Por Bernardo Guimarães (1872)
Volvendo ao céu o pensamento nas asas da oração, nessas horas de êxtase e de místico recolhimento, por entre os coros de anjos que rodeavam o sólio estrelado da Rainha de todos os santos, ele entrevia o faceiro e mimoso rosto de Margarida, e adorava-a também.
Assim essa afeição pura e casta, a qual se ainda não era o amor, era a sua fecunda e brilhante crisálida, amenizava e como que embalsamava com seu tépido bafejo os atos de devoção e a austeridade da vida claustral, enquanto a devoção, por seu lado, mitigando os ardores e impaciências daquele sentimento, impedia que se tornasse uma paixão imperiosa e fatal.
Tinham os padres em muito apreço e estima as belas qualidades de
Eugênio, e principalmente a decidida vocação que revelava para o estado clerical. Ignorando o que se passava no íntimo do seu coração, assentaram de animá-lo naquele santo propósito com exortações e leituras adequadas a esse fim.
Naqueles tempos os dignos e veneráveis sacerdotes da Congregação da Missão de S. Vicente de Paulo, aos quais tantos benefícios deve a província de Minas, não se descuidavam de empregar meios para atrair neófitos ao seio daquela respeitável corporação. Como os jesuítas, porém com mais escrúpulo e menos violência, procuravam dirigir a educação moral e intelectual dos meninos, de modo a inspirar-lhes o gosto pela vida ascética dos claustros e a resolvê-los a tomar a loba e o barrete de congregados.
Não ficaram totalmente sem frutos os seus esforços, e viram-se muitos moços de famílias distintas alistarem-se nas fileiras dos filhos de S. Vicente.
Notando as felizes disposições de Eugênio, os padres não podiam deixar de nutrir a esperança de vê-lo no seu grêmio, e para esse fim empregavam desde já habilmente os meios convenientes.
Passaram-se assim doze anos, em que a vida correu para Eugênio, senão descuidosa e prazenteira como na fazenda paterna, ao menos serena e sem dissabores. Cada vez mais estimado dos padres e benquisto de seus companheiros, à medida que seu coração se ia acalmando, sua inteligência se desobumbrava, e fazendo rápidos progressos compensava largamente o tempo perdido com a dificuldade dos primeiros esforços.
É verdade que a imagem de Margarida nunca lhe saía do coração mas já não o incomodava tanto, nem lhe agitava espírito como outrora.
Ela lhe aparecia como a figura de um anjo, desenhando-se ao longe e sorrindo-lhe tristemente por entre as brumas melancólicas do horizonte pavoroso. A lembrança de Margarida era já em sua alma essa saudade meiga e maviosa, que nos espreme o coração, e dele faz borbotar lágrimas de fel e de sangue.
Passados dois anos, porém, um incidente veio perturbar a uniformidade suave e serena, se bem que um pouco melancólica, da vida de Eugênio. Um dia, a íntima confiança que merecia de seus mestres e diretores, ia-se abalando profundamente.
Eugênio já tinha entrado para a terceira classe de latim, e começando a traduzir o livro dos Tristes de Ovídio e as Éclogas de Virgílio sentiu-se tomado de um vivo gosto pela poesia. Para isso o predispunham sua terna sensibilidade e ardente imaginação. Só esperava a mão que viesse correr aos olhos de sua inteligência inesperta o véu que encobre esses desconhecidos e encantados horizontes, essas paisagens fantásticas e deslumbrantes, tão cheias de magia, de luz e de harmonia em que os espíritos elevados encontram tão grato abrigo contra a insipidez e as asperezas da vida real.
Virgílio, de um lado, e Ovídio, do outro, deram-lhe as mãos e o introduziram no templo da harmonia.
Era mais um precioso achado para aquela imaginação esta viva e brilhante, para aquele coração tão rico de afetos. Mais uma corda virgem acabava de ser vibrada naquela feliz e delicada organização. À devoção e ao amor vinha juntar-se mais um novo encanto na vida do adolescente; mais um eco acordava melodioso no seio dessa alma tão cheia de harmonias íntimas e misteriosas.
Religião, amor, poesia, eis os elementos, que bastavam para encher aquela existência e torná-la a mais feliz do mundo. Eram como três anjos de asas de azul e ouro, que esvoaçavam de contínuo em torno dessa alma infantil e cândida, e a arrebatavam aos céus em gozos inefáveis.
Eugênio, pois, ao ler os primeiros versos de Virgílio, sentiu na fronte o bafejo do anjo da poesia que lhe dava, à alma como um sentido mais, abrindo nela uma nova fonte de suaves e inefáveis emoções. As Éclogas do imortal Mantuano o encantavam. As cenas do amor bucólico o arrebatavam, retraçando-lhe na fantasia em cadentes e melodiosos versos os singelos e aprazíveis painéis da vida campesina, em que tantas vezes ele figurava como ator, e fazendo-lhe lembrar com a mais viva saudade o ditoso tempo em que, junto com Margarida errante pelos vargedos e colinas da fazenda paterna, lidava com o pequeno rebanho de Umbelina. A não ser padre santo — que era até então a sua mais forte aspiração -, a vida que mais lhe sorria à imaginação era a de pastor, contanto que fosse em companhia de Margarida.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.