muitos filhos, e man-têm-se das aves que tomam pelas árvores, por onde andam como bugios. Os que se tomam pequenos fazem-se em casa muito domésticos, mas não lhes escapa galinha nem papagaio, que não matem. Sariguê é um bicho do tamanho de um gato grande, de cor preta e alguns ruivaços; tem o focinho comprido e o rabo, no qual, nem na cabeça, não tem cabelo; as fêmeas têm na barriga um bolso, em que trazem os filhos metidos, enquanto são pequenos, e parem quatro e cinco; têm as tetas junto do bolso, onde os filhos mamam; e quando emprenham geram os filhos neste bolso, que está fechado, e se abre quando parem; onde trazem os filhos até que podem andar com a mãe; que se lhe fecha o bolso. Vivem estes de rapina, e andam pelo chão, escondidos espreitando as aves, e em povoado as galinhas; e são tão ligeiros que lhes não escapam.
C A P Í T U L O XCIX
Que trata da natureza e estranheza do jagurecaca.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.