Por Inglês de Sousa (1891)
Bernardino Santana convidou o Costa e Silva, o Mapa-Múndi, o Pedrinho Sousa, o João Carlos, o Bartolomeu de Aguiar e o Dr. Natividade para carregarem o caixão.
O Dr. Natividade escusou-se, sem dar as razões. O Bernardino foi convidar o capitão Fonseca que aceitou. Mas o Natividade veio confiar ao Macário os motivos da recusa.
— O senhor compreende? Vim ao enterro por obra de caridade, e porque, graças a Deus, não levo o meu ressentimento até o túmulo. Mas a dignididade impedia-me de carregar um rapazola que há tão pouco tempo foi o causador de me fazerem uma desfeita.
Macário não se lembrava. O Dr. Natividade, de mãos atrás das costas, pincenê fixo nos olhos, auxiliou-lhe a memória:
— Na noite do casamento do Cazuza... aqui... no baile... a desfeita da Milu?...
Macário já se lembrava. O juiz municipal resumiu, numa convicção profunda: — Já vê que a dignidade me impede.
O Bernardino Santana despedia-se do filho, apertando nas mãos as mãos geladas do cadáver. O velho chorava, numa dor expansiva:
— Pobre rapazinho! Tão moço, tão bonito e tão esperto! Ele vai-se, eu, traste velho, é que fico! Coitadinho! Até parece que está dormindo!
E impressionado com a causa a que atribuía aquela morte tão sentida, repetia:
— Tudo foi ele ficar tão teimoso, a ponto de não querer tomar os remédios! Remédios tão bons e tão caros!
E num soluço dolorido:
— Pobre rapazinho! Tua mãe que está no céu há-de perguntar por que não tomaste os remédios. Mas que culpa tenho eu, fiz tudo, tudo.
O Valadão e o Fonseca agarraram-no, dando-lhe coragem:
— Tenha ânimo, homem! A morte é obra de Deus. Resigne-se e lembre-se que ainda tem outro filho!
O Cazuza aproximou-se do pai, pálido, sem lágrimas. Era uma dor forte. Filho e pai abraçaram-se junto ao cadáver de Totônio.
— Agora só me restas tu, meu filho. Desculpa o meu sentimento... mas ele também era filho.
E o Bernardino desatou de novo a chorar. No meio da sua dor, a lembrança duma providência a dar acudiu-lhe. Voltou-se para o Quinquim da Manuela, e recomendou por entre lágrimas:
— Olha o Filipe que leve o mocho atrás do caixão, para o descanso.
Uma senhora, toda de luto, entrou, seguida de três ou quatro mucamas. Era a D. Mariquinhas das Dores que vinha dizer o último adeus ao cadáver do cunhado. Os que cercavam o caixão afastaram-se para dar-lhe lugar. A jovem senhora descansou um braço sobre a borda do caixão e pôs-se a chorar, assoando-se de vez em quando num lencinho rendado.
— São horas! disse suspirando o Bernardino Santana. Pelas janelas entrava, acentuada, a viração da tarde. O Cazuza Bernardino arrancara a mulher de junto do cadáver. D. Mariquinhas saiu soluçando gritos. As mucamas choravam ruidosamente, em coro. Fechou-se o caixão à chave. Organizou-se o préstito. O José do Lago ia à frente com a caldeirinha. Macário seguia-o com a cruz. Vinha logo após a irmandade do Santíssimo, com o Chico Fidêncio à frente, empunhando o pendão. Depois era o féretro carregado por seis amigos do pai do finado. O preto Filipe vinha logo atrás, carregando o mocho. Os convidados cercavam o préstito, sem ordem.
Quando o caixão transpunha a porta da rua, ouviu-se no interior da casa um grande grito de mulher.
— É a D. Mariquinhas que está com um ataque, disseram.
— Aquela está pronta, notou o Regalado. O Cazuza bem mostra que é trabalhador.
O enterro seguiu pela segunda rua até ao cemitério. Havia mulheres às janelas e crianças às portas das casas. Ouviam-se expressões de pesar por toda a parte. Coitadinho, tão moço e tão bonito! E dizem que morreu de paixão!
Uma grande tristeza envolvia a vila. O tempo mudara por volta de cinco horas, e o céu estava toldado. Um vento carregado de umidade soprava do lado do sul. O sol escondia-se lentamente por trás da serra.
No caminho os homens que carregavam o caixão renovaram-se duas vezes. Quando o préstito parava, a conversação estabelecia-se a princípio em voz baixa, e depois em tom natural, como num passeio.
No cemitério, quando depuseram o caixão de Totônio Bernardino no fundo da cova escura e fresca, o professor Aníbal Americano Selvagem Brasileiro recitara uma poesia que começava assim:
MORTO POR AMOR NÊNIA
E morreste na flor da mocidade,
Teu pai, coitado, aí ficou chorando...
Macário não se recordava do resto. Mas eram versos muito bonitos que o Costa e Silva prometera mandar para o Diário do Grão-Pará, apesar do Regalado dizer que o tal professor era um idiota.
O Costa e Silva, porém, confirmara a promessa. Ficasse o Sr. Aníbal descansado. Havia de mandar os versos, e os mandaria já, porque queria ter o gosto de os ler impressos antes de sua partida para o Madeira.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.