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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Basílio saiu do Paraíso muito agitado. As pretensões de Luísa, os seus terrores burgueses, a trivialidade reles do caso, irritavam-no tanto, que tinha quase vontade de não voltar ao Paraíso, calar-se, e deixar correr o marfim! Mas tinha pena dela, coitada! E depois, sem a amar, apetecia-a; era tão bem feita, tão amorosa; as revelações do vício davam-lhe um delírio tão adorável! Um conchegozinho tão picante enquanto estivesse em Lisboa... Maldita complicação! Ao entrar no hotel, disse ao seu criado:

- Quando vier o senhor Visconde Reinaldo, que vá ao meu quarto.

Estava alojado no segundo andar, com janelas para o rio. Bebeu um cálice de conhaque e estirou-se no sofá. Ao pé, na jardineira, tinha o seu buvar com um largo monograma em prata sob a coroa de conde, caixas de charutos, os seus livro - Mademoiseile Giraud, ma femme; La vierge de Mabilie; Ces friponnes!; Mémoires secrètes d'une femme de chambre; Le chien d'arrêt; Manuel du chasseur, números do Fígaro, a fotografia de Luísa, e a fotografia de um cavalo.

E soprando o fumo do charuto, começou a considerar, com horror, a "situação"! Não lhe faltava mais nada senão partir para Paris, com aquele trambolhozinho! Trazer uma pessoa, havia sete anos, a sua vida tão arranjadinha, e patatrás! Embrulhar tudo, porque à menina lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do esposo! Ora o descaro! No fim, toda aquela aventura desde o começo fora um erro! Tinha sido uma idéia de burguês inflamado ir desinquietar a prima da Patriarcal. Viera a Lisboa para os seus negócios; era tratá-los, aturar o calor e o boeuf à la mode do Hotel Central, tomar o paquete, e mandar a pátria ao inferno!... Mas não, idiota! Os seus negócios tinham-se concluído - e ele, burro, ficara ali a torrar em Lisboa, a gastar uma fortuna em tipóias para o Largo de Santa Bárbara para quê? Para uma daquelas! Antes ter trazido a Alphonsine!

Que, verdade, verdade, enquanto estivesse em Lisboa o romance era agradável, muito excitante; porque era muito completo! Havia adulteriozinho, o incestozinho. Mas aquele episódio agora estragava tudo! Não, realmente, o mais razoável era safar-se!

A sua fortuna tinha sido feita com negócio de borracha, no alto Paraguai; a grandeza da especulação trouxera a formação de uma companhia, com capitais brasileiros; mas Basílio e alguns engenheiros franceses queriam resgatar as ações brasileiras, que eram um empecilho, formar em Paris uma outra companhia, e dar ao negócio um movimento mais ousado. Basílio partira para Lisboa entender-se com alguns brasileiros, e comprara as ações habilmente.

A prolongação daquele incidente amoroso tornava-se uma perturbação na sua vida prática... E, agora que a aventura tomava um aspecto secante, convinha passar o pé!

A porta abriu-se e o Visconde Reinaldo entrou - afogueado, de lunetas azuis, furioso.

Vinha de Benfica! Morto, absolutamente morto com aquele calor, de um país de negros. Tivera a estúpida idéia de ir visitar uma tia - que o fizera logo membro de uma associação para não sei que diabo de que creche, e que lhe pregara moral! Também, que idéia de colegial - ir visitar a tia! Porque realmente, se havia uma coisa que lhe causasse repugnância, eram as ternuras de família!

- E tu, que queres tu? Eu vou-me meter num banho até ao jantar!

- Sabes o que me sucede? - disse Basílio, erguendo-se.

- O quê?

- Imagina. O caso mais estúpido.

- O marido apanhou-te?

- Não, a criada!

- Shocking! - exclamou Reinaldo com nojo.

Basílio contou miudamente "o caso". E cruzando os braços diante dele:

- E agora?

- Agora é safar-te!

E levantou-se.

- Onde vais tu?

- Vou ao banho.

Que esperasse, que diabo; queria falar com ele...

- Não posso! - exclamou Reinaldo com um egoísmo frenético. Vem tu cá abaixo! Possoperfeitamente conversar na água!

Saiu, berrando por William, o seu criado inglês.

Quando Basílio desceu aos banhos, Reinaldo estirado com voluptuosidade na tina, de onde saía um forte cheiro de água de Lubin, exclamou, deleitando-se no seu conforto:

- Então cartinha apanhada nos papéis sujos!

- Não, Reinaldo, mas francamente estou embaraçado; que achas tu que eu faça?

- As malas, menino!

E sentado na tina, ensaboando devagar o seu corpo magro:

- Aí está o que é fazer amor às primas da Patriarcal Queimada!

- Oh! - fez Basílio, impaciente.

- Oh, quê? - E, coberto de flocos de espuma, com as mãos apoiadas ao rebordo de mármore datina: - Pois tu achas isso decente, uma mulher que toma a cozinheira por confidente, que lhe está na mão, que perde a carta nos papéis sujos, que chora, que pede duzentos mil réis, que se quer safar isso é lá amante, isso é lá nada! Uma mulher que, como tu mesmo disseste, usa meias de tear!

- Meu rico, é uma mulher deliciosa!

O outro encolheu os ombros, descrente. Basílio deu logo provas; descreveu belezas do corpo de Luísa; citou episódios lascivos.

O teto e os tabiques envernizados de branco refletiam a luz, com tons macios de leite; a exalação da água tépida aumentava o calor morno; e um cheiro fresco de sabão e água de Lubin adoçava o ar.

- Bem! Estás pelo beiço - resumiu Reinaldo com tédio, estirando-se.

(continua...)

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