Por Inglês de Sousa (1891)
— Pois eu, tornou o professor Aníbal, como ouvi dizer que ele morrera de paixão por não casar com uma sobrinha do Neves Barriga, fiquei com pena e arranjei uma nênia para o caso. Não é lá coisa como de Lamartine ou de Casimiro de Abreu, porque eu não sei fazer versos e nunca fui poeta. Mas por pena do pobre do Totônio labutei toda a noite e compus a nênia...
Aníbal Brasileiro concertou os óculos, cuspiu, e meteu a mão no bolso da sobrecasaca para tirar alguma coisa, dizendo:
— Trago-a aqui para ler no cemitério. Intitula-se: Morto por amor!
— E o senhor a dar-lhe! exclamou o Regalado impaciente, levantando a voz para ser ouvido do Bernardino Santana que vinha nessa ocasião do interior da casa, trazendo um mocho de pau e dois grandes castiçais com velas de cera. Já lhe disse ao senhor professor, que o rapaz não morreu de amor, mas duma galopante.
— É o mesmo, murmurou desapontado o Aníbal, deixando a nênia no bolso e afastando-se para o lado do vereador João Carlos.
Então o Costa e Silva quis saber do sacristão se o enterro seria acompanhado pela irmandade do Santíssimo.
— Sem dúvida, respondeu Macário, alisando o cordão da opa.
O Bernardino Santana é irmão do Santíssimo. A irmandade aí vem toda com o Chico Fidêncio à frente. O Chico Fidêncio é quem traz o pendão. O Regalado, admirado, exclamou:
— O pândego do Chico Fidêncio de pendão em punho!
E sorriu, pasmado.
Mas nem o Costa e Silva nem o Mapa-Múndi o acompanharam na surpresa. Nada mais natural! O Chico Fidêncio era maçom, inimigo dos jesuítas, mas não era contrário à verdadeira religião!
Macário ponderou, convicto:
— O professor não é tão ateu, como geralmente se diz... Ele lá tem a sua história de não querer saber de padres, mas acredita na religião, e é boa pessoa.
— Isso na sua boca, senhor Macário, aplaudiu o Costa e Silva agradecido, é um bonito elogio.
Macário confessou então que andava enganado com o Chico Fidêncio por causa daquelas histórias do defunto padre José, que Deus houvesse. Agora o desejo dele Macário, que tinha sobre os seus débeis ombros o encargo espiritual de Silves enquanto o senhor bispo não mandava outro vigário - era restabelecer a harmonia, a paz na sociedade de Silves. Para isso empregaria todos os esforços e sacrifícios. Felizmente as coisas iam bem encaminhadas porque o Chico Fidêncio também agora confessava que se enganara com o santo padre Antônio.
— Macário enxugou uma lágrima - e com o sacristão, ao qual fizera muitas injustiças.
O Costa e Silva e o Mapa-Múndi apoiaram as palavras do sacristão com sinais de deferência. O perfume sutil da lisonja entontecia o sacristão, dando-lhe vertigens. A casa parecia andar à roda. Na claridade baça da sala, pontos negros espalhavam-se. Macário naquele lugar, naquela ocasião, era incontestavelmente a primeira pessoa.
Ia ficando tarde. A irmandade do Santíssimo chegara, de opa encarnada e tocha na mão e rodeava o cadáver.
— Ora até que enfim! suspirou o Bernardino Santana, vendo chegar o capitão Mendes da Fonseca, o último que faltava. O coletor vinha esbaforido, suado, de chapéu alto - o único - e guarda-sol debaixo do braço. E logo à entrada da sala teve uma ligeira altercação com o Dr. Natividade, que cresceu para ele:
— Ora diga-me, senhor capitão, que história de chapéu-de-sol é uma? Fique V. S.a sabendo, senhor capitão, que graças a Deus, eu não preciso de ficar com os chapéus-de-sol dos outros. Graças a Deus, eu não preciso! exclamou, voltando-se para o Macário, que se aproximava para os harmonizar.
O capitão mastigara uma desculpa. Eram coisas de senhoras. Não fora ele, fora a senhora D. Cirila que teimara que o chapéu-de-sol estava na casa do juiz municipal - mas não era verdade. O chapéu estava com o João Carlos.
— Ora muito bem, peço a V. S.a que para outra vez não repita a graça. Graças a Deus, não estou acostumado a receber desfeitas, e não preciso ficar com o que é dos outros. O governo ainda me paga para comprar um chapéu-de-sol. Sou pobre, é verdade, sou de família obscura, mas graças a Deus, sempre gozei em Pernambuco da maior consideração. Nunca ninguém pôs em dúvida o meu caráter.
E o Dr. Natividade, nervoso e impressionado, tirou o lencinho da algibeira do fraque e enxugou o rosto e as mãos. Depois tirou o pincenê e pôs-se a limpar-lhe os vidros com o lenço, murmurando:
— Graças a Deus, é a primeira vez que isto me acontece. Mas o Bernardino chegava carregando a tampa do caixão mortuário. João Carlos ajudou-o a encaixála nos machos, e os preparativos para a saída começaram.
Nessa ocasião o professor Aníbal Americano aproximou-se do capitão Fonseca e perguntou-lhe baixinho:
— Devo ler agora a nênia, ou deixo-a para o cemitério?
— Que nênia, seu Aníbal?
— Uma nênia que fiz pela morte do Totônio. Não é obra-prima, mas fiz o que pude.
— Acho melhor no cemitério, opinou o Fonseca. É mais solene.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.