Por Franklin Távora (1878)
Cortando pelas ruas exteriores, dando rodeios, atravessando becos desertos, Coelho chegou com a senhora-deengenho ao embarcadouro. A Borboleta era a única embarcação surta no rio.
Como a revolta se concentrara, deste lado a vila aparecia quase deserta. O dia estava em seu começo, mas assim as casas de morada como as de negocio mostravam-se fechadas; e só por intervalos passavam pela frente delas os magotes que andavam exercitando o ignóbil oficio da rapina. Vamos embarcar, senhora – disse Coelho, descendo a margem, onde então se viam grandes mangues de basta e estendida folhagem.
- Embarcar? inquiriu a senhora-de-engenho, não sem surpresa. Embarcar para onde, Sr. Coelho?
- Senhora, o momento é grave, e não me dá lugar a refletir sobre a escolha do porto de salvamento. Correremos á mercê das águas e dos ventos, e, uma vez longe dos perigos que vos ameaçam, pensaremos então com serenidade sobre esse objeto.
- Que estais dizendo? tornou d. Damiana, mais pálida, e porventura mais abalada do que estava antes.
Talvez só nesse momento a sua desgraça se lhe desenhou tal qual era na imaginação, até então tolhida e obscurecida pelo terror que, por mais próximo da morte, devera ser maior e mais intenso.
- Tencionais então levar-me para fora de Goiana? perguntou ela, com tremula e quase chorosa voz.
- Certamente, minha senhora, certamente. Goiana neste momento tem para vós sentimentos de madrasta, não de mãe. Não ouvis aqueles tiros, aqueles ruídos sinistros, aquele vozear confuso e medonho? Eles indicam que o povo é o triunfador, que os mascates estão senhores da vila...
- Já sei, já sei tudo isto – interrompeu ela freneticamente.
- Pois bem. O povo é exigente, e vinga-se neste momento dos nobres. Vosso marido, senhora minha, deve já ter acabado às mãos dos populares. Pois se ele acabou, acabarei tantém eu – disse a senhor-de-engenho soluçando.
- Não, isso nunca. Já não pertenceis nem a vós, nem a ele, observou Coelho.
- E a quem pertenço então? perguntou ela com altivez.
- O destino confiou a mim a vossa guarda, e hei de salvar-vos, ainda que a troco do meu sangue.
Sem meu marido, senhor, não quero a vida. Senhora d. Damiana! exclamou Coelho com entranhável amargura que lhe estalara nos lábios como se fora vesícula de fel.
É o que vos digo, Sr. Coelho – repetiu a gentil senhora com a firmeza que indica as profundas convicções. Só agora, continuou ela, só agora compreendo todo o horror da minha situação. Porque fugi eu? Porque não me deixei matar pelo povo, ao lado de meu marido?
- Porque a sorte tinha já assentado que vós devíeis sobreviver a ele, talvez para completar uma existência que vegeta entre as luzes e as sombras do mundo, sem experimentar outras impressões que não sejam as que as sombras, não as luzes, despertam – respondeu o jovem negociante em tom sentido. Mas para que falais ainda – continuou logo, como quem se reanimava ao calor de uma inspiração súbita – para que falais ainda em – uma existência que já deve pertencer ao passado? A esta hora, senhora minha, deveis estar viuva, isto é, livre.
- Sois cruel, Sr. Coelho! – retorquiu com voz amargurada a mulher do sargento-mór. Porque trazeis ao meu espirito este fúnebre pensamento? Houve um momento na minha vida em que cheguei a supor que em vosso coração existia um sentimento fidalgo.
- Que quereis dizer, Sra. d. Damiana? interrogou o negociante.
Que pensei que, não obstante o rancor que tendes ao Sr. João da Cunha, e que vós explicais atribuindo-o à contrariedade de certo afeto que vos inspirei, não hesitaríeis um só momento em salvardes do acabamento o objeto desse rancor, se a salvação dependesse de vós e eu vo-la lembrasse com as lagrimas nos olhos, como agora faço. Vejo, porém, Sr. Coelho, que o vosso ódio é maior do que o vosso amor, e que só a minha desgraça, esta sim não tem medida nem limite na terra.
- Pensáveis então, senhora... – retrucou o português – Que pensáveis vós? Dizei francamente a vossa idéia. - Ah! Quereis ouvir-me? Pois bem, senhor, escutai. O que eu pensava era muito natural, e não era impróprio de vós nem de mim. Pensava que, em vez dos sentimentos ferozes que tendes mais de uma vez manifestado, deveríeis ter para meu marido antes benevolência e atenções respeitosas.
- Esqueceis, Sra. d. Damiana, que nenhum homem que se prezasse dignamente, beijaria jamais a mão do algoz que lhe houvesse afogado as mais caras esperanças, que lhe tivesse destruído uma felicidade irreparável.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.