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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Quando o pobre do Totônio Bernardino ficou bem enterrado sob uma grande camada de terra negra e úmida, e os convidados começaram a retirar-se, o Chico Fidêncio passou o pendão do Santíssimo às mãos do Quinquim da Manuela, e chamando o sacristão Macário, levou-o para um canto, passando-lhe um braço pelo pescoço, numa familiaridade agradecida.

Queria mostrar-lhe uma cópia da correspondência que enviara pelo último paquete ao Democrata de Manaus. Tratava da missão à Mundurucânia.

E naquele canto do cemitério, à fraca claridade do crepúsculo da tarde, o Chico Fidêncio leu o seguinte trecho:

"O escritor destas modestas e despretensiosas linhas gaba-se de não se deixar iludir pelos homens de roupeta e chapéu de três bicos que o senhor D. Antônio encomenda para Roma, ou forja no Seminário maior para a obra da romanização (permitam-me o vocábulo) da sua diocese; mas sabe curvar-se diante dos verdadeiros apóstolos do Nazareno, que não vendem indulgências, mas expulsam os vendilhões do templo.

Por mais livre-pensador e despido de abusões ridículas que um homem se preze de ser, não pode deixar de admirar o zelo (digno de melhor causa!) desses ministros de Cristo, que, desprezando os regalos da vida que lhes facilita o erário público, fornecendo-lhes um excelente lugar à mesa do orçamento, atiram-se aos perigos da catequese dos íncolas da floresta, através de mil privações e misérias, para granjearem a palma dum martírio sublime, mas inútil para á sociedade, porque os índios são uma raça decadente e refratária ao progresso, e que, conforme já se provou na grande República Americana, só podem ser civilizados a tiro. Padre Antônio de Morais era um desses raros exemplos de abnegação e culto do Evangelho. Era um soldado da idéia (antiquada!) que soube morrer no seu posto, e que deve servir de modelo aos carcamanos que nos mandam de Roma. O escritor desta, mais do que qualquer outro, tem o dever de fazer-lhe justiça, porque, vendo os seus ares modestos e os seus olhos baixos, cometeu o erro de tomá-lo por um desses muitos hipócritas que zombam da religião e da sociedade, introduzindo a discórdia no seio das famílias, e que tanto abundam no clero paraense. Felizmente, para que os ilustres feitos desse apóstolo da fé de nossos pais não ficassem desconhecidos, o Acaso conservou-nos o seu modesto, mas digno companheiro, o honrado e zeloso sacristão da freguesia, Sr. Macário de Miranda Vale, salvo da sanha dos parintintins pelo cego instinto roedor dum pobre animalejo, no qual o povo ignorante e embrutecido pelos padres quer ver um enviado da Providência Divina..."

CAPITULO X

Felisberto, entreabrindo a porta do quarto, meteu pela fresta a curiosa cabeça, e perguntou:

— Agora está melhor?

O dia estava alto. Jorros de luz intensa penetravam pela abertura da porta, pelo telhado, pelas falhas da taipa. Lã fora não se ouvia ruído algum, como se todos, homens e animais, se tivessem combinado para respeitar o sono do hóspede. Entretanto padre Antônio de Morais não dormia. Muito cedo, ao cantar do galo no terreiro, ao mugir do gado no curral, abrira os olhos, estranhando a cama, o quarto, as paredes grosseiramente caiadas, esburacadas, e limpas, o ladrilho lavado, as imagens de santos penduradas das paredes em quadros pintados de preto, como se estivesse vendo tudo aquilo pela primeira vez. Notava aquele ar de bem-estar confortável, de asseio cuidadoso, a par da falta de comodidades, e da extrema simplicidade duma habitação sertaneja, e aquilo o impressionava agora, pela primeira vez, depois de três longos dias de estada naquele sítio, em pleno Guaranatuba.

(continua...)

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