Por Inglês de Sousa (1891)
A casa já estava cheia. Junto ao caixão, mexendo distraidamente no lenço que atava os pés do cadáver, o Pedrinho Sousa, muito bem vestido de preto, chorava. Estava pálido e com olheiras pelas muitas noites que velara à cabeceira do amigo, cujo confidente era. Do outro lado do caixão, o Manduquinha Barata, também de preto, forcejava por guardar a seriedade que a ocasião exigia, mordendo os beiços para não rir de qualquer coisa de extraordinariamente ridículo que descobria no vestuário do vereador João Carlos. Valadão contava os seus padecimentos ao Dr. Natividade, que muito penteado, com os cabelos úmidos, parecia ter saído dum banho, e de mãos atrás das costas, bamboleando uma perna, dava conselhos de medicamentos usados em Pernambuco. O Mapa-Múndi, o Costa e Silva e o Regalado conversavam baixinho, em grupo, perto da janela. O Felício boticário murmurava ao ouvido do tenente Pena e do Bartolomeu de Aguiar, alternadamente. Os velhos, ouvindo, sacudiam a cabeça, muito convencidos. O Cazuza Bernardino, de pé à porta da sala, vestindo a bela farda de tenente, com fumo no braço, tinha uma atitude de dor resignada e forte. Quinquim da Manuela entrava e saía, atarefado, cuidando dos últimos arranjos, com interesse e dedicação de bom rapazinho. O senhor vereador João Carlos, atordoado, perseguido pelos olhos insolentes e brejeiros do Manduquinha Barata, procurava disfarçar; abrindo conversa com o professor Aníbal. Mas este, muito preocupado, virava-se para um e outro lado, concertava os óculos e cuspia, sem lhe dar atenção.
Macário, depois de deixar a cruz ao Quinquim da Manuela, foi contemplar o pobre finado, de quem guardara uma impressão de pena e simpatia, misturada duns longes de inveja e desprezo ao mesmo tempo. Sim, era uma coisa assim esquisita o que Macário sentia por aquela criança de dezoito anos, roubada à vida, ao que se dizia, por uma paixão amorosa, e que tão vivos e salientes deixara os traços do seu caráter. Quando o vira pela primeira vez no baile do casamento do irmão, a impressão que lhe causara fora desfavorável. Era um pelintra, um vadio que perdia o tempo palestrando na roda do Chico Fidêncio. Demais, era bonito moço e só vestia roupas feitas no Pará, umas coisas elegantes e novas, que Macário admirava, mas que não teria jamais a coragem de pôr em si. E Macário, até então humilhado, e visto com sarcasmo pelos rapazes alegres da roda do Chico Fidêncio, embirrava solenemente com aquelas elegâncias. Depois vira-o pálido, abatido, com um raio de loucura no olhar, as roupas em desalinho, narrando a desgraça da sua vida e falando em morrer para não suportar os tormentos da separação da sua amada. Agora que pela terceira vez o via era frio e imóvel naquele caixão mortuário, audacioso e terno ao mesmo tempo na sua rigidez cadavérica. E aquela transformação rápida, efetuada em tão poucos meses, como numa vertigem assombrosa que se apoderara daquele mancebo de dezoito anos, elegante e frívolo, apaixonado e ardente, devorado pela lava incandescente duma paixão súbita e mortal, enchia de pasmo e confusão o espírito de Macário. Francamente não o compreendia. Morrer pelo amor duma mulher! E morrer amado! Moço, elegante, instruído, pertencendo a uma boa família, renunciar à vida, deixar-se apanhar estupidamente por uma tísica ou coisa que o valha, só porque o papai não consentiu no casamento com uma matutinha do Urubus, era por demais inexplicável.
E Macário, contemplando o bonito fraque azul-ferrete que o cadáver tinha vestido, o colete de gorgorão preto, a bela gravata e os finos sapatos de polimento, pensava que os rapazes educados nas capitais não têm a mesma têmpera que os da vila, e que o Bernardino Santana, não pela proibição do casamento com a Milu, mas pelas larguezas e facilidades que permitira ao filho era culpado daquela morte prematura...
Nisto Q Bernardino Santana, todo de preto, com a calva descoberta à viração da tarde, numa das mãos uma tocha e na outra uma coroa de latão, aproximou-se dele, e pôs-se a dizer com os olhos rasos de lágrimas:
- Ora está vendo, seu Macário sacristão? É uma desgraça! O rapazinho morreu como um passarinho. E não havia modos de lhe fazer tomar o remédio. Desde que adoeceu, não se lhe pôde pôr na boca uma colher do remédio. É uma desgraça!
Puxou do bolso da sobrecasava um grande lenço de chita, enxugou os olhos, assoou-se e continuou:
— E você que o conheceu, seu Macário sacristão, lembra-se dele? Como era alegre, e bom menino! Se não fossem aquelas tolices com a Milu, eu nunca teria tido ocasião de zangar-me com ele. Pois, desde que caiu na cama mudou como uma coisa extraordinária. Não falava, não respondia à gente, e não queria tomar remédios. E olhe que não eram remédios de cacaracá, de pouca monta... Eram remédios caros... e o rapazinho nada! Por mais que eu gritasse, ralhasse, nada! Uma teima assim, nunca vi em dias de minha vida!
E o Bernardino Santana deixou a coroa de latão sobre a mesa, entregou a tocha ao Pedrinho Sousa e foi perguntar ao Quinquim da Manuela se a cova estava pronta.
Macário também afastou-se de junto do cadáver, e procurou saber qual a razão da demora, pois julgava que seria o último a chegar.
— É por causa do Fonseca, disse-lhe o Costa e Silva, ainda não chegou e Bernardino quer que se espere por ele.
Nesse momento o professor Aníbal acercou-se do grupo do Costa e Silva.
— Morreu de amor, o coitadinho! disse ele concertando os óculos e cuspindo longe.
— Qual morreu de amor! exclamou o Regalado. O que ele teve foi uma boa galopante, posso asseverá-lo! E se não fosse tão teimoso, se tivesse tomado os remédios que lhe dei, teria ficado bom. A moléstia começou por uma constipação desprezada. Sobreveio uma febre palustre, e em poucos dias a febre tomou o caráter tífico e... os tubérculos logo se declararam... enfim uma embrulhada! Se o pai o tivesse obrigado a tomar os remédios, teria ficado bom.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.