Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Esse cais tinha defronte do palácio uma rampa destinada a facilitar os desembarques, e de espaço a espaço, assentos de pedra. Tudo isso desapareceu desde 1841 ou 1842, por ordem da câmara municipal, que projetou construir outro cais mais ao mar. Lá se foram, porém, dezenove anos, e ainda estamos à espera dele!
Entretanto, as obras de aterro têm já estendido bastante a praça, de modo que agora se acha não pouco afastado da praia o chafariz, que, levantado primeiro no meio daquela, fizera o vice-rei Luís de Vasconcelos substituir por outro à face do mar.
Não nos queixemos da nossa edilidade: ela já fez o que pôde, e que infelizmente se reduziu, pouco mais ou menos, a cousa nenhuma. Lembra-me, porém, que para começo de trabalhos do novo cais se construiu uma trincheira de tábuas, seguras por pregos que tinham as pontas para o mar e as cabeças para terra, e o mar, aproveitando-se daquela bem ordenada pregadura, em um dia em que fez mareta, atirou com as tábuas à praia, de maneira que ensinou à câmara municipal que até os mesmos pregos devem saber onde põem os pés e onde têm as cabeças. Não tenho ainda certeza de que esta lição aproveitasse.
O governo tomou a seu cargo a obra do novo cais, e há esperanças de que mais diligente se há de mostrar; no entanto, as dimensões da praça excedem já muito às que tinha no fim do século passado e por não poucos anos conservou.
Falei das proporções. Agora tratarei dos nomes.
A praia em que se termina esta praça teve primitivamente o nome de – praia da Senhora do Ó – e hei de em breve dizê-lo porquê; mas o nome mais antigo dos que tem tido esta praça é lugar do Ferreiro da Polé; a origem de semelhante denominação perde-se na noite dos tempos. Quer me parecer que não podia ser simpática.
No fim do século décimo-sexto, ou no princípio do seguinte, chamou-se praça do Carmo, porque era dominada pelo convento levantado pelos carmelitas.
De 1743 em diante, recebeu o nome de terreiro do Paço, em razão de se haver construído nela a casa dos governadores, e os carmelitas não brigaram com o conde de Bobadela por essa mudança de deno minação, porque, enfim, palavras não adubam sopas, e frades não fazem questões de pouco mais ou menos.
Por último, largo do Paço ficou sendo chamada. Não aposto, porém, que conserve por muito tempo o mesmo nome, a menos que o Estado se resolva a levantar outro palácio no mesmo lugar, pois o que existe, desde alguns anos recebeu do cupim formal intimação para procurar um substituto.
E antes dessas instantes intimações do cupim, já ao dever e ao patriotismo cumpria ter lembrada a necessidade urgente de uma tal substituição.
Este palácio que estamos vendo nem tem no seu aspecto exterior bastante majestade, nem em suas disposições e ornatos interiores suficiente magnificência para mostrar-se digno do chefe do Estado e digno da nação. Há na cidade casas de particulares que incontestavelmente ostentam mais riqueza e oferecem mais cômodo do que ele.
Nas monarquias, o esplendor da majestade reflete sobre toda a nação, e a casa do monarca, o palácio do chefe do Estado, que atrai todas as vistas, que abre suas salas aos representantes das nações estrangeiras e a todos os cidadãos, deve ser grandioso como a idéia que representa.
Não me digam que o Brasil não tem dinheiro para levantar um palácio. Oh! se tem. O patronato acha sempre recursos financeiros para fazer presentes à custa da pátria amada, e só o dever e o patriotismo terão sempre de esbarrar diante do monstro chamado déficit.
O corpo legislativo não pode continuar a descuidar-se desta evidente necessidade. Além de tudo, o palácio está arruinado e a nação deve oferecer ao seu primeiro cidadão um edifício que, pelo menos, se adivinhe logo o que é, quando se olhar para ele.
Comecei falando mal do palácio, antes de descrevê-lo e de contar a sua história.
Vou emendar o meu erro.
Para um palácio, este envelheceu depressa, pois que apenas conta cento e dezoito anos de idade, tendo sido, portanto, construído quase dois séculos depois da fundação da cidade do Rio de Janeiro.
Não vos admireis de que o governo de Portugal deixasse cor rer tanto tempo antes de fazer edificar uma casa para os governadores desta capitania; porque também o Brasil é nação independente desde 1822, e ainda não mandou construir um palácio para o imperador.
Até ao fim do século XVII, os governadores da capitania do
Rio de Janeiro não tiveram casa própria para sua residência, à exceção, sem
dúvida, do primeiro, que foi Salvador Correia de Sá, que seguramente havia de
levantar, como os seus companheiros colonizadores, o seu competente rancho no
morro do Castelo. Os que depois se foram seguindo moraram onde puderam ou
melhor lhes pareceu.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.