Por Eça de Queirós (1878)
- A senhora bem sabe que se eu guardei as cartas, para alguma coisa era! Queria pedir aoprimo da senhora que me ajudasse! Estou cansada de trabalhar, e quero o meu descanso. Não ia fazer escândalo; o que desejava é que ele me ajudasse... Mandei ao hotel esta tarde... O primo da senhora tinha desarvorado! Tinha ido para o lado dos Olivais, para o inferno! E o criado ia à noite com as malas. Mas a senhora pensa que me logram? - E retomada pela sua cólera, batendo com o punho furiosamente na mesa: - Raios me partam, se não houver uma desgraça nesta casa, que há de ser falada em Portugal!
- Quanto quer você pelas cartas, sua ladra? - disse Luísa, erguendo-se . direita, diante dela.
Juliana ficou um momento interdita.
- A senhora ou me dá seiscentos mil réis, ou eu não largo os papéis! - respondeu, empertigando-se.
- Seiscentos mil réis! Onde quer você que eu vá buscar seiscentos mil réis?
- Ao inferno! - gritou Juliana. - Ou me dá seiscentos mil réis, ou tão certo como eu estar aqui, oseu marido há de ler as cartas!
Luísa deixou-se cair numa cadeira, aniquilada.
- Que fiz eu para isto, meu Deus? Que fiz para isto?
Juliana plantou-se-lhe diante, muito insolente.
- A senhora diz bem, sou uma ladra, é verdade; apanhei a carta no cisco; tirei as outras dogavetão. É verdade! E foi para isto, para mas pagarem! - E traçando, destraçando o xale, numa excitação frenética: - Não que a minha vez havia de chegar! Tenho sofrido muito, estou farta! Vá buscar o dinheiro onde quiser. Nem cinco réis de menos! Tenho passado anos e anos a ralarme! Para ganhar meia moeda por mês, estafo-me a trabalhar, de madrugada até à noite, enquanto a senhora está de pânria! É que eu levanto-me às seis horas da manhã - e é logo engraxar, varrer, arrumar, labutar, e a senhora está muito regalada em vale de lençóis, sem cuidados, nem canseiras. Há um mês que me ergo com o dia, para meter em goma, passar, engomar! A senhora suja, suja, quer ir ver quem lhe parece, aparecer-lhe com tafularias por baixo e cá está a negra, com a pontada no coração, a matar-se com o ferro na mão! E a senhora, são passeios, tipóias, boas sedas, tudo o que lhe apetece - e a negra? A negra a esfalfar-se!
Luísa, quebrada, sem força de responder, encolhia-se sob aquela cólera como um pássaro sob um chuveiro. Juliana ia-se exaltando com a mesma violência da sua voz. E as lembranças das fadigas, das humilhações, vinham atear-lhe a raiva, como achas numa fogueira.
- Pois que lhe parece? - exclamava. Não que eu coma os restos e a senhora os bons bocados! Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma gota de vinho, quem mo dá? Tenho de o comprar! A senhora já foi ao meu quarto? E uma enxovia! A percevejada é tanta que tenho de dormir quase vestida! E a senhora se sente uma mordedura, tem a negra de desaparafusar a cama, e de a catar frincha por frincha. Uma criada! A criada é o animal. Trabalha se pode, senão rua, para o hospital. Mas chegou-me a minha vez - e dava palmadas no peito, fulgurante de vingança. - Quem manda agora, sou eu!
Luísa soluçava baixo.
- A senhora chora! Também eu tenho chorado muita lágrima! Ai! Eu não lhe quero mal, minhasenhora, certamente que não! Que se divirta, que goze, que goze! O que eu quero é o meu dinheiro. O que eu quero é o meu dinheiro aqui escarrado, ou o papel há de ser falado! Ainda este teto me rache, se eu não for mostrar a carta ao seu homem, aos seus amigos, à vizinhança toda, que há de andar arrastada pelas ruas da amargura!
Calou-se, exausta; e com a voz entrecortada de cansaços:
- Mas dê-me a senhora o meu dinheiro, o meu rico dinheiro, e aqui tem os papéis; e o que lá vai,lá vai, e até lhe levo outras. Mas o meu dinheiro para aqui! E também lhe digo, que morta seja eu neste instante com um raio, se depois de eu receber o meu dinheiro esta boca se torna a abrir! - E deu uma palmada na boca.
Luísa erguera-se devagar, muito branca:
- Pois bem - disse, quase num murmúrio - eu lhe arranjarei o dinheiro. Espere uns dias.
Fez-se um silêncio - que depois do ruído parecia muito profundo; e tudo no quarto como que se tornara mais imóvel. Apenas o relógio batia o seu tique-taque, e duas velas sobre o toucador consumindo-se davam uma luz avermelhada, e direita.
Juliana tomou a sombrinha, traçou o xale, e depois de fitar Luísa um momento:
- Bem, minha senhora - disse, muito seca.
Voltou as costas, saiu.
Luísa sentiu-a bater a cancela com força.
- Que expiação, Santo Deus! - exclamou, caindo numa cadeira, banhada de novo em lágrimas.
Eram quase dez horas quando Joana voltou.
- Não pude saber nada, minha senhora; na inculcadeira ninguém sabe dela.
- Bem, traga a lamparina.
E Joana ao despir-se no seu quarto, rosnava consigo:
- A mulher tem arranjo; está metida por aí com algum súcio!
Que noite para Luísa! A cada momento acordava num sobressalto, abria os olhos na penumbra do quarto, e caía-lhe logo na alma, como uma punhalada, aquele cuidado pungente: que havia de fazer? Como havia de arranjar dinheiro? Seiscentos mil réis! As suas jóias valiam talvez duzentos mil réis. Mas depois, que diria Jorge? Tinha as pratas... Mas era o mesmo!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.