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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


Na Bahia há muitas castas de abelhas. Primeiramente, há umas a que o gentio chama heru, que são grandes e pardas; estas fazem o ninho no ar, por amor das cobras, como os pássaros de que dissemos atrás; onde fazem seu favo e criam mel muito bom e alvo, que lhes os índios tiram com fogo, do que elas fogem muito; as quais mordem valentemente.Há outra casta de abelhas, a que os índios chamam tapiú-ja, que também são grandes, e criam em ninhos que fazem nas pontas dos ramos das árvores com barro, cuja abóbada é tão sutil que não é mais grossa que papel. Estas abelheiras crestam também com fogo, a quem os índios comem as crianças, e elas mordem muito.Há outra casta de abelhas, maiores que as da Espanha, a que os índios chamam taturama; estas criam nas árvores altas, fazendo seu ninho de barro ao longo do tronco delas, e dentro criam seu mel em favos, o qual é baço, e elas são pretas e mui cruéis.Há outra casta de abelhas, a que o gentio chama cabecé, que mordem muito, que também fazem o ninho em árvores, onde criam mel muito alvo e bom; as quais são louras, e mordem muito.Há outra casta de abelhas, a que os índios chamam caapoã, que são pequenas, e mordem muito a quem lhes vai bulir no seu ninho, que fazem no chão, de barro sobre um torrão; o qual é redondo do tamanho de uma panela, e tem serventia ao longo do chão, onde criam seu mel, que não é bom.Cabatãs são outras abelhas que não são grandes, que fazem seu ninho no ar, dependurado por um fio, que desce da ponta de um raminho; e são tão bravas que, em sentindo gente, remetem logo aos beiços, olhos e orelhas, onde mordem cruelmente; e nestes ninhos armam seus favos, onde criam mel branco e bom. Saracoma são outras abelhas pequenas que fazem seu gasa-Ihado entre folhas das árvores, onde não criam mais que sete ou oito juntas; e fazem ali seu favo, em que criam mel muito bom e alvo; estas mordem rijamente, e dobram umas folhas sobre outras, que tecem com uns fios como aranhas, onde têm os favos.Há outra casta de abelhas, a que o gentio chama cabaojuba, que são amarelas, e criam nas tocas das árvores, e são mais cruéis que todas; e em sentindo gente remetem logo a ela; e convém levar aparelho de fogo prestes, com o qual lhes tiram os favos cheios de mel muito bom.Capueruçu é outra casta de abelhas grandes; criam seus favos em ninhos, que fazem no mais alto das árvores, do tamanho de uma panela, os quais são de barro; os índios os crestam com fogo, e lhes comem os filhos, que lhes acham; as quais também mordem onde chegam e quem lhes vai bolir.


C A P Í T U L O XCII
Que trata das vespas e moscas.


Criam-se na Bahia muitas vespas, que mordem muito; em especial umas, a que chamam os índios teringoá, que se criam em ramos de árvores poucas juntas, e cobrem-se com uma capa que parece teia de aranha, de onde fazem seu ofício em sentindo gente.Amisagoa é outra casta de vespas, que são à maneira de moscas, que se criam em um ninho, que fazem nas paredes, e nas barreiras da terra, tamanhos como uma castanha, com um olho no meio, por onde entram, o qual ninho é de barro, e elas mordem a quem lhes vai bulir nele.E porque as moscas se não queixem, convém que digamos de sua pouca virtude; e comecemos nas que se chamam mutuca, que são as moscas gerais e enfadonhas que há na Espanha; as quais adivinham a chuva, começando a morder onde chegam, de maneira que, se se sente sua picada, é que há boa novidade.Há outra casta de moscas, a que os índios chamam muruanha que são mais miúdas que as de cima e azuladas; estas seguem sempre os cães e comem-lhes as orelhas; e se tocam em chaga ou sangue, logo lançam varejas. Merus são outras moscas grandes e azuladas que mordem muito onde chegam, tanto que por cima de rede passam o gibão a quem está lançado nela, e logo fazem arrebentar o sangue pela mordedura; aconteceu muitas vezes porem elas varejas a homens que estavam dormindo, nas orelhas, nas ventas e no céu da boca, e lavrarem de feição por dentro as varejas, sem se saber o que eram, que morreram alguns disso.Também há outras como as de cavalo, mas mais pequenas e muito negras, que também mordem onde chegam.


C A P Í T U L O XCIII
Que trata dos mosquitos, grilos, besouros e brocas que há na Bahia.


Digamos logo dos mosquitos, a que chamam nhitinga; e são muito pequenos e da feição das moscas; os quais não mordem, mas são muito enfadonhos, porque se põem nos olhos, nos narizes; e não deixam dormir de dia no campo, se não faz vento. Estes são amigos de chagas, e chupam-lhe a peçonha que têm; e se se vão pôr em qualquer coçadura de pessoa sã, deixam-lhe a peçonha nela, do que se vêm muitas pessoas a encher de boubas. Estes mosquitos seguem sempre em bandos as índias, que andam nuas, mormente quando andam sujas do seu costume.Marguis são uns mosquitos que se criam ao longo do salgado, e outros na terra perto da água, e aparecem quando não há vento; e são tamanhos como um pontinho de pena, os quais onde chegam são fogo de tamanha comichão e ardor que fazem perder a paciência, mormente quando as águas são vivas; e crescem em partes despovoadas; e se lhes põem a mão, desfazem-se logo em pó.Há outra casta, que se cria entre os mangues, a que os índios chamam inhatium, que tem as pernas compridas, e zunem de noite, e mordem a quem anda onde os há, que é ao longo do mar; mas se faz vento não aparece nenhum.Pium é outra casta de mosquitos tamanhos como pulgas grandes com asas; e em chegando estes à carne, logo sangram sem se sentir, e em lhes tocando com a mão, se esborracham; os quais estão cheios de sangue; cuja mordedura causa muita comichão depois, e quer-se espremida do sangue por não fazer guadelhão na carne. Há outra casta de mosquitos, a que os índios chamam nhatium-açu; estes são de pernas compridas, e mordem e zunem pontualmente como os que há na Espanha, que entram nas casas onde há fogo; e de que todos são inimigos.Também se cria na Bahia outra imundície, a que chamamos brocas, que são como pulgas, e voam sem lhe enxergarem as asas; as quais furam as pipas do vinho e do vinagre, de maneira que fazem muita perda, se as não vigiam; e furam todas as pipas e barris vazios, salvo se tiveram azeite; e nas terras povoadas de pouco fazem mui dano.Há também grande cópia de grilos na Bahia, que se criam pelo mato e campos; que andam em bandos, como gafanhotos; e se criam também nas casas de palha, enquanto são novas, nas quais se recolhem muitos entre a palma que vem do mato; os quais são muito daninhos, porque roem muito os vestidos a que podem chegar; e metem-se muitas vezes nas caixas, onde fazem destruição no fato que acham no chão, o qual cortam de maneira que parece cortado a tesoura; mas como as casas são defumadas recolhem-se todos para o mato; estes são grandes e pequenos e têm asinhas; e saltam como gafanhotos.Também se criam nestas partes muitos besouros, a que os índios chamam unaúna; mas não fazem tão ruim feitio com as maçãs que fazem os da Espanha; andam por lugares sujos, têm asas, e são negros; com a cabeça, pescoço e pernas muito resplandecentes, e tudo muito duro, mas são muito maiores que os da Espanha; e têm dois cornos virados com as pontas uns para os outros; e parecem de azeviche.


C A P Í T U L O XCIV
Em que se declara a natureza das antas do Brasil.

(continua...)

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