Por Aluísio Azevedo (1881)
E continuando a pensar neste terreno muito excitado, Raimundo dispunha-se a dormir, impaciente pelo dia seguinte, impaciente por verse bem longe do Maranhão. dessa miserável província que 'i e custara tantas decepções e desgostos; dessa terrinha da intriga miúda e das invejas pequeninas! Desejava arrancar-se para sempre daquela ilha venenosa e traiçoeira, mas pungia-lhe uma grande mágoa de perder Ana Rosa eternamente. Amava-a cada vez mais!
— Ora sebo! interrompeu-se. E eu a pensar nisto!... Tenho tudo liquidado e pronto!... Amanhã está aí o vapor e... adeus! adeus queridos atenienses!
E, afetando tranqüilidade, acendeu um cigarro.
Nisto, caiu na sala uma carta que meteram pelas rótulas da janela. Raimundo apoderou-se dela e leu no subscrito: “Ao Dr. Raimundo.” Teve um estremecimento de prazer, imaginando fosse de Ana Rosa, mas era simplesmente uma carta anônima.
“Ilustre canalha:
Então V.S.ª muda-se amanhã?... Se é verdade! agradeço-lhe o obséquio em nome da província. Creia, meu caro senhor, que será talvez o primeiro ato judicioso que V.S.ª pratica em sua r ida tão aventurosa porque nos já temos por cá muita pomada e não precisamos mais dessa fazenda. Honre-nos com a sua ausência e faça-nos o especial obséquio de ficar-se por /á o maior tempo que poder! Quem disse a V.S.ª que isto aqui é uma tenra de beócios, onde os pedantes arranjam bons casamentos, debicou-o, respeitável senhor, debicou-o redondamente. Já se não amarram cães com lingüiça. No entanto, se vir a prima dê-lhe lembranças. “ Assinava: “O Mulato disfarçado .
Raimundo sorriu, amarrotou a folha de papel e lançou-a ao chão
— Coitados! disse, e foi pôr-se à janela.
Aí ficou longo tempo, debruçado no peitoril, a olhar a escuridão da noite, onde os bicos de gás se acusavam tristemente, muito distantes uns dos outros. A Rua de 530 Pantaleão tinha um silêncio de cemitério. Bateu uma badalada, ao longe.
— Devem ser duas e meia.
Raimundo fechou a janela e recolheu-se à cama. Levantou-se de novo, tornou a apanhar a carta e releu-a. Só a assinatura o irritou.
— Cães! disse.
E soprou a vela.
Começavam então as chuvas, que no Maranhão chamam “de caju”; o vento soprou com mais força, esfuziando nas ripas do telhado. Em breve, o céu peneirava um chuvisco fino e passageiro. Na rua, não obstante, um trovador de esquina, cantava ao violão
“Quis debalde varrer-te da memória, E teu nome arrancar do coração. Amo-te sempre, que martírio infindo! Tem a força da morte esta paixão!”
Na manhã seguinte Manuel levantou-se antes dos caixeiros vestiu-se ainda com a meia claridade da aurora e endireitou para a casa de Diogo.
— Olé! você madrugou, compadre! disse-lhe o cônego da janela, onde fazia a barba em mangas de camisa.
— E verdade. Vim buscá-lo para o embarque do Mundico
— Tem tempo. Vá subindo, compadre, que lhe vou dar um cafezinho fazenda! E, voltando-se para o interior da casa:
— Anda com isso, ó Inácia! que temos de sair mais cedo! gritava ele, enquanto estendia com pachorra, em um paninho de barba, a espuma do sabão que tirava do queixo.
— Compadre, vá estando à vontade e diga o que há de novo.
A caseira entrou com uma bandeja, onde vinha o café, um pires de papa, uma garrafa de licor cálices.
— Vai uma papinha, compadre?
— Não, obrigado. Quero o café.
— Pois eu cá não passo sem ela, mais o meu café e o meu chartreuse... Vá um calicezinho, seu Manuel! Que tal? Deste é que não vem para negócio hein?...
— Decerto! não vale a pena! Mas com efeito, é papa-fina.
— Então outro, vá outro, compadre, isto nunca sobe logo à primeira dose...
— Também não vai a matar..
— Assim! agora um gole de café. . Hein? E o que me diz do café?,, — Soberbo! Do Rio, não e verdade?
— Qual Rio! muito bom Ceará! Acredite, seu compadre, que o melhor café do Brasil é o do Ceará!... E esta crioula, que o trouxe, é mestra em passá-lo!... Nunca vi! para um café e para uma papa de araruta com ovos, não há outra!
E o cônego passou a vestir-se esticando muito as suas meias de seda escarlate; calçando, com a calçadeira de tartaruga, os seus sapatos de polimento azeitado, cujos fivelas levantavam cintilações. Enfiou depois a batina de merinó lustroso, ameigando a barriga redonda e carnuda, saracoteando-se todo, a sacudir a perninha gorda, indo ao espelho do toucador alcochetar no pescoço a sua volta de rendas alvas. Estava limpo, cheiroso e penteado; tinha, no rosto escanhoado e nos anéis dos seus cabelos brancos, uns tons frescos de fidalgo velho e namorador; o crista! dos óculos redobrava-lhe o brilho dos olhos, e o seu chapéu novo, de três bicos, elegantemente derreado um pouco para a esquerda, dava à sua cabeça distinta e ao seu rosto todo barbeado o ar pitoresco e nobre dos cortesãos do século XVII.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.