Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Anastácio — Ainda mal, porque estou desconfiando que cheguei tarde. Maurício disparou em tal carreira pela aristocracia adentro que é bem de crer que não pare senão à porta do palácio da Praia Vermelha. No entanto, eis-me arvorado em médico de loucos, e o senhor, que me impôs este mister, vem agora dizer-me que lhe estou armando traições!...Começo a acreditar que tenho na minha família mais doidos do que pensava...
Henrique — E considera-me talvez no número desses...
Anastácio — A falar a verdade, ainda não te suponho doido; mas, orgulhoso, olha que és muito, Henrique.
Henrique — É a vossa mercê que devo este meu orgulho: desde os primeiros anos senti arder em minh’alma o amor da arte; e foi meu tio que com a sua riqueza facilitou-me os meios para ir estudar na Europa. Ali, no foco da civilização, e no meio dos grandes mestres, a cada passo que avançava na conquista dos segredos da arte, reconhecia que me ia enobrecendo por ela; e quando depois de doze anos de um estudo incessante, ao apresentar um quadro que me fora inspirado pelas saudades da pátria, meu mestre correu a abraçar-me, chorando, e pintores célebres que têm um nome no mundo, me aplaudiram e me chamaram irmão, tive consciência de que valia alguma coisa; amei a minha palheta como um rei a sua coroa, e apreciei devidamente o meu nome de artista para não curvar a cabeça diante de papelões dourados. Eis aí o meu orgulho: é vossa mercê que o devo.
Anastácio — Segue-se daí que te mandei estudar para te fazer pintor, e que tu não me borraste a pintura; sê portanto orgulhoso com esses que em sua soberba desprezam o artista que vale mil vezes mais do que eles; quando porém se tratar de tua prima, perdoa-lhe as fraquezas, e humaniza-te com ela, mesmo porque a rapariga é bela como as virgens do teu Perugino.
Henrique — Quer então, meu tio, que eu me sujeite aos desdéns e aos insultos de parentes que se envergonham de mim?...Deseja, por exemplo, que Leonina suponha que eu vim hoje aqui de propósito para admirá-la...para beijar os vestígios de suas pisadas...para...Oh! não, meu tio.
Anastácio — Amas ou não amas tua prima?...Sim, ou não?...
Henrique — Ameia-a.
Anastácio — Falo-te no presente, e respondes-me no pretérito?...Tu não sabes gramática.
Henrique — Como quer que lhe responda?...
Anastácio — Sim, ou não?...amas, ou não amas?...
Henrique — Não devia amá-la.
Anastácio — Pior: tu não nasceste para pintor; nasceste para advogado e havias de ser grande na chicana.
Henrique — Não devia amá-la porque o seu coração é uma urna impura que guarda os restos de cem amores fingidos; não devia amá-la porque a sua vaidade amesquinha e desbota os seus encantos; não devia amá-la porque...
Anastácio — Mas, a pesar teu, morres de amores pela rapariga!...
Henrique — Ao menos saberei fugir dela.
Anastácio — Sim?...pois olha para aquela rua; de quem será aquele balão pavoroso, que não sei como entrou pelo portão do Jardim?...
Henrique — Oh!...é ela...eu fujo...adeus, meu tio...
Anastácio — Foge, corre depressa; mas eu no teu lugar deixava-me ficar, ocultando-me atrás destes bambus.
Henrique — Tem razão: vê-la-ei sem ser visto; mas não me atraiçoe.(Oculta-se)
Anastácio — Que ele não fugia, sabia eu muito bem! Os namorados parecem-se
todos uns com os outros, com a mão direita com a mão esquerda
CENA IV
Leonina — Então, meu padrinho, sempre se resolveu a vir jantar conosco!...
Anastácio — Não, senhora; não sou mulher nem político para andar mudando de opinião da noite para o dia.
Leonina — Entretanto, nós o viemos encontrar aqui.
Anastácio — É verdade, mas preferi à companhia dos seus fidalgos a de uma pessoa a quem tributo verdadeira estima.
Leonina — Sim, creio mesmo que me pareceu ter visto dois vultos, quando agora vinha chegando.
Anastácio — E encontrou só um, porque espantou o outro com a sua presença.
Leonina — Palavra de moça, que é a primeira vez em minha vida que assim espanto um homem! Quem é esse senhor espantadiço!...
Anastácio — É seu primo-irmão. (Silêncio). Sabe quem é seu primo-irmão?...
Leonina — Demais o sei e todos o sabem; ontem à noite vossa mercê descarregou um golpe terrível na minha vaidade; e embora aqueles, que nos cercavam, nos dissessem depois que raras são as famílias que não tem de envergonhar-se de algum parente menos digno, não pude mais esquecer que um irmão de meu pai é mestre marceneiro, e meu primo-irmão um pintor!
Anastácio — E
perdeu por isso uma noite de sono...coitadinha!
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.