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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Aí, considerando ao espelho a face requeimada, sorri gloriosamente e pensei: - "Ah Teodorico, venceste!"

Sim, vencera! Como a Titi me tinha acolhido! Com que veneração! Com que devoção!... - E ia mal, ia mal!... Bem depressa eu sentiria, com o coração sufocado de gozo, as marteladas sobre o seu caixão. E nada podia desalojar-me do testamento da senhora Dona Patrocínio! Eu tornara-me para ela São Teodorico! A hedionda velha estava enfim convencida que deixar-me o seu ouro - era como doá-lo a Jesus e aos apóstolos e a toda a Santa Madre Igreja!

Mas a porta rangeu - a Titi entrou, com o seu antigo xale de Tonquim pelos ombros. E, caso estranho, pareceu-me ser a D. Patrocínio das Neves de outro tempo, hirta, agreste, esverdeada, odiando o amor como cousa suja, e sacudindo de si para sempre os homens que se tinham metido com saias! Com efeito! Os seus óculos, outra vez secos, reluziam, cravavam-se desconfiadamente na minha mala... Justos céus! Era a antiga Dona Patrocínio. Lá vinham as suas lívidas, aduncas mãos, cruzadas sobre o xale, arrepanhando-lhe as franjas, sôfregas de esquadrinhar a minha roupa branca! Lá se cavava aos cantos dos seus lábios sumidos, um rígido sulco de azedume!... Tremi; mas visitou-me logo uma inspiração do Senhor. Diante da mala, abri os braços, com candura:

- Pois é verdade!... Aqui tem a Titi a maleta que lá andou por Jerusalém... Aqui está, bem aberta, para todo o mundo ver que é a mala de um homem de religião! Que é o que dizia o meu amigo alemão, pessoa que sabia tudo: "lá isso, Raposo, meu santinho, quando numa viagem se pecou, e se fizeram relaxações, e se andou atrás de saias, trazem-se sempre provas na mala. Por mais que se escondam, que se deitem fora, sempre lá esquece cousa que cheire a pecado!..." Assim mo disse muitas vezes, até uma ocasião diante de um patriarca... E o patriarca aprovou. Por isso, eu cá, é malinha aberta, sem receio... Pode-se esquadrinhar, pode-se cheirar... A que cheira é a religião! Olhe, Titi, olhe... Aqui estão as ceroulinhas e as peuguinhas. Isso não pode deixar de ser, porque é pecado andar nu... Mas o resto, tudo santo! O meu rosário, o livrinho de missa, os bentinhos, tudo do melhor, tudo do Santo Sepulcro...

- Tens ali uns embrulhos! - rosnou a asquerosa senhora, estendendo um grande dedo descarnado.

Abri-os logo, com alacridade. Eram dous frascos lacrados de água do Jordão! E muito sério, muito digno, fiquei diante da senhora Dona Patrocínio com uma garrafinha do líquido divino na palma de cada mão... Então ela, com os óculos de novo embaciados, beijou penitentemente os frascos; uma pouca da baba do beijo escorreu nas minhas unhas. Depois, à porta, suspirando, já rendida:

- Olha, filho, até estou a tremer... E é destes gostinhos todos! Saiu. Eu fiquei coçando o queixo. Sim ainda havia uma circunstância que me escorraçaria do testamento da Titi! Seria aparecer diante dela, material e tangível, uma evidência das minhas relaxações... Mas como surgiria ela jamais neste lógico universo? Todas as passadas fragilidades da minha carne eram como os fumos esparsos de uma fogueira apagada, que nenhum esforço pode novamente condensar. E o meu derradeiro pecado - saboreado tão longe, no velho Egito, como chegaria jamais à notícia da Titi? Nenhuma combinação humana lograria trazer, ao Campo de Santana, as duas únicas testemunhas dele - uma luveira ocupada agora a encostar as papoulas do seu chapéu aos granitos de Ramsés, em Tebas, e um doutor encafuado numa rua escolástica, à sombra de uma vetusta universidade da Alemanha, escarafunchando o cisco histórico dos Herodes... E, a não ser essa flor de deboche e essa coluna de ciência, ninguém mais na terra conhecia os meus culpados delírios, na cidade amorosa dos Lágidas.

Demais, o terrível documento da minha junção com a sórdida Mary; a camisa de dormir aromatizada de violeta lá cobria agora em Sião uma lânguida cinta de circassiana ou os seios cor de bronze de unia núbia de Cóscoro; a comprometedora oferta "ao meu portuguesinho valente" fora despregada, queimada no braseiro; já as rendas se iriam esgarçando no serviço forte do amor; e rota, suja, gasta, ela bem depressa seria arremessada ao lixo secular de Jerusalém! Sim, nada se poderia interpor, entre a minha justa sofreguidão e a bolsa verde da Titi. Nada, a não ser a carne mesma da velha, a sua carcaça rangente, habitada por uma teimosa chama vital, que se não quisesse extinguir!... Oh fado horrível! Se a Titi obstinada, renitente, vivesse ainda quando abrissem os cravos do outro ano! E então não me contive. Atirei a alma para as alturas, gritei desesperadamente, em toda a ânsia do meu desejo:

- Oh Santa Virgem Maria, faze que ela rebente depressa!

(continua...)

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