Por Aluísio Azevedo (1881)
— Oh! se ele me tivesse dado coragem!... monologava a mísera, o que eu não faria?... porque o amava muito! muito! Sim! é preciso confessar que o amava loucamente!... Mas aquele silêncio... Silêncio? Que digo eu?... Desprezo! aquele desprezo insultuoso por mim, que era toda sua, colocou-o abaixo dos outros homens! Pois então ele tão nobre tão leal com todos, devia proceder assim comigo?... Abandonar-me em semelhante ocasião, quando sabia perfeitamente que eu precisava, mais do que nunca, da sua energia e da sua firmeza?... Desconfiaria de que não o amava? Não! falei-lhe com tanta franqueza... Ah! e ele sabe perfeitamente que não se pode fingir o que lhe disse, o que chorei! Sim, tinha plena certeza, o miserável! o que lhe faltava era amor! Nunca me estimou sequer. Ou pensaria ele que eu seria capaz como as outras de sacrificar meu coração aos preconceitos sociais?... Mas, então, por que não me falou com franqueza?... não me escreveu ao menos?.. não me disse que também sofria e não me deu animo?... Porque, juro, tivesse-o eu, possuísse-o só meu, como marido, como escravo, como senhor, a tudo mais desprezaria! Juro que desprezada! Que me importava lá o resto?! e o que eu não seria capaz de fazer por aquele ingrato, aquele homem mau e orgulhoso?!
E Ana Rosa soluçava, sem conseguir conciliar o sono.
Às seis da manhã estava de pé e vestida no seu quarto. Manuel tinha saldo a ir buscar o cônego para o embarque de Raimundo. Maria Barbara, ainda de rede, preparava os seus cachos de seda, mirando-se num espelho, que a Brígida segurava com ambas as mãos, ajoelhada defronte dela.
Havia em toda a casa o triste constrangimento dos dias de enterro. Ana Rosa, ao aparecer na varanda, trazia os olhos muito pisados e a cor desbotada, um ar geral de fadiga espalhado por todo o corpo e duas rosetas de febre nas faces. Serviram-lhe uma canequinha de café.
— Onde esta vovó? perguntou ela com a voz fraca.
— Esta lá pra dentro respondeu o moleque cruzando os braços.
— Olha, Benedito! dize-lhe que... Está bom não lhe digas coisa alguma...
E, arrastando vagarosamente a cauda do seu vestido de cambraia e, dando as suas tranças castanhas, pesadas e fartas ondulações de cobra preguiçosa, ia voltar, toda irresoluta, para o quarto, quando se deteve com medo de ficar lã dentro sozinha com a impetuosidade do seu amor e a feminilidade da sua razão. Agora causava-lhe terror o isolamento; receava que lhe faltasse coragem para acabar decentemente com aquilo; desfalecera-lhe de todo a energia, que ela afetara ate aí; ao contrário da véspera, precisava naquele momento ouvir dizer muito mal de Raimundo, para poder consentir em perdê-lo, sem ficar com o coração inteiramente despedaçado. Compreendia que precisava de alguém que a convencesse das mas qualidades de semelhante impostor, alguém que a persuadisse, por uma vez, de que o miserável nunca a merecera, de que de fora sempre um indigno; alguém que a obrigasse a detestá-lo com desprezo, como a um ente nojento e venenoso; precisava afinal de uma alma caridosa, que lhe arrancasse de dentro, à pura força, aquele amor, como o medico arranca uma criança a feno.
E no entanto, por mais alto que reclamassem as circunstâncias e por mais forte que gritasse o raciocínio, seu coração só queria perdoar, e atrair o seu amado e dizer-lhe francamente que, apesar de tudo, o estremecia ainda como sempre, mais que nunca! A realidade estava ali a exigir em honra do seu orgulho, que tudo aquilo se acabasse sem um protesto por parte dela; a exigir que Raimundo partisse, que se fosse por uma vez e que Ana Rosa ficasse tranqüila, ao abrigo de seu pai, mas uma voz chorava-lhe dentro, uma voz fraca de órfão desamparado, de criancinha sem mãe, a suplicar-lhe em segredo, com medo, que não estrangulassem aquele primeiro amor, que era a melhor coisa de toda a sua vida. E esses vagidos, tão fracos na aparência, suplantavam a voz grossa e terrível da razão. “Oh! era preciso ouvir muitas e muitas verdades contra aquele ingrato, para suportar tamanha provação sem sucumbir! Era preciso que uma lógica de ferro em brasa a convencesse de que aquele homem mau nunca a amara e nunca a merecera!”
Mandou o escravo chamar a avó. Benedito foi ter com Maria Bárbara; e a moça ficou só na varanda, encostada à ombreira de uma porta a conter e reprimir nos soluços os ímpetos dos seus desejos violentados, como se sofreasse um bando de leões feridos.
Um tropel de passos rápidos, que vinham da escada, sobressaltou-a, ia fugir, mas Raimundo, aparecendo de improviso, suplicou-lhe com a voz tomada pela comoção, que o escutasse.
Ana Rosa ficou estática.
— Não nos veremos mais, nunca mais, balbuciou o moço, empalidecendo. O vapor sai daqui a poucas horas. Lê essa carta, depois que eu tiver partido. Adeus.
Entregou-lhe uma carta e, sentindo que lhe fugia de todo o animo, ia a descer, muito confuso, quando se lembrou de Maria Bárbara. Perguntou por ela, que acudiu logo, e ele despediu-se, sem saber o que dizia, gaguejando. Ana Rosa, defronte de ambos, conservava-se imóvel parecia estonteada, não dava uma palavra, não respondia, não apresentava uma objeção.
— Adeus, repetiu Raimundo.
E tomou, trêmulo, a mão que Ana Rosa tinha desamparada e mole apertou-a nas suas com sofreguidão e, sem se importar com a presença de Maria Bárbara, levou-a repetidas vezes à boca, cobrindo-a de beijos rápidos e sequiosos. Depois desgalgou de uma só carreira a escada dando encontrões pela parede e tropeçando nos degraus.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.