Por Padre Antônio Vieira (1670)
Agora se entenderá o que Cristo lançou de um cálix no outro cálix, quando inclinou um no outro: Inclinavit ex hoc in hoc. Um cálix, como dissemos, era o da morte, o outro era o da ausência; e como o cálix da ausência era muito mais amargo para o seu coração, e muito mais terrível que o da morte, para que constasse aos homens quanto menos fazia em morrer por eles, que em aportar e ausentar deles, que fez? Todas as agonias e ânsias que naturalmente havia de padecer na morte, verteu-as do cálix da morte, e passou ao cálix da ausência. Na morte, segundo as leis do amor da vida, havia Cristo de padecer todo aquele tropel de penas, toda aquela tormenta de aflições, todo aquele combate ou conflito de angústias que padecem, e mais na idade robusta, aqueles que por isso se chamam agonizantes; e todas essas se passaram do cálix do Calvário ao do Horto, porque no Horto se ausentava. Assim o dizem os evangelistas, falando expressamente daquele último aportamento. Que padecem os homens no transe da morte? Padecem agonias? Et factus in agonia. Padecem tristezas? Tristis est anima mea. Padecem tédios e temores? Caepit pavere et taedere.24 De sorte que todas as aflições e angústias que se padecem na morte, as traspassou o Senhor do cálix da morte, e as refundiu no cálix da ausência. E se a alguém porecer dificultoso, que voltando-se o cálix do Calvário sobre o cálix do Horto, não levasse de mistura algumas portes de sangue, essas foram aquelas gotas de sangue que no suor mais que mortal do Horto derramou a violência da mesma agonia: Et factus est sudor ejus tanquam guttae sanguinis decurrentis in terram.25 Confesse logo a morte, o testemunho de seus próprios despojos, que muito mais sentiu Cristo o aportar-se de nós, que o morrer por nós; e que se o morrer nos homens é a maior prova do amor, em Cristo o ausentar-se dos homens foi a maior fineza.
E para que nem a morte, nem outrem por ela, tenha que replicar contra esta amorosa verdade, concluamos com uma justificação autêntica do secretário do mesmo amor, que dentro e fora do coração de Cristo foi presente a tudo, e acabemos por onde começamos: Sciens Jesus quia venit hora ejus, ut transeat ex hoc mundo: Sabendo o Senhor Jesus que era chegada a hora de partir deste mundo. – Esta hora de que fala o evangelista era a hora da morte. Assim o declarou o mesmo S. João no capítulo sete, falando desta mesma hora: Nemo misit in illum manus, quia nondum venerat hora ejus.26 E no capítulo oitavo, tornou a declarar o mesmo: Et nemo apprehendit eum, quia necdum venerat hora ejus.27 Pois se esta hora era a hora de morrer o Senhor, e dar a vida pelos homens, por que não diz: Sabendo que era chegada a hora de morrer; senão:
Sabendo que era chegada a hora de se ausentar? Se o intento do evangelista era encarecer o amor do fim: In finem dilexit eos, declare o fim do amor pelo fim da vida, e diga que amou Cristo tanto aos homens, que chegou a morrer por eles. Mas para prova e encarecimento do amor, calar o nome da morte, e ostentar o da ausência e da portida? Sim, porque, como S. João tinha as chaves do coração de Cristo, sabia o lugar que tinham nele estes dois afetos, e o preço com que lá se avaliava um e outro extremo: O preço da morte era muito alto, porque pesava tanto como a vida; mas o da ausência era muito mais subido, porque pesava tanto como aqueles por quem se dava a vida. Por isso diz que quando chegou a hora de partir, então amou, e não quando chegou a hora de morrer, porque era muito mais dura para o coração de Cristo a mesma hora enquanto hora da ausência, que enquanto hora da morte. A hora da morte era um fim que acabava a vida: a hora da ausência era o fim que consumava o amor: Ut transeat ex hoc mundo, influem dilexit eos.
Concluído temos logo (não a pesar, senão a prazer de Cristo morto, de Cristo sacramentado e de Cristo amante) que o chegar a aportar-se dos homens por amor dos homens, foi o último e mais subido extremo com que os amou: Cum dilexisset suos, in finem dilexit eos.
§VI
Obrigações de
nosso amor. Propósito final: aportar-se cada um de tudo o que o aporta de
Cristo. Oração.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.