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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

E isto não lhe parecia excessivo, nem trágico, nem despropositado: pelo contrário era a coisa racional, digna, e de mais, a única possível. E parecia-lhe que estava raciocinando muito friamente. Um duelo à espada, dois negociantes em mangas de camisa, atirando-se cutiladas gochas, vãs, até que um se feria no braço, parecia-lhe ridículo: e não era menos trocarem duas balas de pistola, falharem-se, e cada um entre os seus padrinhos voltar a meter-se na carruagem de aluguel. Não. Para uma ofensa daquelas, só a morte: uma só pistola carregada, tirada ao acaso entre dois, disparada à distância dum lenço. Mas isto não era realizável. Onde encontrariam eles testemunhas que consentissem, quisessem partilhar a responsabilidade desta tragédia? Debalde se lhes explicaria a ofensa: o adultério é uma coisa grave, para o marido, os outros consideram-no um fracasso que não pede estes excessos de sangue. Além disso, se ele fosse o morto, bem, acabava-se: mas se visse cair o outro seus pés, qual seria depois a sua existência? Teria de fugir, abandonar o seus negócios, recomeçar a fortuna, numa terra estranha. Onde? E depois a grande dificuldade permanecia: onde haveria padrinhos para isso? Seria então o escândalo, o falatório, a verdade que se saberia. Enquanto do outro modo, tudo era fácil, secreto, decente ,sem incomodar ninguém. Tiravam à sorte: aquele que pudesse, matava-se dentro dum ano. Se ele perdesse não hesitaria um momento, matar-se-ia logo. E não duvidava um momento que o Machado aceitasse!... Como poderia recusar? Desonrara-o, devia pagar com o seu sangue. E no mesmo tempo tinha um vago pressentimento que seria ele que perderia... Acabou-se, tanto melhor. Que gozos lhe poderia trazer a vida, agora, naquela casa só, sempre só, e não tendo mesmo o gosto do trabalho, desde que não tinha prazer em gastar? E não hesitou um momento mais, escreveu logo um bilhete seco ao Machado, pedindo-lhe para comparecer, no dia seguinte, Domingo, às onze horas da manhã, no escritório... Fechava a carta quando a Margarida veio dizer que estava o jantar na mesa. Pôs rapidamente o chapéu, desceu à rua, deitou a carta na caixa da mercearia, entrou na sala de jantar – quando a cozinheira e a Margarida, diante da terrina de sopa que arrefecia, pasmavam daqueles modos do senhor. A presença da Margarida incomodava-o: sentia-a cúmplice, na confidência daquela infâmia. Um momento pensara em a despedir. Mas era como soltar, através doutras casas, e pelas casas das inculcadoras aquela língua de sopeira, contando e comentando a sua desgraça. Preferiu conservá-la, aturar-lhe a presença, manter-lhe o silêncio pelo receio de ser despedida...

Tinha desdobrado o guardanapo, levantando a terrina da sopa, quando a campainha retiniu com força.

Margarida foi à porta, e ele ficou com o coração aos pulos. A rapariga voltou correndo, dizendo com o tom com que anunciaria a aparição da Providência – castigadora e reparadora:

— Meu Senhor, é o sr. Neto!

CAPÍTULO IV

Neto entrou . Ao ver a mesa posta, com o grande empadão, o fiambre e Godofredo de guardanapo entalado no colarinho, e com a garrafa ao lado, Neto ficou junto da porta, com um ar de surpresa, o chapéu numa das mãos, a bengala na outra. Terminou pôr murmurar, com uma ponta de amargura:

— Está bem, vejo que não falta o apetite.

Godofredo erguera-se logo, tomara uma vela de cima do aparador, dirigira-se à sala de visitas. Mas Neto não consentiu.

— Não senhor, temos tempo de falar, acabe você de jantar...

Mas Alves depois de levar à boca uma colher de sopa repelira o prato, tocou a campainha ao lado. Neto no entanto pousava, vagarosamente, o seu chapéu, a sua bengala, numa cadeira – enchendo o silêncio que se fizera, com lentidão dos seus movimentos. Era um homenzarrão, que fora nos seus tempos belo homem, e conservava ainda um bom perfil, a que a extrema palidez dava uma finura e distinção. Sobre a calva tinha duas repas de cabelo, laboriosamente e singularmente arranjadas: o bigode grisalho parecia cortado rente, a direito, duma só tesourada: e os seus menores movimentos tinham tanto uma afetação de dignidade, e de seriedade, que mesmo, nesse momento, tirando devagar as luvas, parecia estar cumprindo um ato importante da vida oficial.

A criada no entanto trouxera o cozido: e, como ela se demorava em volta da mesa, retardando, arranjando, na esperança de ouvir uma palavra, Neto, com um ar de homem de sociedade, mostrou indiferença, um ar natural, dizendo que estava um calor de rachar.

— Muito calor – repetiu Godofredo, que, desde a entrada de Neto, recostado na cadeira, puxando a ponta do bigode, a outra mão no bolso, não levantara os olhos da borda da mesa. Pôr fim a criada saiu, com ordem de esperar pôr outro toque da campainha “para trazer o resto”. E logo Godofredo ergueu-se, a fechar a porta.

Então, Neto, vendo que podia falar livremente, sentou-se à borda duma cadeira, esteve um momento esfregando ambos os joelhos com ambas as mãos, e começou num tom lento, com palavras estudadas, de intenção eloqüente, para impressionar.

— Eu cumpri o meu dever de pai...

Esperou um momento, olhando o genro, uma interrupção, uma palavra. Godofredo servia-se de arroz. Neto continuou:

(continua...)

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