Por Adolfo Caminha (1896)
Evaristo ganhava pouco ainda, o essencial para se ir mantendo com alguma independência, sem dever a ninguém. Era inimigo de contrair dívidas; um alfinete, que comprasse, havia de ser pago logo, na ocasião mesma do negócio; por forma que o dinheiro do Banco, o ordenado, ia-se num abrir e fechar de olhos, para a mão do homem da venda e para o bolso do alfaiate. Ele próprio conservava a roupa que trouxera da província; não tinha luxo, nem jóias de valor. Afinal não passava — como dizia — de um pobretão mísero, empregado subalterno. D. Branca podia luxar, aparecer — não era admiração; o Luís ganhava tanto como oitocentos mil-réis, fora a renda das apólices que possuía no Tesouro e de umas açõezinhas do Banco Industrial. Onde, pois, a admiração? Nenhuma. Feria-lhe também o amor-próprio de marido extremoso ver Adelaide, a sua Adelaide, com os mesmos vestidos, com o mesmo chapéu, sem um brilhante, uma jóia de ouro, envergonhada no meio das outras. — Mas... que se havia de fazer? Por isso é que desejava ter uma casinha na Cidade Nova, "um albergue", de cinqüenta mil-réis, longe desse rumor de etiquetas e ostentações. Um dia pra diante, quando pudesse — muito bem! alugava um chalé em Botafogo e Adelaide não tinha de que baixar a cabeça às exigências do high-life. Por enquanto a palavra de ordem era — economia, muita economia!
De resto, o procedimento de Adelaide para com o esposo não mudara. Evaristo continuava sendo o mesmo Evaristo, bom e leal, por vezes de uma ternura lânguida, quase pueril, achando muita razão em tudo quanto ela dizia, tratando-se como noivos.
D. Branca estranhava que eles ainda não tivessem filho, ao menos um morgado para dar que fazer à mamãe...
E aconselhava banhos de mar no Flamengo: — por que não experimentavam os banhos de mar no Flamengo? Um filhinho era indispensável a um casal...
Evaristo ria e jurava, rindo, que no mês seguinte iam começar os banhos ali mesmo na praia de Botafogo.
A propósito de filhos, a mulher do secretário anunciou o batizado da Julínha no primeiro domingo de janeiro. Ia fazer uma festa sem cerimônia, entre pessoas de intimidade.
Evaristo recebeu a notícia com um — oh!... de surpresa. - Muito bem! muito bem! Era preciso batizar a menina... Ele, se tivesse filhos, batizava-os ao nascer. E com ironia:
— Temos, então, a princesa?
— Como, Sr. Evaristo?
— Digo: a princesa há de comparecer à festa.
— Qual o quê! Pensa o senhor que a princesa anda se exibindo assim?
— Pensei.
— Vai ser a madrinha de minha filha, por procuração; isso bem...
E Evaristo, sempre irônico:
— O imperador é o padrinho...
— Não senhor, não senhor... O padrinho é o Lousada, o velho Lousada. O imperador já é padrinho do Raul.
— Onde estamos nós metidos, Adelaide! exclamou o bacharel, arregalando os olhos. Tudo aqui é principesco, minha senhora!
D. Branca compreendeu o debique, mas atalhou risonha:
— Tudo aqui não é principesco, não senhor! Não queira fazer pouco...
— Eu, fazer pouco? Oh, não se lembre de tal coisa! Principesco é uma maneira de dizer.
— Ah! o senhor é republicano?
— Republicano não: democrata.
— Pois está muito bem arranjado com a sua democracia!
Furtado, que estava lendo o Comércio do Rio, saltou:
— Quem é democrata — o Evaristo?
— Eu, sim...
— Democrata enquanto não conheceres bem o Rio de Janeiro...
— Por quê?
— Ora, por quê! Porque o Rio de Janeiro em globo é monarquista e quem diz monarquista diz aristocrata.
— Não é razão. Se o Rio de Janeiro em globo (quero dizer o município neutro...) é monarquista, eu posso muito bem sair um republicano às direitas.
Furtado abriu numa gargalhada estridente.
— Aonde vens pregar essas teorias, meu caro? Na Corte do Império, e o que é mais, em Botafogo! Ilusões da academia, rapaz, ilusões de estudante de retórica!
— Não senhor, que o partido republicano está ganhando terreno aqui mesmo, na Corte, às barbas d'El-Rei! Fala-se na ida do velho à Europa; o velho está doido, já não pode governar, e o resultado é que...
— É que estás a dizer tolices... A monarquia está guardada por sentinelas da força do barão de Cotegipe, do visconde de Ouro Preto, do João Alfredo e de outros... Cada um desses homens é um obstáculo contra qualquer tentativa de assalto às instituições.
Chegou a vez do bacharel rir, mas rir com gosto, dando pulinhos na cadeira.
— O Cotegipe! (e ria). O Ouro Preto! (tornava a rir). O João Alfredo! No momento psicológico voam todos, como aves de arribação, para Petrópolis!
Desaparecem como por encanto, somem-se na noite do medo...
— É o que pensas. A opinião é deles, o povo não permitirá que eles sejam desacatados.
— O povo! — exclamou Evaristo com voz de trovão. — A que chamas tu povo?
— À população do Rio de Janeiro, à população do Brasil - a treze milhões de almas que adoram o imperador!
— O povo brasileiro não se envolve nisso, meu Furtado; se fôssemos esperar pelo povo, estávamos bem arranjados.
— E então?
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.