Por Franklin Távora (1878)
Coelho não pensou mais senão em efetuar a sua viagem para o Recife. Ai esperaria a ultima palavra dos acontecimentos, que para ele não era duvidosa. Ai realizaria o seu sonho. Mas para que este resultado não estivesse sujeito ao mínimo contraste, urgia deixar Goiana. Demais, as turbas achavam-se exacerbadas e podiam ter o capricho feroz de preencher a sua vingança derramando o sangue de infeliz senhora. enfim, apresentando-se todas estas idéias ao espirito do negociante, correu ele à casa, meteu em se todo o ouro que tinha em segredo no cofre, e dizendo a d. Damiana que a ia recolher em lugar onde o povo não pudesse suspeitar seu homizio, encaminhou-se com ela em direitura para a Rua-do-rio.
D. Damiana não votava desafeição a Coelho. Ele tinha sido, por assim escrevermos, seu companheiro de infância, e tanto bastava para que a seus olhos o jovem europeu não aparecesse senão como um amigo, ou um irmão. É verdade que, mais tarde, distancia maior se estendera entre eles dois, filha da desigualdade de condição que naqueles tempos tanto predominava nas relações sociais e de família. Mas as tradições da primeira idade, que, como os hieróglifos dos egípcios e os caracteres cuneiformes dos persas, que tem atravessado as eras e dizem idéias tão duradouras como as pedras em que existem entalhados, não se apagam, senão com a morte, da imaginação ou, melhor, do coração onde se gravaram e donde dizem a todo tempo a sua muda e eloqüente linguagem, essas tradições extintas e sempre vivas prendiam irresistivelmente a gentil senhora-de-engenho, pelo passado, ao jovem português, como na escritura comum, o traço de união liga o verbo com o pronome, e de duas vozes diferentes faz uma só.
Em sua consciência mais de uma vez protestou contra certas manifestações do desdém de João da Cunha para com o negociante; e, conquanto, melhor do que ninguém, ajuizasse da profundeza do abismo que entre eles cavara a fatalidade, nem por isso negava a Coelho certas atenções, aquelas que, pela própria fidalguia dos seus sentimentos, entendia que devia ter para o antigo amigo da casa. Nunca deixou sem retribuição os cumprimentos e as saudações do mercador, nem lhe recusou falas respeitosas, por ocasião de se encontrarem. Seu natural espirito de justiça levava-a até a justificar os profundos ressentimentos de Coelho, quando compreendeu a verdadeira causa deles. ‘ Ele cuidava – dizia d. Damiana consigo mesma – ele cuidava que poderia casar comigo. Julgava que, tendo entrada em nossas relações, estava habilitado para prender-se à família por laços que só o parentesco e a igualdade de condição podem criar. ‘
Tais eram as idéias e os sentimentos de d. Damiana. Por isso, sentindo a gravidade do momento, ela não escrupulisou acompanhar o negociante, única tábua de salvação que nos cruzados mares da súbita adversidade lhe aparecia como instrumento do céu.
E antes de passarmos adiante, justo é que deixemos bem claro este ponto essencial da presente narrativa: Coelho não era indigno da confiança que, por força das circunstancias atuais, ou por influencia irresistível de circunstancias anteriores e remotas, depositou nele a jovem fidalga. O amor que ele lhe consagrava, era sublime e puro; tinha origem imediata no sentimento, não nos sentidos. O português estava na flor dos anos, e seu caráter não se tinha poluído ainda no trato das relações sociais. Nessa época da vida e com esta circunstancia, o amor é mais do que um sentimento, é uma virtude. Tende sempre a elevar-se, e nunca a rebaixar-se. O negociante amava em d. Damiana um ente, uma criatura, um composto de qualidades corporais e imateriais, não unicamente uma feitura plástica, uma forma física, não obstante se acharem coligidas nessa forma todas as perfeições que ele sonhava para o seu ideal. Sua aspiração não se limitava à posse do olhar, do sorriso, do carinho dessa criatura; ele aspirava, não menos do que a isto, ás suas perfeições morais, à parte imaterial da pessoa humana, a essa porção do ser que não é a figura corporal, o arredondado dos contornos, o donaire do talhe, o aveludado da face e da mão, o colorido da cútis, a vibração da voz, mas, mostrando-se intimamente ligada com todas estas prendas não se confunde com elas, e sem se deixar ver, porque não é visível, deixa-se adivinhar, conhecer, sentir na bondade, na dedicação, na conformidade com o sentir da pessoa que lhe é idêntica nas inclinações, nos gostos, no estado espiritual que lhes é comum.
Certamente ele imaginava ser feliz ao lado dessa existência seleta, dessa alma que constituía a essência dos seus desejos, das suas vaidades, do seu nobre orgulho; mas essa felicidade ele nunca a imaginou de outra forma. Por isso, tanto que viu entre suas mãos o tesouro longamente apetecido, a única idéia que lhe passou pela mente foi a de que cessara enfim o seu tormento e começara, pelo gozo dos bens sonhados, o resgate dos males curtidos; a idéia de, prevalecendo-se das circunstancias, sujeitar o ente querido e alcançado ao papel de instrumento de paixões menos dignas, essa ele não a teve então, porque não a tivera nunca. No coração do jovem português havia o afeto generoso do amante, não os ardores animais do barregão.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.