Por Eça de Queirós (1887)
Nesse momento soou a grossa sineta do pátio. E foi-me grato reconhecer, depois da longa separação, as duas badaladas curtas e tímidas do nosso modesto Justino; mais grato ainda sentir, logo após, o repique majestoso do Doutor Margaride. Imediatamente a Titi escancarou a porta do meu quarto, numa penosa atarantação:
- Teodorico, filho, ouve! Tem-me estado a lembrar... Parece-me que para destapar a relíquia é melhor esperar até que se vão logo embora o Justino e o Margaride! Ai, eu sou muito amiga deles, são pessoas de muita virtude... Mas acho que para uma cerimônia destas é melhor que estejam só pessoas de igreja...
Ela, pela sua devoção, considerava-se pessoa de igreja. Eu, pela minha jornada, era quase pessoa do céu.
- Não, Titi... O Patriarca de Jerusalém recomendou-me que fosse diante de todos os amigos da casa, na capela, com velas... E mais eficaz... E olhe, diga à Vicência que me venha buscar as botas para limpar.
- Ai eu lhas dou!... São estas? Estão sujinhas, estão! Já cá te vêm, filho, já cá te vêm!
E a senhora Dona Patrocínio das Neves agarrou as botas! E a senhora Dona Patrocínio das Neves levou as botas!
Ah, estava mudada, estava bem mudada!... E ao espelho cravando no cetim da gravata uma cruz de coral de Malta, eu pensava que desde esse dia ia reinar ali, no Campo de Santana, de cima da minha santidade, e que para apressar a obra lenta da morte - talvez viesse a espancar aquela velha.
Foi-me doce, ao penetrar na sala, encontrar os diletos amigos, com casacos sérios, de pé, alargando para mim os braços extremosos. A Titi pousava no sofá, tesa, desvanecida, com cetins de festa e com jóias. E ao lado, um padre muito magro vergava a espinha com os dedos enclavinhados no peito - mostrando numa face chupada dentes afiados e famintos. Era o Negrão. Dei-lhe dous dedos, secamente:
- Estimo vê-lo por cá...
- Grandíssima honra para este seu servo! - ciciou ele, puxando os meus dedos para o coração.
E, mais vergado o dorso servil, correu a erguer o abajur do candeeiro - para que a luz me banhasse, e se pudesse ver, na madureza do meu semblante, a eficácia da minha peregrinação.
Padre Pinheiro decidiu, com um sorriso de doente:
- Mais magro!
Justino hesitou, fez estalar os dedos:
- Mais queimado!
E o Margaride, carinhosamente:
- Mais homem!
O onduloso Padre Negrão revirou-se, arqueado para a Titi como para um sacramento entre os seus molhos de luzes:
- E com um todo de inspirar respeito! Inteiramente digno de ser o sobrinho da virtuosíssima Dona Patrocínio!...
No entanto em torno tumultuavam as curiosidades amigas: "E a saudinha?" "Então, Jerusalém?" "Que tal as comidas?
Mas a Titi bateu com o leque no joelho, num receio que tão familiar alvoroço importunasse São Teodorico. E o Negrão acudiu, com um zelo melífluo:
- Método, meus senhores, método!... Assim todos à uma não se goza... É melhor deixarmos falar o nosso interessante Teodorico!...
Detestei aquele nosso; odiei aquele padre. Por que corria tanto mel no seu falar? Por que se privilegiava ele no sofá, roçando a sórdida joelheira da calça pelos castos cetins da Titi?
Mas o Doutor Margaride, abrindo a caixa de rapé, concordou que o método seria mais profícuo...
- Aqui nos sentamos todos, fazemos roda, e o nosso Teodorico conta por ordem todas as maravilhas que viu!
O esgalgado Negrão, com uma escandalosa privança, correu dentro a colher um copo de água e açúcar para me lubrificar as vias. Estendi o lenço sobre o joelho. Tossi - e comecei a esboçar a soberba jornada. Disse o luxo do Málaga; Gibraltar e o seu morro encarapuçado de nuvens; a abundância das "mesas redondas", com pudins e águas gasosas...
- Tudo à grande, à francesa! - suspirou Padre Pinheiro, com um brilho de gula no olho amortecido. - Mas naturalmente, tudo muito indigesto...
- Eu lhe digo, Padre Pinheiro... Sim, tudo à grande, tudo à francesa; mas cousas saudáveis, que não esquentavam os intestinos... Belo rosbife, belo carneiro...
- Que não valiam decerto o seu franguinho de cabidela, excelentíssima senhora! - atalhou untuosamente o Negrão, junto do ombro agudo da Titi.
Execrei aquele padre! E, remexendo a água com açúcar, decidi em meu espírito que, mal eu começasse a governar ferreamente o Campo de Santana - não mais a cabidela da minha família escorregaria na goela aduladora daquele servo de Deus.
No entanto o bom Justino, repuxando o colarinho, sorria para mim, embevecido. E como passava eu as noites em Alexandria? Havia uma assembléia, onde espairecesse? Conhecia eu alguma família considerada, com quem tomasse uma chávena de chá?...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.