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#Comédias#Literatura Brasileira

O primo da Califórnia

Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)

Beatriz – Foram essas as únicas que encontrei na gaveta da mesa: e note que uma já está desconjuntada.

Adriano – Não importa: os meus amigos são ricos, e estão acostumados ao luxo; é bom que vejam um dia e bem de perto como se passa na pobreza: divertir-se-ão ainda mais com isso.

Beatriz – Devo, porém, dizer, que o meu defunto Pancrácio era bem pobre, mas quando queria dar o seu banquete, mandava-me pedir louça emprestada à mulher do sargento Luizinho...

Adriano – Silêncio! Sinto que sobrem os meus amigos: limite-se às suas funções; e que se não perceba, que eu discuto com os meus criados.

Beatriz (À parte) – Criados! Vejam como é insolente este farroupilha.

CENA XIII

Ernesto, Eduardo, Adriano, Beatriz e dois amigos

Os Amigos – Eis-nos prontos para a súcia,

Pra comer, beber, folgar;

Queremos rir e brincar;

Eis-nos prontos, bem o vês;

Venha o vinho de Champanhe,

Venha o nosso bolo inglês.

Adriano – Bem vinda seja esta súcia,

Disposta a rir e folgar;Eu também quero brincar, E brincarei como três:Eis aqui o bom champanhe, Eis o nosso bolo inglês.

Ernesto – Bem vês, que somos exatos!

Adriano – Eu vos agradeço... vamos, tratemos de sentar-nos. Senhora Beatriz, por ora dispensamos os seus serviços; retire-se...

Beatriz (À parte) – Há trinta anos passados esta súcia de brejeiros me convidaria a tomar parte na patuscada. (Vai-se)

CENA XIV

Os Mesmos, menos Beatriz

Adriano – Sirvamo-nos de bolo inglês!...

Ernesto – Proponho que se dê carta de naturalização a este bolo; parece estar tão gostoso, que vale a pena fazer-se dele uma conquista nacional.

Adriano – Os vossos copos, senhores...

Eduardo – Eu cá tenho um copo de meio quartilho.

Ernesto – E eu um de lavores dourados!...

Adriano – Perdoai-me, senhores, o meu aparelho se acha m pouco desprovido...

Eduardo – Isto dobrará ainda o nosso prazer...

Adriano – Misturemos o champanhe como o Reno e o madeira; viva quem mais beber! (Bebe)

Ernesto – Excelente bolo!... mandarei o meu groom aprender com Adriano a fazer bolo inglês.

Eduardo – Ah! Tu tens um groom?

Ernesto – Desta altura... (Fazendo sinal de pequeno tamanho) inglês de puro sangue...

Adriano (À parte) – E eu?... só tenho por groom a velha Beatriz!... nada... vou embebedar-me. (Bebe)

Ernesto (A EDUARDO) – A propósito: sabes, que comprei um cabriolé?... oh! Coisa encantadora.

Adriano (À parte) – E eu?!!! Eu cá tenho os ônibus ou as gôndolas em lugar do cabriolé... oh! Sorte endemoninhada!...

Eduardo – Eu pretendo ter um carro magnífico, logo que herdar de meu tio, o conselheiro, trinta contos de réis de renda anual!... nada menos que isso.

Adriano – Então tu tens um tio com trinta contos de réis de renda?... (Bebe)

Ernesto – Eu conto que minhas tias me deixarão muito mais do que isso... Florindo e Júlio têm igualmente belas heranças em perspectiva... oh! Que belo uso faremos de tanto dinheiro!...

Adriano (À parte) – Todos eles têm parentes milionários... e eu?... eu tenho as algibeiras em trapos, e nunca me acontece cair-me o dinheiro por elas abaixo! Nem passado, nem parente, nem futuro, sou um pinga na extensão da palavra! Ora isto faz ferver o sangue! (Bebe)

Ernesto – E quem será tão desgraçado que não tenha tios, ou tias ricas?...

Adriano – Apoiado! Qual será, qual esse desgraçado?

Ernesto – Então, tu também os tens?...

Adriano – Ora seguramente! (À parte) É boa! Então por que não posso ter também os meus parentes?

Eduardo – Onde mora teu tio?...

Adriano – heim?... (Bebe)

Eduardo – Teu tio onde existe?

Adriano – Meu tio?... não é precisamente um tio... é um primo... oh! Um parente de desempenho! (À parte) Que mentira tão miserável!

Todos – Um primo!...

Adriano – Sim... um primo, que habita na Califórnia... Paulo... Cláudio... Jenipapo... tal qual... e eu que sou o seu único herdeiro. (À parte) todos eles têm tios ou tais, não é muito que eu arranje um primo para mim. (Bebe, e já meio tonto aos outros) Vocês bebem muito sofrivelmente!

Ernesto (Aos outros) – Eis aqui um parente, cuja existência me parece contestável: (A Adriano) então teu primo é muito rico?... o senhor Paulo... Cláudio... Jenipapo?...

(continua...)

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