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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Eu sorria, humilde. E cada vez que a considerava de soslaio, ela me parecia outra Patrocínio das Neves. Os seus fundos óculos negros, que outrora reluziam tão asperamente, conservavam um contínuo embaciamento de ternura úmida. Na voz, que perdera a rispidez silvante, errava, amolecendo-a, um suspiro acariciador e fanhoso. Emagrecera; mas nos seus secos ossos parecia correr enfim um calor de medula humana! Eu pensava - "Ainda a hei de pôr como um veludo." E, sem moderação, prodigalizava as provas da minha intimidade com o céu.

Dizia: - "Uma tarde, no Monte das Oliveiras, estando a rezar, passou de repente um anjo..." Dizia: - "Tirei-me dos meus cuidados, fui ao túmulo de Nosso Senhor, abri a tampa, gritei para dentro..."

Ela pendia a cabeça, esmagada, ante estes privilégios prodigiosos, só comparáveis aos de Santo Antão ou de São Brás.

Depois enumerava as minhas tremendas rezas, os meus terríficos jejuns. Em Nazaré, ao pé da fonte onde Nossa Senhora enchia o cântaro, rezara mil ave-marias, de joelhos à chuva... No deserto, onde vivera São João, sustentara-me como ele de gafanhotos...

E a Titi, com baba no queixo:

- Ai que ternura, ai que ternura, os gafanhotinhos!... E que gosto para o nosso rico São João!... Como ele havia de ficar! E olha, filho, não te fizeram mal?

- Se até engordei, Titi! Nada, era o que eu dizia ao meu amigo alemão: "Já que a gente veio a uma pechincha destas, é aproveitar, e salvar a nossa alminha..."

Ela virava-se para a Vicência - que sorria, pasmada, no seu pouso tradicional entre as duas janelas, sob o retrato de Pio IX e o velho óculo do Comendador G. Godinho:

- Ai Vicência, que ele vem cheinho de virtude! Ai que vem mesmo atochadinho dela!

- Parece-me que Nosso Senhor Jesus Cristo não ficou descontente comigo! - murmurava eu, estendendo a colher para o doce de marmelo.

E todos os meus movimentos (até o lamber da calda) os contemplava a odiosa senhora, venerandamente, como preciosas ações de santidade.

Depois, com um suspiro:

- E outra cousa, filho... Trazes de lá algumas orações, das boas, das que te ensinassem por lá os patriarcas, os fradezinhos?...

- Trago-as de chupeta, Titi!

E numerosas, copiadas das carteiras dos santos, eficazes para todos os achaques! Tinha-as para tosses; para quando os gavetões das cômodas emperram, para vésperas de loteria...

- E terás alguma para cãibras? Que eu às vezes, de noite, filho...

- Trago uma que não falha em cãibras. Deu-ma um monge meu amigo a quem costuma aparecer o Menino Jesus...

Disse - e acendi um cigarro.

Nunca eu ousara fumar diante da Titi! Ela detestara sempre o tabaco, mais que nenhuma outra emanação do pecado. Mas agora arrastou gulosamente a sua cadeira para mim - como para um milagroso cofre, repleto dessas rezas que dominam a hostilidade das cousas, vencem toda a enfermidade, eternizam as velhas sobre a terra.

- Hás de ma dar, filho... E uma caridade que fazes!

- Oh, Titi, ora essa! - Todas! E diga, diga lá... Como vai a Titi dos seus padecimentos?

Ela deu um ai, de infinito desalento. Ia mal, ia mal... Cada dia se sentia mais fraca, como se se fosse a desfazer... Enfim, já não morria sem aquele gostinho de me ter mandado a Jerusalém visitar o Senhor; e esperava que ele lho levasse em conta, e as despesas que fizera, e o que lhe custara a separação... Mas ia mal, ia mal!

Eu desviara a face a esconder o vivo e escandaloso lampejo de júbilo que a iluminara. Depois animei-a, com generosidade. Que podia a Titi recear? Não tinha ela agora, "para se apegar", vencer as leis da decomposição natural, aquela relíquia de Nosso Senhor?...

- E outra cousa, Titi... Os amiguinhos, como vão?

Ela anunciou-me a desconsoladora nova. O melhor e mais grato, o delicioso Casimiro, recolhera à cama no domingo com as “perninhas inchadas...” Os doutores afirmavam que era uma anasarca... Ela desconfiava de uma praga que lhe rogara um galego...

- Seja como for, o santinho lá está! Tem-me feito uma falta, uma falta... Ai filho, nem tu imaginas!... O que me tem valido é o sobrinho, o Padre Negrão...

- O Negrão? - murmurei, estranho ao nome.

Ah! Eu não conhecia... Padre Negrão vivia ao pé de Torres. Nunca vinha a Lisboa, que lhe fazia nojo, com tanta relaxação... Só por ela, e para a ajudar nos seus negócios, é que o santinho condescendera em deixar a sua aldeia. E tão delicado, tão serviçal... Ai! Era uma perfeição!

- Tem-me feito uma virtude que nem calculas, filho... Só o que ele tem rezado por ti, para que Deus te protegesse nessas terras de turcos.. .E a companhia que me faz! Que todos os dias o tenho cá a jantar.. .Hoje não quis ele vir. Até me disse uma cousa muito linda:

"não quero, minha senhora, atalhar expansões". Que lá isso, falar bem, e assim cousas que tocam... Ai, não há outro... Nem imaginas, até regala... E de apetite!

Sacudi o cigarro, secado. Por que vinha aquele padre de Torres, contra os costumes domésticos, comer todos os dias o cozido da Titi? Resmunguei com autoridade:

- Lá em Jerusalém os padres e os patriarcas só vêm jantar aos domingos... Faz mais virtude.

Escurecera. A Vicência acendeu o gás no corredor; e como breve chegariam os diletos amigos, avisados pela Titi para saudar o peregrino, recolhi ao meu quarto a enfiar a sobrecasaca preta.

(continua...)

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