Por Eça de Queirós (1887)
Até aí, que fora eu em casa da senhora Dona Patrocínio? O menino Teodorico que, apesar da sua carta de doutor e das suas barbas de Raposão, não podia mandar selar a égua para ir espontar o cabelo à Baixa, sem implorar licença à Titi... E agora? O nosso Doutor Teodorico, que ganhara, no contato santo com os lugares do Evangelho, uma autoridade quase pontifical! Que fora eu até aí, no Chiado, entre os meus concidadãos? O Raposito, que tinha um cavalo. E agora? O grande Raposo, que peregrinara poeticamente na Terra Santa, como Chateaubriand, e que, pelas remotas estalagens em que pousara, pelas roliças circassianas que beijocara, podia parolar com superioridade na Sociedade de Geografia ou em asa da Benta Bexigosa...
O Pingalho estacou as pilecas. Saltei, com o caixote da relíquia estreitado ao coração... E, ao fundo do pátio triste, lajeado de pedrinha, vi a senhora Dona Patrocínio das Neves, vestida de sedas negras, toucada de rendas negras, arreganhando no carão lívido, sob os óculos defumados, as dentuças risonhas para mim!
- Oh, Titi!
- Oh, menino!
Larguei o caixote santo, caí no seu peito seco; e o cheirinho que vinha dela a rapé, a capela e a formiga, era como a alma esparsa das ousas domésticas que me envolvia, para me fazer reentrar na piedosa rotina do lar.
- Ai filho, que queimadinho que vens!...
- Titi, trago-lhe muitas saudades do Senhor...
- Dá-mas todas; dá-mas todas!...
E retendo-me, cingido à dura tábua do seu peito, roçou os beiços frios pelas minhas barbas - tão respeitosamente como se fossem as barbas de pau da imagem de São Teodorico.
Ao lado, a Vicência limpava o olho com a ponta do avental novo. O Pingalho descarregara a minha mala de couro. Então, erguendo o precioso caixote de pinho de Flandres benzido, murmurei, com uma modéstia cheia de unção:
- Aqui está ela, Titi, aqui está ela! Aqui a tem, aí lha dou, a sua divina relíquia, que pertenceu ao Senhor!
As emaciadas, lívidas mãos da hedionda senhora, tremeram ao tocar aquelas tábuas que continham o princípio miraculoso da sua saúde e o amparo das suas aflições. Muda, tesa, estreitando sofregamente o caixote, galgou os degraus de pedra, atravessou a sala de Nossa Senhora das Sete-Dores, enfiou para o oratório. Eu atrás, magnífico, de capacete, ia rosnando: "ora vivam! ora vivam!" – à cozinheira, à desdentada Eusébia, que se curvavam no corredor como à passagem do Santíssimo.
Depois, no oratório, diante do altar juncado de camélias brancas, fui perfeito. Não ajoelhei, não me persignei; de longe com dous dedos, fiz ao Jesus de ouro, pregado na sua cruz, um aceno familiar - e atirei-lhe um olhar, muito risonho e muito fino, como a um velho amigo com quem se tem velhos segredos. A Titi surpreendeu esta intimidade com o Senhor; e quando se rojou sobre o tapete (deixando-me a almofada de veludo verde), foi tanto para o seu Salvador como para o seu sobrinho, que levantou as mãos adorabundas.
Findos os padre-nossos de graças pelo meu regresso, ela, ainda prostrada, lembrou com humildade:
- Filho, seria bom que eu soubesse que relíquia é, para as velas, para o respeito...
Acudi, sacudindo os joelhos:
- Logo se verá. À noite é que se desencaixotam as relíquias... Foi o que me recomendou o patriarca de Jerusalém... Em todo o caso acenda a Titi mais quatro luzes, que até a madeirinha é santa!
Acendeu-as, submissa; colocou, com beato cuidado, o caixote sobre o altar; depôs-lhe um beijo chilreado e longo; estendeu-lhe por cima uma esplêndida toalha de rendas... Eu então, episcopalmente, tracei sobre a toalha, com dous dedos, uma bênção em cruz.
Ela esperava, com os óculos negros postos em mim, embaciados de ternura:
- E agora, filho, agora?
- Agora o jantarinho, Titi, que tenho a tripa a tinir...
A senhora Dona Patrocínio logo, apanhando as saias, correu a apressar a Vicência. Eu fui desafivelar a maleta para o meu quarto - que a Titi esteirara de novo; as cortinas de cassa tufavam, tesas de goma; um ramo de violetas perfumava a cômoda.
Longas horas nos detivemos à mesa - onde a travessa de arroz-doce ostentava as minhas iniciais, debaixo de um coração e de uma cruz, desenhadas à canela pela Titi. E, inesgotavelmente, narrei a minha santa jornada. Disse os devotos dias do Egito, passados a beijar uma por uma as pegadas que lá deixara a Santa Família na sua fuga; disse o desembarque em Jafa com o meu amigo Topsius, um sábio alemão, doutor em teologia, e a deliciosa missa que lá saboreáramos; disse as colinas de Judá cobertas de presepes onde eu, com a minha égua pela rédea, ia ajoelhar, transmitindo às imagens e às custódias os recados da tia Patrocínio... Disse Jerusalém, pedra a pedra! E a Titi, sem comer, apertando as mãos, suspirava com devotíssimo pasmo:
- Ai que santo! Ai que santo ouvir estas cousas! Jesus, até dá uns gostinhos por dentro!...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.