Por Aluísio Azevedo (1880)
Nas noites claras do estio, alguém que trepasse à penedia até galgar os alcantis aprumados e reluzentes, abrangeria, só com um abraço de olhos, a imensidade dos horizontes celestes e marinhos; e se, chegado à borda do abismo, se debruçasse um pouco sobre a ingremidade da rocha, julgar-se-ia solto no espaço, sem ligação alguma com este mundo e só preso a Deus pelo espírito.
Então sentiria debaixo dos pés os soluços espumosos das ondas, e sobre a cabeça a linguagem enérgica do nordeste, revelando à natureza adormecida os mistérios da criação dos mundos.
E o mugir dos ventos e o rugido colérico do mar lhe pareciam, nesse instante de transporte, o resumo supremo de todas as forças, de todas as paixões, de todas as virtudes, de todos os vícios, de todas as tempestades dos homens e todas as tempestades dos elementos; chegar-lhe-iam ao coração como o index fabuloso do universo.
Assim, medonho e belo, era o lado esquerdo da casinha branca, o que o tornava desprezado e quase ignorado, a não ser pelas gaivotas e outras aves aquáticas, que lá subiam nesses cumes, à procura do pouso e da solidão.
CAPÍTULO XII
Tinha começado o inverno e, apesar disso, a noite marcada para a entrevista dos dois amantes era tão serena, que faria chorar de inveja a vaidosa primavera.
Nem uma nuvem perturbava o aspecto ingênuo e puro do céu.
As oliveiras solitárias e esguias, como toda a vegetação de Lipari, em virtude da leveza da atmosfera, beijavam-se voluptuosamente, impelidas pela brisa fresca do mar, e projetavam no chão, contra a luz da lua, uma sombra de triplicado comprimento.
O vento estorcia-se, uivando como um doido de asas e redemoinhava em torno das oliveiras, cujas sombras desenhavam na aspereza do solo fantasmas singulares e monstros extravagantemente disformes.
Às vezes, o doido mudava de rumo e quebrava no ar o murmúrio das cantigas dos pescadores, que estendiam a rede do lado do poente.
E assim vagavam, soltas e desarticuladas no espaço, vozes confusas e disparatadas.
O mais dormia silenciosamente.
A casinha branca parecia, ao luar, embrulhada com frio, num lençol de linha alvo.
A lua aborrecia-se, coitada! no seu eterno isolamento!
CAPÍTULO XIII
Por volta das dez da noite, um barco costeava a ilha pelo lado da praia.
De vez em quando o vento, caprichoso e vadio, trazia de rastro alguns fragmentos de uma bela barcarola, que necessariamente vinha do barco. Eram as noites de uma chorosa rabeca, espécie de harmonia chorada, ou melhor, de pranto harmonioso. O certo é que, música ou pranto, doía à gente ouvir soluçar daquele modo. Se fosse possível fazer do coração um instrumento e tangê-lo, com certeza havia o som de ser o mesmo que então se ouvia.
O barco vinha-se aproximando lentamente da praia, e lentamente ia-se calando o instrumento; daí a pouco paravam ambos, e um vulto de homem, com ares de pescador, soltando o ferro, pojava na areia.
O barqueiro depositou a rabeca sobre um dos bancos de seu barco, conchegou melhor o capote de pescador e, dando alguns passos pela praia, encarou a silenciosa ladeira, frouxamente clareada pelo luar.
Miguel não faltara à entrevista, porém. Temendo vir pela estrada e ter que passar pela porta de Maffei, resolvera entrar pelo fundo, disfarçado em pescador; precauções necessárias para não ser descoberto pelo pai de Rosalina O mar sempre era mais seguro.
Posto em terra, atravessou o espaço, compreendido entre a água e a ladeira, e deitou a subir cautelosamente.
Subiu sempre até encontrar a primeira árvore; aí parou e ficou a escutar.
Era tudo absolutamente silencioso.
Miguel encostou-se ao tronco da árvore e esperou.
Sentia-se mal, o pobre moço! Desde que recebera o bilhete de Rosalina, meditava um meio de salvar a situação, e, por mais que desse voltas à cabeça, nada descobrira.
Agora, prestes a vê-la, encostado à oliveira, com o cotovelo direito na mão esquerda e com a outra escondendo o rosto, fazia castelos magníficos e desfaziaos, com a mesma facilidade. Imaginava as coisas mais absurdas, os projetos mais irrealizáveis.
Lembrava-se de raptar Rosalina, fugir com ela para qualquer parte; ou empregar-se em Rezina, como operário, e especular, como fizera Maffei; ou deixarse morrer; ou matá-la.
Enfim, mil outras idéias deste gênero encontravam-se, debatiam-se, a morderem-se sangrentas, no cérebro molesto do pobre rapaz, como, na mesma pátria, irmãos se devoram e matam em tempo de guerra intestina.
Assim permanecia ele estático, com o rosto escondido na mão esquerda, invejando interiormente a tranqüilidade feliz da natureza, que parecia adormecida a sonhar amores.
— A terra, essa boa mãe — pensava ele — também tem um coração: às vezes parece sofrer, porque geme; sentir alegrias, porque ri; amar, porque soluça; enfim, não podia deixar de ter um coração, porque é mãe.
CAPÍTULO XIV
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.