Por Eça de Queirós (1874)
Quando se viu assim, só e pobre, Macário desatou a chorar. Tudo estava perdido, findo, extinto; era necessário recomeçar, pacientemente a vida, voltar às longas misérias de Cabo verde, tornar a tremer a tremer os passados desesperos, suar os antigos suores! E Luísa? Macário escreveu-lhe. depois rasgou a carta. Foi a casa dela: as janelas tinham luz; subiu até ao primeiro andar, mas aí tomou-o uma mágoa, uma covardia de revelar o desastre, trémulo de uma separação, o terror de ela se recusar, negar-se, hesitar! E quereria ela esperar mais?! Não se atreveu a falar, explicar, pedir; desceu, pé ante pé. Era noite. Andou ao acaso pelas ruas: havia um sereno e silencioso luar. Ia sem saber: de repente ouviu, de uma janela alumiada, uma rabeca que tocava a chácara mourisca. Lembrou-se do tempo em que conhecera Luísa, do bom sol claro que havia então, e do vestido dela, de cassa com pintas azuis! Esta na rua onde eram os armazéns do tio. Foi caminhando. Pôsse a olhar para a sua antiga casa. A janela do escritório estava fechada. Quantas vezes dali vira Luísa, e o brando movimento do seu leque chinês! Mas uma janela, no segundo andar, tinha luz: era o quarto do tio. Macário vai observar mais de longe: uma figura estava encostada, por dentro, à vidraça: era o tio Francisco veio-lhe uma saudade de todo o seu passado simples, retirado, plácido. Lembrava-lhe o seu quarto, e a velha carteira com fecho de prata, e a miniatura de sua mãe, que estava por cima da barra do leito; a sala de jantar e o seu velho aparador de pau-preto, e a grande caneca de água, cuja asa era uma serpente irritada. Decidiu-se e, impelido por um instinto, bateu à porta. Bateu outra vez. Sentiu abrir a vidraça, e a voz do tio perguntar:
— Quem é?
— Sou eu, tio Francisco, sou eu. Venho dizer-lhe adeus.
A vidraça fechou-se, e daí a pouco a porta abriu-se com um grande ruído de ferrolhos. O tio Francisco tinha um candeeiro de azeite na mão. Macário achou-o magro, mais velho. Beijou-lhe a mão.
— Suba – disse o tio.
Macário ia calado, cosido com o corrimão.
Quando chegou ao quarto, o tio Francisco pousou o candeeiro sobre uma larga mesa de pau-santo, e de pé, com as mãos nos bolsos, esperou.
Macário estava calado, anediando a barba.
— Que quer? – gritou-lhe o tio.
— Vinha dizer-lhe adeus; volto para Cabo Verde.
— Boa viagem.
E o tio Francisco, voltando-se as costas, foi rufar na vidraça.
Macário ficou imóvel, deu dois passos no quarto, todo revoltado, e ia sair.
— Onde vai, seu estúpido? – gritou-lhe o tio.
— Vou-me.
— Sente-se ali! E o tio Francisco falava, com grandes passadas pelo quarto:
— O seu amigo é um canalha! Loja de ferragens! Não está má! O senhor é um homem de bem. Estúpido, mas homem de bem. Sente-se ali! Sente-se! O seu amigo é um canalha! O senhor é um homem de bem! Foi a Cabo Verde! Bem sei! Pagou tudo. Está claro! Também sei! Amanhã faz favor de ir para a sua carteira, lá para baixo. Mandei pôr palhinha nova na cadeira. Faz favor de pôr na fatura Macário & Sobrinho. E case. Case, e que lhe preste! Levante dinheiro. O senhor precisa de roupa branca e de mobília. E meta na minha conta. A sua cama lá está feita.
Macário queria abraçá-lo, estonteado, com lágrimas nos olhos, radioso.
— Bem, bem. Adeus!
Macário ia sair.
— Oh! burro, pois quer-se ir desta sua casa?
E indo a um pequeno armário trouxe geleia, um covilhete de doce, uma garrafa antiga de Porto e biscoitos.
— Coma.
E sentando-se ao pé dele, e tornando a chamar-lhe estúpido, tinha uma lágrimas a correr-lhe pelo engelhado da pele.
De sorte que o casamento foi decidido para dali a um mês. E Luísa começou a tratar do seu enxoval.
Macário estava então na plenitude do amor e da alegria.
Via o fim da sua vida preenchido, completo, radioso. Estava quase sempre em casa da noiva, e um dia andava-a acompanhando, em compras, pelas lojas. Ele mesmo lhe quisera fazer um pequeno presente, nesse dia. A mãe tinha ficado numa modista, num primeiro andar da Rua do Ouro, e eles tinham descido, alegremente, rindo, a um ourives que havia em baixo, no mesmo prédio, na loja.
O dia estava de Inverno, claro, fino, frio, com um grande céu azul-ferrete, profundo, luminoso, consolado.
— Que bonito dia! – disse Macário.
E com a noiva pelo braço, caminhou um pouco, ao comprido do passeio.
— Está! – disse ela. – Mas podem reparar; nós sós...
— Deixa, está tão bom...
— Não, não.
E Luísa arrastou-o brandamente para a loja do ourives. Estava apenas um caixeiro, trigueiro, de cabelo hirsuto.
Macário disse-lhe:
— Queria ver anéis.
— Com pedras – disse Luísa – e o mais bonito.
— Sim, com pedras – disse Macário. – Ametista, granada. Enfim, o melhor.
E, no entanto, Luísa ia examinando as montras forradas de veludo azul, onde reluziam as grossas pulseiras cravejadas, os grilhões, os colares de camafeus, os anéis de armas, as finas alianças frágeis como o amor , e toda a cintilação de pesada ourivesaria.
— Vê, Luísa – disse Macário.
O caixeiro tinha estendido, na outra extremidade do balcão, em cima do vidro da montra, um reluzente espalhado de anéis de ouro, de pedras, lavrados, esmaltados; e Luísa, tomando-os e deixando-os com a ponta dos dedos, ia-os correndo e dizendo:
— É feio. É pesado. É largo.
— Vê este – disse-lhe Macário.
Era um anel de pequenas pérolas.
— É bonito – disse ela. – É lindo!
— Deixa ver se serve – disse Macário.
E tomando-lhe a mão, meteu-lhe o anel devagarinho, docemente, no dedo; e ela ria, com os seus brancos dentinhos finos, todos esmaltados.
— É muito largo – disse Macário. – Que pena!
— Aperta-se, querendo. Deixe a medida. Tem-no pronto amanhã.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Singularidades de uma Rapariga Loura. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16623. Acesso em: 29 jun. 2026.