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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Em nenhuma legislação humana conheço instituição tão justa, tão eficaz, tão profundamente cristã, tão beneficamente social. E mesmo muito preferível ao Work-House inglês: ali, o pobre conserva uma soma de independência que lhe faz supor a existência de uma soma de direitos: considera-se ainda um cidadão, tem pretensões ao respeito, à igualdade, à consideração: desobedece, revolta-se, foge do Work-House, recai no deboche, na fome, na desordem, no vício. Aqui, não: o pobre fica prisioneiro da caridade! Perde o direito de ter fome. E as classes dirigentes, tendo a certeza de que os seus pobres lá estão, bem aferrolhados, com uma razoável enxerga e um caldo diário, podem dormir descansadas, sem receio de perturbações da ordem ou de revoltas do pauperismo.

Infelizmente este projecto tão perfeito, de que todos os jornais sérios falaram com palavras de comovida admiração, nunca conseguiu passar nas Câmaras. Motivos mesquinhamente governamentais impediram uma tão bela instituição de resolver o grande problema da miséria, pois é com estas sábias medidas que ela se arranca do seio da sociedade, e não com as vossas reformas hipócritas, sofistas da revolução social!

Foi esta instintiva repulsão pela pobreza, pelas maneiras rudes, pelas instalações incómodas, que impediu Alípio, desde que gozava na Quinta dos Miguéis as vantagens da educação e os regalos da riqueza, de visitar amiúde a casa modesta de seus pais. li porém uma calúnia dizerse – como o disseram certos panfletos indecorosos – que o Conde, já rico, já ministro, renegara a sua família.

É para mim uma honra, vir hoje, perante Portugal, explicar, destruir esse erro voluntário e hostil.

Logo que o Conde entrou na Câmara, fez o seu casamento tão rico e se estabeleceu em Lisboa, pensou sem demora em elevar paralelamente a situação social de seu pai. Encontrou nele, porém, exigências tais que tornaram impossível a realização dos seus desejos. As negociações foram longas, muito delicadas, muito secretas. Tenho nas mãos toda essa correspondência, e posso dizer que nela o Conde mostra um tacto, uma prudência, uma previdência geniais. Seu pai, ao princípio, desejou que o Conde lhe fornecesse meios de abrir em Lisboa um grande estabelecimento de alfaiate. Isto era.14 naturalmente inaceitável. Como o Conde me disse muita vez, não podia passar, com o correio de ministro atrás, pela rua onde reluzisse a tabuleta «Abranhos, Alfaiate». Como conseguiria ele, na Câmara, aniquilar um adversário que lhe poderia responder: – «Tudo isso é muito bonito, mas o pior é que o senhor seu pai me estragou inteiramente este par de calças e roubou-me na fazenda!

Era impossível esta permanente tortura moral. E o pai do Conde tanto o compreendeu, que escreveu (não cito textualmente, pois que nem a sua ortografia, nem a sua gramática poderiam ter lugar num livro correcto): – Se não queres que eu possua um estabelecimento do ofício em que me criei, que é honrado e me tem ajudado a viver, e à tua mãe, então o melhor é que eu vá para a tua companhia, para tua casa, onde tua mãe, que é tão económica e tão hábil nos arranjos, pode ser uma governanta útil e poupar a tua mulher todos os incómodos «dos azeites e vinagres». (Esta expressão é dele).

O Conde recusou com indignação. Realmente a exigência é curiosa. Virem aquele homem e aquela mulher de Penafiel, com os hábitos, os modos, as figuras, a fala de dois trabalhadores de Penafiel, viver numa casa onde se recebia a fidalguia de Lisboa, os representantes dos Reis estrangeiros, a flor da literatura, a Maioria! Absurdo! Se o Conde, como ele dizia, não fosse um homem público, poderia sacrificar-se a essa companhia plebeia. Mas como Estadista, a presença na sua casa daquele pai de feição reles, a comer o arroz com a faca, a escabichar os dentes com as unhas, a perguntar às senhoras – então como vai essa bizarria? – com o seu catarro, cuja expectoração perpétua era repulsiva, só serviria para diminuir a autoridade moral do Conde e o prestígio do seu talento. Em nome dos interesses superiores do Estado, devia repelir aquela proposta. Se um dia tivesse a jantar o Ministro de Inglaterra ou de França, no momento de uma negociação delicada e de alto interesse para Portugal, como poderia impressionar os diplomatas estrangeiros, com o pai, ao lado, a tirar cera dos ouvidos?

Foi por isso que ele informou o pai de que só o receberia em sua casa, com a condição de nunca aparecer aos jantares ou às soirées. O velho, decerto mal aconselhado por intrigantes políticos, respondeu com uma carta (que, pelas razões dadas, não cito textualmente) em que lhe diz que, desde que o filho se envergonha de seu pai, todos os arranjos são inúteis, e que cada um siga o seu caminho; eu (diz ele) não posso, aos 55 anos, mudar os meus hábitos e o meu catarro: sou como sou; não tenho as maneiras de um elegante, mas tenho a minha honra e os meus sentimentos. Que meu filho jante na sala e me faça jantar na cozinha, não! Continua a ser Abranhos deputado, que eu continuarei a ser Abranhos alfaiate. Mas nem por isso deixo de ser tão homem de bem como tu.

(continua...)

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