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#Comédias#Literatura Brasileira

O Noviço

Por Martins Pena (1845)

Ambrósio — Lá as deixei no Carmo. Entretidas com o ofício, não darão falta de mim. É preciso, e quanto antes, que eu fale com esta mulher! É ela, não há dúvida... Mas como soube que eu aqui estava? Quem lhe disse? Quem a trouxe? Foi o diabo, para a minha perdição. Em um momento pode tudo mudar; não se perca tempo. (Chega à porta do quarto) Senhora, queira ter a bondade de sair cá para fora.

CENA III

Entra Carlos cobrindo o rosto com um lenço. Ambrósio encaminha-se para o meio da sala, sem olhar para ele, e assim lhe fala.

Ambrósio — Senhora, muito bem conheço as vossas intenções; porém previno-vos que muito vos enganasteis.

Carlos — Ai, ai!

Ambrósio — Há seis anos que vos deixei; tive para isso motivos muito poderosos...

Carlos, à parte — Que tratante!

Ambrósio — E o meu silêncio depois deste tempo, devia ter-vos feito conhecer que nada mais existe de comum entre nós.

Carlos, fingindo que chora — Hi, hi, hi ...

Ambrósio — O pranto não me comove. Jamais podemos viver juntos... Fomos casados, é verdade, mas que importa?

Carlos, no mesmo — Hi, hi, hi...

Ambrósio — Estou resolvido a viver separado de vós.

Carlos , à parte — E eu também...

Ambrósio— E para esse fim empreguei todos os meios, todos, entendeis-me?

(CARLOS cai de joelhos aos pés de AMBRÓSIO, e agarra-se às pernas dele, chorando.) Não valem súplicas. Hoje mesmo deixareis esta cidade; senão, serei capaz de um grande crime. O sangue não me aterra, e ai de quem me resiste!

Levantai-vos e parti. ( CARLOS puxa as pernas de AMBRÓSIO, dá com ele no chão e levanta-se, rindo-se.) Ai!

Carlos — Ah, ah, ah!

Ambrósio, levanta-se muito devagar, olhando muito admirado para Carlos, que se ri — Carlos! Carlos!

Carlos — Senhor meu tio! Ah, ah, ah!

Ambrósio — Mas então o que é isto?

Carlos — Ah, ah, ah!

Ambrósio — Como te achas aqui assim vestido?

Carlos — Este vestido, senhor meu tio... Ah, ah!

Ambrósio — Maroto!

Carlos — Tenha-se lá! Olhe que eu chamo por ela.

Ambrósio — Ela quem, brejeiro?

Carlos — Sua primeira mulher.

Ambrósio — Minha primeira mulher. É falso...

Carlos —É falso?

Ambrósio — É.

Carlos — E será também falsa esta certidão do vigário da freguesia de ... (olhando para a certidão:) Maranguape, no Ceará, em que se prova que o senhor meu tio recebeu-se... (lendo:) em santo matrimônio, à face da Igreja, com D. Rosa

Escolástica, filha de Antônio Lemos, etc., etc.? Sendo testemunhas, etc.

Ambrósio — Dá-me esse papel!

Carlos — Devagar...

Ambrósio — Dá-me esse papel!

Carlos — Ah, o senhor meu tio encrespa-se. Olhe que a tia não está em casa, e eu sou capaz de lhe fazer o mesmo que fiz ao D. Abade.

Ambrósio — Onde está ela?

Carlos — Em lugar que aparecerá quando eu ordenar.

Ambrósio — Ainda está naquele quarto; não teve tempo de sair.

Carlos — Pois vá ver. (AMBRÓSIO sai apressado)

CENA IV

Carlos, só — Procure bem. Deixa estar, meu espertalhão, que agora te hei de eu apertar a corda na garganta. Estais em meu poder; querer roubar-nos... (Gritando:) Procure bem; talvez esteja dentro das gavetinhas do espelho. Então? Não acha?

CENA V

O mesmo e Ambrósio

Ambrósio, entrando — Estou perdido!

Carlos — Não achou?

Ambrósio — O que será de mim?

Carlos — Talvez se escondesse em algum buraquinho de rato.

Ambrósio, caindo sentado — Estou perdido, perdido! Em um momento tudo se transtornou. Perdido para sempre!

Carlos — Ainda não, porque eu posso salvá-lo.

Ambrósio — Tu?

Carlos — Eu, sim

Ambrósio — Carlinho!

Carlos — Já?

Ambrósio — Carlinho!

Carlos — Ora vejam como está terno!

Ambrósio — Por tua vida, salvai-me!

Carlos — Eu salvarei, mas debaixo de certas condições...

Ambrósio — E quais são elas?

Carlos — Nem eu nem o primo Juca queremos ser frades...

Ambrósio— Não serão.

Carlos — Quero casar-me com minha prima...

Ambrósio — Casarás.

Carlos — Quero a minha legítima...

Ambrósio — Terás a tua legitima.

Carlos — Muito bem.

Ambrósio — E tu me prometes que nada dirás a tua tia do que sabes?

(continua...)

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