Por José de Alencar (1853)
— O que elles são, não sei, acudiu Antonio de Caminha; mas aqui estou eu, que no mar não lhes quero ver nem a sombra.
— No mar tem seu risco; mas em secco não fazem mal; são como os tubarões, replicou Ayres.
N'esse dia, deixando a casa de Duarte de Moraes, conheceu Ayres de Lucena que amava a Maria da Gloria e com amor que não era de irmão.
A dôr que sentira pensando que ella pudesse querer a outrem, que não elle, e elle sómente, lhe revelou a vehemencia d'essa paixão que se tinha embuiido em seu coração e ahi crescêra até que de todo o absorveu.
Um mez não era passado, que appareceram francezes na costa e com tamanha audacia que por vezes investiram a barra, chegando até a ilhota da Lage, apezar do forte de S. João na Praia Vermelha.
Ayres de Lucena, que em outra occasião fôra dos primeiros a sahir contra o inimigo, d'esta vez mostrou-se tibi e indifferente.
Emquanto outros navios se aprestavam para o combate, a escuna Maria da Gloria se embalava tranquillamente nas aguas da bahia, desamparada pelo commandante, que a maruja inquieta esperava debalde, desde o primeiro rebate.
Uma cadeia occulta prendia Ayres á terra, mas sobretudo á casa onde morava Maria da Gloria, a quem elle ia ver todos os dias, pesando-lhe que o não pudesse a cada instante.
Para calar a voz da patria que ás vezes bradava-lhe na consciencia, comsigo encarecia a necessidade de ficar para a defensão da cidade, no caso de algum assalto, sobretudo quando sahia a perseguir os corsarios o melhor de sua gente de armas
Succedeu porém que Antonio de Caminha.
mancebo de muitos brios, teve o commando de um navio de corso, armado por alguns mercadores de S. Sebastião ; mal que o soube, Ayres, sem mais detença foi-se a bordo da escuna, que desfraldou as velas fazendo-se ao mar.
Não tardou que se não avistassem os tres navios francezes, pairando ao largo. Galharda e ligeira, com as velas apojadas pela briza e sua bateria pronta, correu a Maria da Gloria o bordo sobre o inimigo.
Desde que fôra baptisado o navio, nenhuma empreza arriscada se tentava, nenhum lance de perigo se affrontava, sem que a maruja com o commandante á frente, invocasse a protecção de Nossa Senhora da Gloria.
Para isso desciam todos á camara da prôa, já preparada como uma capella. A imagem que olhava o horizonte como a rainha dos mares, girando na peanha voltava-se para dentro, afim de receber a oração.
N'aquelle dia foi Ayres preza de estranha allucinação, quando rezava de joelhos, ante o nicho da Senhora. Na sagrada imagem da Virgem Santissima, não via elle sinão o formoso vulto de Maria da Gloria, em cuja contemplação se enlevava sua alma.
Por vezes tentou recobrar-se d'essa alheiação dos sentidos e não o conseguiu. Foi-lhe impossivel arrancar d'alma a doce visão que a cingia como um regaço de amor. Não era a Mãi de Deus, a Rainha Celestial que elle adorava n'esse momento, mas a loura virgem que tinha um altar em seu coração.
Achava-se impio n'essa idolatria, e abrigava-se em sua devoção por Nossa Senhora da Gloria;
mas ahi estava seu maior pecado, que era n'essa mesma fé tão pura, que seu espirito se desvairava, transformando em amor terrestre o culto divino.
Cerca de um mez Ayres de Lucena esteve no mar, já combatendo os corsarios e levando-os sempre de vencida, já dando caça aos que tinham escapado e castigando o atrevimento de ameaçarem a colonia portugueza.
Durante esse tempo, sempre que ao entrar em combate, a equipagem da escuna invocava o patrocinio de sua madrinha, Nossa Senhora da Gloria, era o commandante preza da mesma allucinação que já sentira, e erguia-se da oração com um remorso, que lhe pungia o coração presago de algum infortunio.
Presentia o castigo de sua impiedade, e se
O VOTO
Ao cabo do seu cruzeiro, tornára Ayres ao Rio de Janeiro onde entrou á noite calada, quando já toda a cidade dormia.
Havia tempos que soára no mosteiro o toque de completas; já todos os fogos estavam apagados, e não se ouvia outro rumor a não ser o ruido das ondas na praia, ou o canto dos gallos, despertados pela claridade da lua ao nascer.
Cortando a flôr das ondas alisadas, que se alljofravam como os brilhantes reçumos da espuma irisada pelos raios da lua, veiu a escuna dar fundo em frente ao largo da Polé.
No momento em que ao fisgar d'ancora arfava o lindo navio, como um corcel brioso soffreado pela mão do ginete, quebrou o silencio da noite um dobre funebre.
Era o sino da igreja
de Nossa Senhora do O que tangia o toque da agonia. Teve Ayres, como toda a
equipagem, um aperto de coração ao ouvir o lugubre annuncio. Não faltou entre
os marujos quem tomasse por mau agouro a circumstancia de ter a escuna fundeado
no momento em que começára o dobre.
(continua...)
ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.