Por Franklin Távora (1878)
- Vós é que esqueceis, Sr. Coelho, o passado que devíeis ter bem presente na memória. A meu marido deveis, não a desgraça, mas a posição de que soubestes fazer-vos digno. Sua mão generosa e amiga indicou-vos o caminho para a vossa independência. Por muito tempo não tivestes nesta vila outra proteção, outro amparo, outro pai além de João da Cunha. A vossa entrada nas primeiras casas, a estima que para vós tiveram os mais ricos e os mais nobres de Goiana, a quem as devestes principalmente, Sr. Coelho, quando éreis sem relações, sem nome, e sem haveres? Não vos lembro estas causas por magoar-vos, mas por ver se desperto em vosso coração o nobre sentimento que sempre conheci em vós antes do fatal desastre que levantou uma muralha entre vós e meu marido – o sentimento da gratidão.
- Sra. d. Damiana, vossas palavras trazem-me terror e confusão, disse o jovem europeu, a modo de atordoado.
Seu espirito nadava em um mar de hesitações.
- Que esse sentimento acorde enfim, senhor. É talvez tempo ainda de produzir sua ação consoladora. Não vos importeis comigo, importai-vos com o homem que um dia vos tratou como se fosseis seu filho. Correi e livrai-o do furor dos vossos parciais. Porque tanto ódio? Porque tanta vingança?
Não pode continuar este singular dialogo, que prometia chegar a um desenlace talvez patético e imprevisto. Bem perto dos dois interlocutores soaram vozes confusas e retintim de armas. O chão estremeceu, batido por um semnúmero de pés que precipitada carreira movia em direitura ao rio.
Afigurou-se então aos fugitivos uma visão sinistra, um desfecho medonho.
- É o povo que vem em vossa procura, Sra. d. Damiana. não percamos um só momento. Salvai-vos, senhora, salvai-vos enquanto é tempo.
Eles tinham chegado ao pé de uma das arvores que da margem estendiam sua grande copa sobre o rio. Perto desta arvore levantava-se um armazém, feito de tábuas, onde se fazia o embarque dos açúcares, e o desembarque dos gêneros importados pelas barcaças, quando a maré estava cheia e elas podiam ficar ao nível da estiva do armazém, do lado que entrava pelo rio sobre solidas estacas. Nesse momento a maré cheia dava ao rio a sua natural plenitude, e a Borboleta, livrando-se sobre as águas banzeiras que acusavam a aproximação da preamar, estava em comunicação com o tosco trapiche por meio de uma prancha que para ele partia do embono de bombordo. Coelho, sem perder mais um instante, arrastou d. Damiana contra a vontade dela para dentro do armazém, e, todo preocupações e temores pela sua salvação, indicou-lhe a Borboleta, que aparecia no fim da estiva. - Correi, senhora, entrai na barcaça, mandai atirar dentro da água a prancha, e ordenai, em meu nome, que sigam incontinenti rio abaixo. Nada temais, que eles daqui não hão de passar. Contê-los-hei.
Disse, e retrocedeu acesso em brio, mas pálido como um cadáver. Seu olhas fuzilava. Os músculos, obedecendo às impressões nervosas, experimentavam súbitos estremecimentos. A terra parecia fugir-lhe sob os pés, ao mesmo tempo pesados e céleres. - Meus amigos – gritou ele, alguns passos distante do trapiche, dirigindo-se ao magote que vinha para seu lado, até onde quereis levar o vosso desforço? A lição satisfaz. A nobreza está vencida em Goiana. tratemos agora de ir vencê-la no seu reduto principal – em Olinda. Não percamos tempo.
- Então, do bando que corria com as armas nuas reluzindo ao sol, um grito partiu, e não foi preciso mais, ouvindo-o, para que o chefe dos mascates compreendesse que se enganara e que seus dias, esses, sim, estavam contados. Ainda falas, mascate infame?!
Seguiu-se uma cena, só própria de canibais, mas que os excessos das paixões humanas estão reproduzindo todos os dias, ainda nos centros da mais adiantada civilização. Vários soldados da tropa que chegara, e que se haviam reunido aos fidalgos e a Francisco, ao saberem que eles vinham em demanda do negociante, de catanas desembainhadas se atiram sobre ele e covardemente o degolam.
Ao darem de face com este repugnante espetáculo, os fidalgos estacam horrorizados. Só um deles, a cabo de um momento de confusão, que se diria antes remorso, pode proferir estas palavras:
- E minha mulher? Onde está ela? Onde está a senhora d. Damiana?
Na Borboleta – lembrou Luiz Vidal. Corramos. Mas eis que perto deles soa um grito, que não só traz a tranqüilidade, mas descomunal prazer ao espirito de todos.
- Aqui estou, minha gente. E vós salvo, Sr. João da Cunha! Foi Nossa-Senhora-do-rosario quem vos salvou. Os fidalgos apertaram em seus braços a senhora-de-engenho, a cujo encontro fora Francisco o primeiro que correra.
- Em poucas horas tudo estará acabado e pacificado – exclamou o sargento-mór. Os mascates serão vencidos, os populares hão de ter uma rude lição.
- E até os frades também hão de ter a sua, para não serem tão audazes e metidos nas coisas do mundo – acrescentou Luiz Vidal. E Antonio Coelho? interrogou d. Damiana, que ainda ignorava o trágico fim do negociante. Deste estamos livres. Hei-lo ali morto, degolado – respondeu o sargento-mór, apontando para o cadáver que a poucos passos se mostrava rodeado pela mó de soldados, agora ocupados em apanhar o ouro, que, na ocasião de cair, se lhe entornara das algibeiras.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.