Por Bernardo Guimarães (1872)
– Ora essa é que é boa!... pateteou não, meu tio; como é que eu havia de chegar a tempo, se o meu cavalo caiu engastalhado no meio das malditas coivaras que me atravancavam a passagem, e eu levei uma embarroada nesta perna, que me fez chiar, e que até agora está-me doendo, e quase que eu não podia dar um passo. Não fosse isso, eu era o primeiro a chegar, e diabos me carreguem nesta hora, se eu só não tivesse dado cabo da bicha, sem levar um arranhão que fosse...
– Oh! pois não!... exclamou Eduardo sorrindo-se: não havia nada mais fácil... de dizer-se. Meu amigo, eu também levei encontroadas horríveis no meio daquelas diabólicas coivaras e tenho o corpo todo pisado e magoado; o meu cavalo também caiu; mas naquela ocasião eu nada sentia; já de longe eu tinha percebido que havia mulheres dentro do rancho, e ainda que se me tivesse quebrado uma perna havia de me arrastar, custasse o que custasse, até o lugar do perigo. Mas se não fosse essa circunstância, não seria eu bobo de me ir atirar assim, sem quê nem para quê, nas garras do terrível animal.
– Ah! dessa ainda nós não sabíamos, sr. Eduardo,– disse o fazendeiro; mais um motivo, que vem aumentar a meus olhos a imensa obrigação em que lhe estamos. Assim o senhor não praticou apenas um ato de estouvada valentia de caçador, e não foi sem o saber que salvou duas criaturas?
– Não, decerto; tão louco não seria eu...
– E praticou um ato de nobre e generosa dedicação por pessoas que nunca conheceu. Ah, sr. Eduardo! em que dívida lhe estamos, e quando e como poderemos nunca pagá-la.
– Qual dívida, sr. Ribeiro! por favor não se inquiete com isso. Não fiz mais do que a minha obrigação, o que em meu lugar qualquer outro teria feito...
– Mas em seu lugar, – disse Paulina olhando de esguelha e maliciosamente para Roberto – estavam alguns outros e não o fizeram.
Roberto enfiou, mordeu os beiços e corou até às orelhas.
– Porque não puderam – respondeu Eduardo. – Mas se teimam em querer dar-me um sinal de gratidão, basta-me o couro da bicha. Hei de trazê-lo sempre comigo com orgulho como um troféu, a menos que a senhora, – acrescentou voltando-se para Paulina, – não o queira para si a fim de pousar triunfante os seus mimosos pés sobre os restos do medonho animal, que tão grande susto lhe causou.
– Com bem pouco se contenta, disse o fazendeiro.
– Com isso e com a sua amizade, sr. Ribeiro, eu me julgo muito bem pago, e com a íntima satisfação que me fica n’alma por ter sido útil em um dia de minha vida à sra. d. Paulina.
Estas lisonjeiras palavras ditas com toda a graça e afabilidade, mas em tom de cortesia, não agradaram muito a Paulina, a qual quisera que o moço exigisse em paga mais alguma coisa, pois estava pronta a dar-lhe ou antes já lhe tinha dado todo o seu amor. Decerto ela não queria que o moço lhe fizesse ali de chofre uma declaração de amor, mas notou com mágoa íntima, que o mancebo proferiu aquelas corteses palavras quase sem emoção alguma e sem ao menos olhar para ela, o que causou-lhe uma horrível impressão de despeito e desalento. Retirou-se para o canto mais escuro do aposento para esconder a sua perturbação e uma lágrima teimosa, que lhe queria vir aos olhos.
– Ora bolas! – exclamou estouvadamente o primo Roberto, já escandalizado com a prima, e cioso da importância e deferência de que Eduardo era objeto. Não vejo de que estão fazendo tamanho escarcéu, pois o que é lá matar uma onça?... eu cá tenho matado mais de uma, e nem por isso ando a me gabar.
– Não digas tal Roberto! – atalhou o velho, – matar uma onça não é lá grande coisa; também eu as tenho matado e muitas. Mas afrontar o perigo, que o sr. Eduardo arrostou para salvar duas criaturas, é uma ação valorosa e nobre, de que nem todos são capazes.
– Também se ele não a matasse, eu teria dado cabo dela, como tenho dado de muitas outras, tão certo como nós estarmos agora aqui. Que me custava?... a minha espingarda não nega fogo, e, minha mão, louvado seja Deus, não treme ainda, e quando atiro em um bicho destes, não atiro nas costelas, e em todo o caso a prima sempre aqui estaria tão viva e tão sadia como agora aqui se acha.
– Pois bem, senhores – retrucou Eduardo já agoniado com as toleimas do primo e com um sorriso sardônico – façamos de conta, que foi o sr. Roberto, quem matou a onça; isso pouco me importa, e não quero que diga outra vez que estou me gabando. O que me importa é poder restabelecer-me destas feridas para poder tratar dos meus negócios. Peço que se esqueçam do pequeno serviço, que tive a fortuna de fazer-lhes, e tratem somente do meu curativo.
– Esquecer! oh! isso nunca! nunca esqueceremos. Mas, silêncio, sr. Eduardo; não lhe convém falar muito e muito menos alterar-se. Tranqüilize-se, que não pouparemos cuidados e desvelos para o seu completo restabelecimento. Paulina, Roberto, vamo-nos daqui, deixemos o sr. Eduardo descansar; ele precisa mais de repouso de que de qualquer outra coisa.
Capítulo III
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.