Por Padre Antônio Vieira (1669)
Tinham os moabitas assentado os seus arraiais defronte a fronte com os de Josafá e Jorão, reis de Israel e Judá, e vendo ao amanhecer que por entre eles corria uma ribeira, julgaram que a água, ferida dos raios do sol, era sangue, e persuadiram-se que os dois reis amigos, por alguma súbita discórdia, tinham voltado as armas um contra o outro: Dixerunt: sanguis gladii est: pugnaverunt reges contra se, et caesi sunt mutuo.20 Caído da graça de el-rei Assuero seu grande valido Amã, e condenado à morte, lançou-se aos pés da rainha Ester no trono onde estava, pedindo perdão e misericórdia; e como Assuero o visse naquela postura, foi tal o juízo que formou, e tão alheio de sua própria honra, que não há palavras decentes com que se possa declarar: Etiam reginam vult opprimere me praesente.21 Corria fortuna a barca de S. Pedro no Mar de Tiberíades, derrotada da fúria dos ventos e quase soçobrada do peso das ondas, quando apareceu sobre elas Cristo caminhando a grandes passos a socorrê-la. Viram-no os apóstolos, e então tiveram o naufrágio por certo, e se deram por totalmente perdidos, julgando, diz o texto, que era algum fantasma: Putaverunt phantasma esse (Mc. 6, 49). Voltemos agora sobre estes três casos tão notáveis, e saibamos a causa de tantos desenganos da vista. Os apóstolos, Assuero, os moabitas, todos estavam com os olhos abertos, todos viram o que viam, e todos julgaram uma coisa por outra. Pois, se os apóstolos viam a Cristo, como julgavam que era fantasma? Se Assuero viu a Amã em ato de pedir misericórdia, como julgou que lhe fazia adultério? Se os moabitas viam a água da ribeira, como julgaram que era sangue? Porque assim confundem e trocam as espécies da vista os olhos perturbados com alguma paixão. Os apóstolos estavam perturbados com a paixão do temor; Assuero com a paixão da ira; os moabitas com a paixão do ódio e da vingança; e como os moabitas desejavam verter o sangue dos dois exércitos inimigos, a água lhes parecia sangue; como Assuero queria tirar a vida a Amã, a contrição lhe parecia pecado; como os apóstolos estavam medrosos com o perigo, o remédio, e o mesmo Cristo lhes parecia fantasma. Fiai-vos lá de olhos que vêem com paixão.
As paixões do coração humano, como as divide e enumera Aristóteles, são onze, mas todas elas se reduzem a duas capitais: amor e ódio. E estes dois afetos cegos são os dois pólos em que se revolve o mundo, por isso tão malgovernado. Eles são os que pesam os merecimentos, eles os que qualificam as ações, eles os que avaliam as prendas, eles os que repartem as fortunas. Eles são os que enfeitam, ou descompõem; eles os que fazem, eu aniquilam; eles os que pintam ou despintam os objetos, dando e tirando a seu arbítrio a cor, a figura, a medida, e ainda o mesmo ser e substância, sem outra distinção ou juízo, que aborrecer ou amar. Se os olhos vêem com amor, o corvo é branco: se com ódio, o cisne é negro; se com amor; o demônio é formoso: se com ódio, o anjo é feio; se com amor; o pigmeu é gigante: se com ódio, o gigante é pigmeu; se com amor; o que não é tem ser: se com ódio, o que tem ser e é bem que seja, não é nem será jamais. Por isso se vêem, com perpétuo clamor da justiça, os indignos levantados e as dignidades abatidas; os talentos ociosos, e as incapacidades com mando; a ignorância graduada, e a ciência sem honra; a fraqueza com bastão, e o valor posto a um canto; o vício sobre os altares, e a virtude sem culto; os milagres acusados, e os milagrosos réus. Pode haver maior violência da razão? Pode haver maior escândalo da natureza? Pode haver maior perdição da república? Pois tudo isto é o que faz e desfaz a paixão dos olhos humanos: cegos quando se fecham e cegos quando se abrem; cegos quando amam, e cegos quando aborrecem; cegos quando aprovam, e cegos quando condenam; cegos quando não vêem, e quando vêem muito mais cegos: Ut videntes caeci fiant.
V
Terceira
espécie de cegueira, causada pela presunção: a dos cegos que vendo o demais, só
a sua cegueira não vêem. A parábola do cego que guiava a outro cego. Repreensão
de S. João ao bispo de Laodicéia. Harpastes, a criada de Sêneca. A queda do
velho Tobias e a de nossos primeiros pais. A cega presunção dos escribas e
fariseus. A cegueira de Longuinhos e a presunção de ofício.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 23 ago. 2026.