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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


Nhapupé é uma ave do tamanho de uma franga, de cor aleo-nada, tem os pés como galinha, a qual anda sempre pelo chão, onde cria e põe muitos ovos de fina côr aleonada, cuja carne é dura, e come-se cozida. Saracura é uma ave tamanha como galinha, de cor aleonada, que tem as pernas muito compridas e o pescoço e bico comprido; cria no chão, onde chega a maré de águas vivas, que se mistura com água doce; as quais não andam pelo salgado, nem pelo mato grande, mas ao longo deles; de noite, cacareja como perdiz; e tem o peito cheio de titelas tenras, e a mais carne é boa também.Urus são umas aves tamanhas como papagaios, de cor preta e o bico revolto; criam em árvores altas, e quando têm filhos nos ninhos, remetem aos índios que lhos querem tomar. Estas aves têm grande peito cheio de titelas, as quais e a mais carne são muito tenras e saborosas como galinha.Anu é outra ave preta, do tamanho e feição de gralha; e andam sempre em bandos, voando de árvore em árvore ao longo do chão; criam em árvores baixas em ninhos, e mantêm-se de uma baga preta como murtinhos, e de outras frutinhas que buscam.Maguari é outra ave de cor branca, que faz tamanho vulto como uma garça, e tem as pernas e pés mais compridos que as garças, e o pescoço tão longo que quando voa o faz em voltas; e tem o bico curto e o peito muito agudo, e nenhuma carne, porque tudo é pena; e voa muito ao longe, e corre pelo chão por entre o mato, que faz espanto.Aracuã é outro pássaro tamanho como um frangão, de côr parda; tem as pernas como de frangões, mas os dedos muito compridos e o rabo longo; e tem duas goelas, ambas por uma banda, que leva ao longo do peito até abaixo, onde se juntam; criam-se estas aves em árvores, e comem fruta delas.Sabiá-unas são uns passarinhos pretos que andam sempre entre arvoredo; comem frutas e bichinhos, criam nas árvores em ninhos de palha.Atiaçu é um pássaro tamanho como um estorninho, tem as costas pardas, o peito e a barriga branca, o rabo comprido, as pernas verdoengas, os olhos vermelhos; criam em árvores, comem o fruto delas, e cantam em assobios.Há uns passarinhos pequenos, todos pretos, a que os índios chamam timuna, que criam em ninhos de palha; mantêm-se de frutas e minhocas.Uanandi é um pássaro pequeno, pardo, pintado de preto pelas costas e branco na barriga; e tem o bico curto, e cria em ninhos de palha que faz nas árvores.Há outros pássaros, a que o gentio chama uapicu, tamanhos como tordos, têm o corpo preto e as asas pintadas de branco, e o bico comprido, tão duro e agudo que fura com ele as árvores que têm abelheiras, até que chega ao mel, de que se mantém; e quando dão as picadas no pau, soa a pancada a oitenta passos e mais; os quais pássaros têm na cabeça um cocuruto vermelho e alevantado, e criam nas tocas das árvores.


C A P Í T U L O XC
Que trata de alguns bichos menores que têm asas e têm alguma semelhança de aves.


Como foi forçado dizer-se de todas as aves como fica dito, convém que junto delas se diga de outros bichos que têm asas e mais aparência de aves que de alimárias, ainda que sejam imundícies, e pouco proveitosas ao serviço dos homens.Comecemos logo dos gafanhotos, a que o gentio chama tacura, os quais se criam na Bahia muito grandes, e andam muitas vezes em bandos, os quais são da cor dos que há na Espanha, e há outros pintados, outros verdes e de diferentes cores, e têm maiores asas que os da Espanha, e quando voam abrem-nas como pássaros e não são muito daninhos.Há outros bichos, a que os índios chamam tacuranda, e em Portugal saudes, os quais são muito formosos, pintados e grandes, mas não fazem mal a nada.Nas tocas das árvores se criam uns bichinhos como formigas, com asas brancas, que não saem do ninho senão depois que chove muito, e o primeiro dia de sol, a que os índios chamam arará; e quando saem fora é voando; e sai tanta multidão que cobre o ar, e não torna ao lugar donde saiu, e perde-se com o vento.As borboletas a que chamam mariposa, chamam os índios sarará; as quais andam de noite de redor das candeias, maior-mente em casas palhoças do mato, e em noites de escuro, e são tão perluxas às vezes que não há quem se valha com elas, porque se vêm ao rosto e dão enfadamento às ceias, porque se põem no comer, e não deixam as candeias dar seu lume, o que acontece em povoado.Há outra casta de borboletas grandes, umas brancas e outras amarelas, e outras pintadas, muito formosas à vista, a que os índios chamam panamá, as quais vêm às vezes de passagem no verão em tanta multidão, que cobrem o ar, e põem logo todo um dia em passar por cima da cidade do Salvador à outra banda da Bahia, que são nove ou dez léguas de passagem. Estas borboletas fazem muito dano nos algodões quando estão em flor.


C A P Í T U L O XCI
Em que se conta a propriedade das abelhas da Bahia.

(continua...)

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