Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

A noite estava quente, e na sua inquietação a roupa escorregara; apenas lhe restava o lençol sobre o corpo. As vezes a fadiga readormecia-a de um sono superficial, cortados de sonhos muito vivos. Via montões de libras reluzirem vagamente, maços de notas agitarem-se brandamente no ar. Erguia-se, saltava para as agarrar, mas as libras começavam a rolar, a rolar como infinitas rodinhas sobre um chão liso, e as notas desapareciam voando muito leves com um frêmito de asas irônicas. Ou então era alguém que entrava na sala, curvava-se respeitosamente, e começava a tirar do chapéu, a deixar-lhe cair no regaço libras, moedas de cinco mil réis, peças, muitas, profusamente; não conhecia o homem; tinha um chinó vermelho e uma pêra impudente. Seria o diabo? Que lhe importava? Estava rica, estava salva! Punha-se a chamar, a gritar por Juliana, a correr atrás dela, por um corredor que não findava, e que começava a estreitar-se, a estreitar-se, até que era como uma fenda por onde ela se arrastava de esguelha, respirando mal, e apertando sempre contra si o montão de libras que lhe punha frialdades de metal sobre a pele nua do peito. Acordava assustada; e o contraste da sua miséria real com aquelas riquezas do sonho, era como um acréscimo de amargura. Quem lhe poderia valer? - Sebastião! Sebastião era rico, era bom. Mas mandá-lo chamar, e dizer-lhe ela, ela Luísa, mulher de Jorge: - "Empreste-me seiscentos mil réis". - Para quê, minha senhora?" E podia lá responder: "Para resgatar umas cartas que escrevi ao meu amante". Era lá possível! Não, estava perdida. Restava-lhe ir para um convento.

A cada momento voltava o travesseirinho que lhe escaldava o rosto; atirou a touca, os seus longos cabelos soltaram-se; prendeu-os ao acaso com um gancho; e de costas, com a cabeça sobre os braços nus, pensava amargamente no romance de todo aquele verão - a chegada de Basílio, o passeio ao Campo Grande, a primeira visita ao Paraíso...

Onde iria ele, aquele infame? Dormindo tranqüilamente nas almofadas do vagão!

E ela ali, na agonia!

Atirou o lençol; abafava. E descoberta, mal se distinguindo da alvura da roupa, adormeceu, quando a madrugada rompia.

Acordou tarde, sucumbida. Mas logo na sala de jantar a beleza da manhã gloriosa reanimou-a. O sol entrava abundante e radioso pela janela aberta; os canários faziam um concerto; da forja ao pé saía um martelar jovial; e o largo azul vigoroso levantava as almas. - Aquela alegria das coisas deu-lhe como uma coragem inesperada. Não se havia de abandonar a uma desesperança inerte... Que diabo! Devia lutar!

Vieram-lhe esperanças, então. Sebastião era bom; Leopoldina tinha expedientes; havia outras possibilidades, o acaso mesmo; e tudo isto podia, em definitivo, formar seiscentos mil réis, salvá-la! Juliana desapareceria, Jorge voltaria! - E, alvoroçada, via perspectivas de felicidades possíveis reluzirem, no futuro, deliciosamente.

Ao meio-dia veio o criadito de Sebastião; o senhor tinha chegado de Almada; desejava saber como a senhora estava.

Correu ela mesma à porta; que pedia ao Sr. Sebastião, que viesse logo que pudesse!

Acabou-se! Sentia-se resoluta, ia falar a Sebastião... No fim era o que lhe restava: contar ela tudo a Sebastião, ou que a outra contasse tudo a seu marido. Impossível hesitar! E depois podia atenuar, dizer que fora só uma correspondência platônica... A partida de Basílio, além disso, fazia daquele erro um fato passado, quase antigo... E Sebastião era tão amigo dela!

Veio; era uma hora. Luísa que estava no quarto sentiu-o entrar, e só o som dos seus passos grossos no tapete da sala deu-lhe uma timidez, quase um terror. Parecia-lhe agora muito difícil, terrível de dizer... Preparara frases, explicações, uma história de galanteio, de cartas trocadas; e estava com a mão no fecho da porta, a tremer. Tinha medo dele! Ouvia-o passear pela sala; e receando que a impaciência lhe desse mau humor, entrou.

Afigurou-se-lhe mais alto, mais digno; nunca o seu olhar lhe parecera tão reto, e a sua bata tão séria!

- Então que é? Precisa alguma coisa? - perguntou-lhe ele depois das primeiras palavras sobreAlmada, sobre o tempo.

Luísa teve uma cobardia indominável, respondeu logo:

- É por causa de Jorge!

- Aposto que não lhe tem escrito?

- Não.

- Esteve muito tempo sem me escrever também. - E rindo:- Mas hoje recebi duas cartas poratacado.

Procurou-as entre outros papéis que tirou da algibeira. Luísa fora sentar-se no sofá; olhava-o com o coração aos pulos, e as suas unhas impacientes raspavam devagarinho o estofo.

- É verdade - dizia Sebastião, revolvendo o maço de papéis - Recebi duas; fala em voltar; dizque está muito secado... - E estendendo uma carta a Luísa: - Pode ver.

Luísa desdobrara-a, e começava a ler; mas Sebastião, estendendo a mão precipitadamente:

- Perdão, não é essa!

- Não, deixe ver...

- Não diz nada, são negócios...

- Não, quero ver!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...8990919293...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →