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#Sermões#Retórica

Sermão da Rainha Santa Isabel

Por Padre Antônio Vieira (1674)

25. Eu já quisera acabar, mas está-me chamando a nova primavera que vemos, a que repare naquelas rosas. Levava Isabel na aba do vestido grande cópia de moedas de ouro e prata, para repartir aos pobres, e era inverno. Perguntou-lhe el-rei que levava, e respondeu que rosas. – Rosas neste tempo, como pode ser? – diz elrei. Abriu a santa, e eram rosas. Há rainha, há rei no mundo que tenha tais poderes? Gastar muito dinheiro, e grandes tesouros em flores, em jardins, e ainda em sombras, que é menos, isto podem fazer, e fazem os reis; mas fazer de um dobrão uma rosa, converter uma substância em outra, ainda que seja um grão de ouro em um grão de areia, nem todos os reis do mundo juntos o podem fazer; é outra jurisdição mais alta. Manda Deus a Moisés sobre o Egito, e o título que lhe deu foi de Deus de Faraó: Constitui te Deum Pharaonis.28 Parece demasiado título, e não necessário. Faraó era rei de Egito: seja Moisés rei de Faraó, e basta. Pois por que lhe não dá Deus título de rei, senão de Deus? Porque era razão que o título se conformasse com os poderes. Moisés havia de converter a vara em serpente, o Nilo em sangue, a água em rãs, o pó em mosquitos, e converter umas substâncias em outras, é poder e jurisdição mais alta que a dos reis. Chama-se logo Moisés, não rei de Faraó, senão Deus. Esta foi a discrição do demônio no formulário das suas tentações. Quando disse a Cristo que convertesse as pedras em pão, acrescentou: Si Filius Dei es;29 quando lhe ofereceu todos os reinos do mundo, não falou em ser Filho de Deus. Pois se lhe chama Filho de Deus quando lhe diz que converta as pedras em pão, por que lhe não chama também Filho de Deus quando lhe oferece os reinos de todo o mundo? Porque o domínio de um reino, e de muitos reinos, e de todos os reinos, cabe na jurisdição de um homem rei; mas converter uma substância em outra é poder mais que humano, é poder mais que real, é poder divino. Tais foram neste caso os poderes daquela rainha, sobre todos os reis e rainhas do mundo. Mas ainda não está ponderado o fino da maravilha.

26. Não esteve a maravilha em converter as moedas em rosas, senão em quê? Em dizer são rosas, e serem rosas. Serem rosas, só porque Isabel lhe chamou rosas, é maravilha só da boca de Deus. Ponderação admirável de São Paulo: Qui vocat ea quae non sunt, tanquam ea quae sunt (Rom. 4, 17). Deus chama com tanta verdade as coisas que não são, como aquelas que são. – E esta é a maior glória do seu poder, e o maior poder da sua palavra, porque basta que ele mude os nomes às coisas, para que elas mudem a natureza, e o que era deixe de ser, e o que não era, seja. Mas, quantas vezes fez Deus esta maravilha? Uma só vez, e no maior milagre dos seus milagres, e na maior obra de sua onipotência. Na instituição do Diviníssimo Sacramento quis Cristo que o pão se convertesse e transubstanciasse em seu corpo; e o que fez para isso? Disse que opão que tinha nas mãos era seu corpo: Hoc est corpus meum: (Lc. 22,19), e bastou que chamasse seu corpo ao pão, para que o que era pão, deixasse de serpão, e o que não era seu corpo, fosse seu corpo. Na criação do mundo não fez Deus semelhante maravilha. Mandou que se fizessem as coisas, e fizeram-se: Ipse díxit, et facta sunt (Sl. 32, 9); porém, no Diviníssimo Sacramento, para o qual tinha reservado os maiores poderes do seu poder, fez que fosse seu corpo o que era pão, só com lhe chamar seu corpo: Vocat ea quae non sunt, tanquam ea quae sunt. O mesmo fez Isabel. Não levantou as mãos, não orou, não pediu, não mandou, só disse que eram rosas as moedas, e foram rosas. O chamar foi produzir; e o dizer que eram, foi fazer que fossem o que não eram: Vocat ea quae non sunt, tanqamo ea quae sunt. Em Cristo foi poder ordinário; em Isabel poder delegado, mas infinitamente maior que todos os poderes reais.

27. Os reis também arremedam, ou querem arremedar a Deus na soberania deste poder. Cobri-vos marquês, assentai-vos duque. Só com o rei vos chamar marquês, sois marquês; só com vos chamar duque, sois duque. Mas tudo isso que vem a ser? Um nome; no demais sois o mesmo que dantes éreis. Podemos reis dar nomes, sim, mas dar ser; ou tirar ser; ou mudar ser; não chega lá a sua jurisdição, por mais poderosos que sejam. Depois que Deus criou o mundo, e o povoou, e fez a Adão rei e senhor de todo ele, mandou que todos os animais viessem à presença do mesmo Adão, para que ele lhes pusesse os nomes: Adduxit ea ad Adam, ut videret quid vocaret ea (Gên. 2,19). E por que não pôs Deus os nomes aos animais, e quis que lhos pusesse Adão? Judiciosamente S. Basílio de Selêucia Partiamur hujus fictricis solertiae gratiam: me cognoscant artificem naturae lege, te dominum intelligant apellatione nominis: Quis Deus que Adão pusesse os nomes aos animais, para partir com ele o império, e mostrar a diferença que havia de um a outro: Eu, Deus, e tu, rei do universo; eu Deus, porque dei o ser aos animais; tu rei, porque lhes pusestes os nomes. – De maneira que o mais a que pode chegar um rei, ainda que rei de todo o mundo, é pôr nomes e dar nomes; fazer que vos chamais dali por diante o que ele vos chamou: Omine quod vocavit Adam animae viventis, ipsum est nomem ejus.30 Porém fazer, com esse nome, que o que não era seja, e que esse mesmo chamar seja dar ser, é jurisdição incomparavelmente mais soberana, por natureza, só de Deus, por delegação, só de Isabel. Enquanto rainha, podia dar nomes, mas nomes que não eram mais que nomes; enquanto santa, deu nomes que davam ser e mudavam ser; e por isso maior rainha que todas as rainhas.

(continua...)

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