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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Basílio teve um movimento de ombro, que repelia aquela suposição grotesca.

- Mas dize, então, queres ficar-lhe agarrado às saias ou queres desembaraçar-te dela? Mas averdade, venha a verdade!

- Eu - disse logo Basílio, chegando-se à tina, baixo - se me pudesse desembaraçar decentemente...

- Oh, desgraçado! Tens uma ocasião divina! Ela saiu como uma bicha, dizes tu. Bem; escrevelhe uma carta, que vendo que ela deseja romper, não a queres importunar, e partes. Os teus negócios estão concluídos, não é verdade? Escusas de negar; o Lapierre disse-me que sim. Bem, então sê decente; manda fazer as malas, e livra-te da sarna.

E tomando a esponja, deixava cair grandes golpes de água pela cabeça, pelos ombros, soprando, regalado na frescura aromática.

- Mas também - disse Basílio - deixá-la agora naquela atrapalhação com a criada! No fim éminha prima...

Reinaldo agitou os braços, com hilaridade.

- Esse espírito de família é ótimo! Vai lá, idiota; dize-lhe que és obrigado a partir, os teusnegócios, etc., e mete-lhe umas poucas de notas na mão.

- É brutal...

- E caro!

Basílio disse então:

- Olha que também é uma dos diabos, a pobre rapariga apanhada pela criada...

Reinaldo estirou-se mais, e disse com júbilo:

- Estão a estas horas a esgadanharem-se uma à outra!

Recostou-se numa beatitude; quis saber as horas; declarou que estava confortável; que se sentia feliz! Contanto que o John se não tivesse esquecido de frapper o champanhe!

Basílio torcia o bigode, calado. Revia a sala de Luísa de repes verde, a figura horrível de Juliana com a sua enorme cuia... Estariam com efeito a ralhar, a descompor-se? Que pulhice que era tudo aquilo! Positivamente devia partir.

- Mas que pretexto lhe hei de eu dar para sair de Lisboa?

- Um telegrama! Não há nada como um telegrama! Telegrafa já ao teu homem em Paris, aoLabachardie, ou Labachardette, ou o que é, que te mande logo este despacho: "Parta, negócios maus, etc." É o melhor!

- Vou fazê-lo - disse Basílio erguendo-se, muito decidido.

- E partimos amanhã? - gritou Reinaldo.

- Amanhã.

- Por Madri?

- Por Madri.

- Salero! - Pôs-se de pé na tina, entusiasmado, a escorrer, e com movimentos aduncos demagricela saltou para fora, embrulhou-se no roupão turco. O seu criado William entrou logo, sutilmente, ajoelhou-se, tomou-lhe um pé entre as mãos, secou-lho com precauções, pôs-se respeitosamente a calçar-lhe a meia de seda preta com ferradurinhas bordadas.

Na manhã seguinte, um pouco antes do meio-dia, Joana veio bater discretanente à porta do quarto de Luísa, e com a voz baixa - desde o desmaio falava-lhe sempre baixo, como a uma convalescente:

- Está ali o primo da senhora.

Luísa ficou surpreendida. Estava ainda de robe de chambre, e tinha os olhos vermelhos de chorar; pôs num instante um pouco de pó-de-arroz, alisou o cabelo, entrou na sala.

Basílio, vestido de claro, sentara-se melancolicamente no mocho do piano. Trazia um ar grave, e, sem transição, começou a dizer: - que apesar de ela se ter zangado na véspera, ele considerava ainda tudo "como dantes". Viera porque naquele momento não se podiam separar sem algumas explicações, sobretudo sem resolver definitivamente o caso da carta... E com um gesto triste, como contendo lágrimas:

- Porque eu vejo-me forçado a sair de Lisboa, minha querida!

Luísa, sem olhar para ele, fez um sorriso mudo, muito desdenhoso. Basílio acrescentou logo:

- Por pouco tempo, naturalmente; três semanas ou um mês... Mas enfim tenho de partir... Sefossem só os meus interesses! - Encolheu os ombros com desdém. - Mas são interesses de outros... E aqui está o que eu recebi está manhã.

Estendeu-lhe um telegrama. Ela conservou-o um momento, sem o abrir; a sua mão fazia tremer o papel.

- Lê, peço-te que leias!

- Para quê? - fez ela.

Mas leu baixo: "Venha, graves complicações. Presença absolutamente necessária. Parta já".

Dobrou o papel, entregou-lho.

- E partes, hem?

- É forçoso.

- Quando?

- Esta noite.

Luísa ergueu-se bruscamente, e estendendo-lhe a mão:

- Bem, adeus.

Basílio murmurou:

- És cruel, Luísa!... Não importa! Em todo o caso há um negócio que é necessário terminar.Falaste à mulher?

- Está tudo arranjado - respondeu ela, franzindo a testa. Basílio tomou-lhe a mão, e quase comsolenidade:

- Minha filha, eu sei que és muito orgulhosa, mas peço-te que digas a verdade. Eu não te querodeixar em dificuldades. Falaste-lhe?

Ela retirou a mão, e com uma impaciência crescente:

- Arranjou-se tudo; arranjou-se tudo!...

Basílio parecia muito embaraçado; estava mesmo um pouco pálido: enfim, tirando uma carteira da algibeira, começou:

(continua...)

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