Por Franklin Távora (1879)
Estações desfavoráveis e contratempos privados tiveram-no por alguns anos em embaraços e atribulações que o assoberbaram.
Chegou a ver quase todos os seus bens arriscados. Mas os tempos melhoraram e pode desempenhar-se dos seus compromissos. A paz e a fortuna vieram ocupar de novo no lar, onde um eclipse se demorara não sem grande desânimos e desgostos, o lugar que lhes pertencia antes das adversidades agora de todo desaparecidas.
Foi por esse tempo que o serviços de Maurícia foram aceitos. Alice, última filha de Albuquerque, entrava no seu décimo ano de idade; urgia ter educação. Quanto ao primogênito, por nome de Paulo, este não inspirava cuidados a Albuquerque; tinha dezessete para dezoito anos e não dava mostras de vocação para letras. Muito cedo deixara a escola, para dedicar-se de corpo e alma à agricultura, que era a carreira de sua predileção. Fosse que a vocação o inclinasse fortemente para a vida do campo, onde o contato com a natureza despertava em seu espírito novas simpatias pelos prazeres inocentes que aí encontram; fosse que os eu gesto procedesse dos hábitos a que desde a primeira idade se entregara de coração, certo é que Paulo era, ao tempo desta narrativa, o tipo do agricultor, e nele tinha seu pai as melhores esperanças. A capacidade do rapaz em regular o serviço de engenho; a sua discrição em tratar com os trabalhadores e os interesses da grande propriedade o haviam tornado objeto de tão larga confiança que Albuquerque só tinha olhos para o que constituía a administração exterior; das porteiras para dentro, Paulo superintendia em tudo. Quando alguém procurava o senhor do engenho, a fim de lhe pedir qualquer favor, ou colocação, Albuquerque dizia:
— Entenda-se com o Sr. Paulo, que é quem sabe o que precisa, ou o que se pode fazer. O que ele decidir está decidido.
Paulo experimentava precisamente por aquele tempo a necessidade de completar-se. As cenas da Natureza, seus painéis, suas belezas, suas maravilhas, provocavam-lhe o espírito de risonhas visões; mas no fundo dessas visões o que suas mãos encontravam, quando ele buscava verificar se aí havia o que a imaginação gerava e coloria, era a ausência da realidade; as proporções desta mediam-se pelas terras do engenho.
Quando voltava do serviço diário, tinha bom apetite, e depois da última refeição o corpo, que requeria repouso, achava na cama novas forças, trazidas pelo sono para recomeçar no dia seguinte a tarefa interrompida na véspera. mas esta fase de apetite, que se satisfazia com os alimentos, e de fadiga que desaparecia com o sono reparador, tinha de ser profundamente alterada; o coração devia dar sinais do termo de seu repouso e da aproximação do seu despertar; a imaginação devia exigir visões e sonhos diferentes dos que inspirava o espetáculo dos campos, dos rios, das matas.
Paulo sentira nos últimos tempos acender-se no intrínseco do seu peito fogo desconhecido, que, por ser tal, não deixava de o abrasar. Sentiu anelos teimosos, prazer e tristeza, crença e dúvida, que não sabia explicar e mal conhecia, porque a essência de sua vida assentava na inocência, que o campo alenta. Um mestre particular ensinara-lhe as primeiras letras. Não se tendo achado em contato com a meninice trêfega, ou com a juventude viciosa de certos colégios, quase todas as pequenas corrupções que se devem a tais centos, e que são, muitas vezes, a origem de grandes corrupções sociais, lhe eram inteiramente desconhecidas. O seu espírito podia considerar-se estreme, o seu coração podia reputar-se de um modelo digno de ser estudado e seguido.
Quando de volta do trabalho, Paulo achou uma tarde em casa a menina de fisionomia triste, olhar meigo mas, melancólico, adivinhou por lúcida previsão, que a sorte lhe trouxera, enfim, aquela delicada forma do espírito, da bondade, da dedicação, do amor que ele, apenas, conhecia como deliciosas abstrações ou vagas fantasias.
Virgínia era tão fraca de compleição que, à primeira vista, todos sentiam apreensões pela sua existência.
Olhando-se para aquele corpo franzino, delicado, posto que não desgracioso, antes cheio e modesta elegância, pensava-se que não há formas que não resistem senão por muito pouco tempo ao trabalho das intempéries e dos climas. Tinha-se pena de pegar em sua mão, porque parecia que com qualquer movimento menos brando poderiam sentir-se os dedos finos, a palminha delicada, o bracinho delgado da encantadora menina.
À Maurícia atribui-se este conceito a respeito da filha:
— Virgínia parece ter nascido de um respiro, e estar destinada a morrer de um sopro!
Uma vez, conversando com D. Carolina, mulher de Albuquerque, sobre a fraca organização da menina, dissera Maurícia:
— Quando da minha janela vejo Virgínia passeando ao sol posto, pelo cercado, e trazendo soltos sobre o roupãozinho branco os cabelos louros, só se me afigura ter diante dos olhos uma nuvenzinha que caiu das alturas sobre a terra.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.