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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

Este é o escrúpulo dos que assinalam o onde; e qual será o dos que o aceitam? Que me mandem onde não convém, culpa será, ou desgraça, de quem me manda; mas que eu não repare aonde vou! Ou eu sei aonde vou, ou o não sei. Se o não sei, como vou onde não sei? E se o sei, como vou onde não posso fazer o que devo? Tudo temos em um profeta, não em profecia, senão em história. Ia o profeta Habacuc com uma cesta de pão no braço, em que levava de comer para os seus segadores, quando lhe sai ao caminho um anjo, e diz-lhe que leve aquele comer a Babilônia, e que o dê a Daniel, que estava no lago dos leões. Que vos parece que responderia o profeta neste caso? Domine, Babylonem non vidi, et lacum nescio (Dan. 14,35): Senhor, se eu nunca vi Babilônia, nem sei onde está tal lago; como hei de levar de comer a Daniel ao lago de Babilônia? Eu digo que o profeta respondeu prudente; vós direis que não respondeu bizarro, e segundo os vossos brios assim é. Se os segadores andaram aqui nas lezírias, e o recado se vos dera a vós, como havíeis de aceitar sem réplica? Como vos havíeis de arrojar ao lago, a Babilônia e aos leões? Avisam-vos para a armada, para capitão-demar-e-guerra, para almirante, para general, e sendo o lagozinho o mar oceano, na costa onde ele é mais soberbo e mais indômito, ver como vos arrojais ao lago! Acenam-vos com o governo do Brasil, de Angola, da Índia, com a embaixada de Roma, de Paris, de Inglaterra, de Holanda, e sendo estas as Babilônias das quatro partes do mundo, ver como vos arrojais a Babilônia! Há de se prover a gineta, a bengala, o bastão para as fronteiras mais empenhadas do reino, e sendo a guerra contra os leões de Espanha, tanto valor, tanta ciência, tanto exercício, ver como vos arremessais aos leões! Se vós não vistes o mar mais que no Tejo, se não vistes o mundo mais que no mapa, se não vistes a guerra mais que nos panos de Tunes, como vos arrojais ao governo da guerra, do mar; do mundo?

Mas não é ainda este o mais escandaloso reparo. Habacuc levava no braço a sua cesta de pão, mas ele não reparou no pão nem na cesta: reparou somente na Babilônia e no lago; vós às avessas, na Babilônia e no lago, nenhum reparo; no pão e na cesta, aí está toda a dúvida, toda a dificuldade, toda a demanda. Babilônia, Daniel, lago, leões, tudo isso é mui conforme ao meu espírito, ao meu talento, ao meu valor. Eu irei a Babilônia, eu libertarei a Daniel, eu desqueixarei os leões, se for necessário; não é essa a dificuldade, mas há de ser com as conveniências de minha casa. Não está a dúvida na Babilônia; está a dúvida e a Babilônia na cesta. O pão desta cesta é para os meus segadores; ir e vir a Babilônia, e sustentar a Daniel à custa do meu pão, não é possível nem justo. Os meus segadores estão no campo, a minha casa fica sem mim, Babilônia está daqui tantos centos de léguas, tudo isso se há de compor primeiro; hão-me de dar pão para os segadores, e pão para a minha casa, e pão para a ida, e pão para a volta, e para se acaso lá me comer um leão, que só neste caso se supõe o caso, e por se acaso eu morrer na jornada, esse pão há-me de ficar de juro, e quando menos em três ou quatro vidas. Não é isto assim? O ponto está em encher a cesta e segurar o pão. E o de mais? Suceda o que suceder, confunda-se Babilônia, pereça Daniel, fartem-se os leões, e leve o pecado tudo. Por isso leva tudo o pecado. E quantos pecados vos parece que vão envoltos nesta envolta, de que nem vós, nem outros fazem escrúpulo? Mas, dir-me-eis, se acaso vos quereis salvar: – Pois, padre, como me hei de haver neste caso? – Como se houve o profeta. Primeiro escusar, como se ele escusou, e se não valer a escusa, ir como ele foi. E como foi Habacuc? Tomou-o o anjo pelos cabelos, e pô-lo em Babilônia Se vos não aproveitar uma e outra escusa, ide, mas com anjo, e pelos cabelos: com anjo que vos guie, que vos encaminhe, que vos alumie, que vos guarde, que vos ensine, que vos tenha mão, e ainda assim muito contra vossa vontade: pelos cabelos. Mas que seria se em vez de ir pelos cabelos fôsseis por muito gosto, por muito desejo, e por muita negociação? E em vez de vos levar da mão um anjo, vos levassem da mão dois diabos, um da ambição, outro da cobiça? Se estes dois espíritos infernais são os que vos levam a toda a parte onde ides, como não quereis que vos levem ao inferno? E que nestes mesmos caminhos seja uma das alfaias deles o confessor! E que vos confesseis quando ides assim, e quando estais assim, e quando tornais assim! Não quero condenar, nem louvar, porque o prometi; mas não posso deixar de me admirar com as turbas: Et admiratae sunt turbae.

§VI

Quibus auxiliis? Com que meios? Três dedos e uma pena, o ofício mais arriscado do governo humano. A escrita fatal do festim de Baltasar. Os ministros da pena e as parteiras do Egito. O texto obscuro de Davi. Importância dos escribas. Comparação do profeta Malaquias. Etimologia de calamidade. As penas dos quatro evangelistas. Os massoretas e a pontuação das Escrituras Sagradas. As arrecadas da Esposa do Cântico dos Cânticos.

(continua...)

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