Por Franklin Távora (1878)
- Morto! Morto! Fostes cruéis, senhores! Exclamou como alucinada a senhora-de-engenho. Quem praticou tamanho latrocínio? Oh meu Deus! Que horror!
- Não foi nenhum de nós – responderam Francisco e Filipe ao mesmo tempo.
Não foi nenhum de nós, repetiu o sargento-mór, fitando na mulher seu olhar inflamado e a modo de pasmo. Mas eu o mataria, se fosse eu o primeiro a encontra-lo. Era um espirito danado.
- Engana-vos. Era uma alma generosa, um bom coração; era um mártir – respondeu d. Damiana em lagrimas. Ele ia a salvar-vos, Sr. João da Cunha, supondo em perigo a vossa vida. Oh! meu Deus, por que razão as grandes criaturas não se hão de entender melhor e formar uma companhia só na terra? Mas fujamos daqui. Não posso ter os olhos nesta desgraça que me esmaga.
E a senhora-de-engenho foi a primeira que deu o exemplo da retirada.
Era tempo de se ausentarem todos desse ponto deserto, porque Luiz Soares, batido fortemente pelo ajudantede-tenente Gil Ribeiro, pelo ajudante Felipe Bandeira e pelo capitão Antonio Rabelo, demandava esse lado para escapulir-se com sua gente. Conseguiu-o, com mais quinhentos, entre Paraibanos e portugueses. Enfim, segundo anunciara o sargento-mór, algumas horas depois Goiana estava pacificada.
Mas era contristador o aspecto que apresentava, como facilmente se imagina. O saque tinha deixado nas casas vestígios profundos de sua passagem fecunda em ruínas e desastres. O sangue manchava a terra, berço de tantos heróis ilustres e afamados. No Pátio-do-Carmo, de mistura com vários cadáveres pertencentes aos invasores, viam-se alguns das forças legais, e muitos da escravatura de João da Cunha.
Jeronimo Paes, os filhos, Belchior, e outros proeminentes vultos do partido vencido tinham sido presos, e daí a três dias seguiam para Olinda, no meio da tropa vitoriosa de Gil Ribeiro. Paes mal podia consigo. Recebera durante a luta nove tiros, e inumeráveis cutiladas na cabeça.
Conta-se que, por ocasião de lhe darem na prisão a noticia da morte de Coelho, dissera ele o seguinte, formais palavras:
- Se desta não morrer, hei de vingar-me ainda de João da Cunha. O que ele devia a Antonio Coelho há de pagar a mim, quando tivermos de ajustar as nossas contas. Estão muito anchos com o sucesso, esses infames mazombos. Já pensam que os mascates se acabaram de uma vez. Estão enganados. Hei de ver ainda João da Cunha e Cosme Bezerra correrem as ruas de Goiana, amarrados com cordas pelas minhas mãos, como se fossem negros fugidos.
Estas palavras foram proféticas. Mas não antecipemos acontecimentos que tem lugar próprio na continuação desta historia.
Diz-se que Zefinha faleceu a cabo de algumas semanas, depois do lastimoso fim de Antonio Coelho, e da prisão do pai e dos irmãos. Atribuem seu falecimento à profunda impressão que produziram nela tão estranhos e cruéis golpes.
Porque não havia de ser assim?
Era uma excelente alma a rapariga.
XXIX
Lourenço tinha tirado para o engenho à desfilada, e antes de chegar ai nuvens de fumo já lhe tinham indicado o que ele suspeitava, pelo que fora vendo ao sair da vila. Em seu trajeto do Cajueiro para esta, os bandoleiros de Pedro de Lima tinham posto fogo nos canaviais, e casas fechadas ou desamparadas, que ardiam agora como se a terra por ali, na combustão primitiva, lhes houvesse comunicado o incêndio.
- Não há que duvidar - disse o rapaz. Andaram por aqui os ladrões. Estiveram no engenho, e quem sabe o que por lá fizeram?
Como tinham cortado quase por dentro do mato os bandoleiros, pode o rapaz chegar ao Cajueiro sem com eles se encontrar; e cedo testemunhou com seus próprios olhos, dando de face com a casa de Vitorino, o estrago, o desbarato, as ruínas, que ai deixara a horda sem freio.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.