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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Depois aquele lugar proporcionava-lhe uma influência crescente, e agora que Silves estava outra vez sem pároco, e que seis meses pelo menos se passariam antes que a solicitude de D. Antônio remediasse a falta, o sacristão era como vigário leigo, sem tonsura, sem batina e sem direito de dizer missa, mas com todo o encargo espiritual daquele rebanho amado, com todas as vantagens do paroquiato. Era o único a dirigir o serviço do culto, reduzido embora a ladainhas e a enterros, governava a igreja, distribuía ceras e registros, emprestava as cadeiras, as toalhas e os castiçais da Matriz sem dar satisfação a pessoa alguma. Não podendo confessar as beatas, ouvia-as sem mais sigilo do que a sua discrição, aconselhava-as, davalhes remédios. E até já se lembrara, por amor à instrução pública da vila, de continuar com a escola de catecismo dos pequenos que ultimamente padre Antônio abandonara.

Macário embebido nestes pensamentos passeava na sacristia, aguardando a chegada dos irmãos do Santíssimo para ter o prazer de distribuir entre eles, ao sabor das suas preferências pessoais, as tochas, e as cruzes. Era regalia que tinha em muito apreço e que não deixava de mão. O Chico Fidêncio seria naturalmente o mais favorecido. Era preciso corresponder!

Ele estava deitado, e parecia dormir no seu caixão forrado de belbutina preta e ornado de largos galões dum dourado tirante a cobre, afogueado e velho.

A cabeça, coberta de cabelos castanhos anelados, que deixavam a testa livre e vasta, estava voltada para um lado e ligeiramente inclinada para trás; por efeito dum último espasmo tetânico, ou por compostura que mão estranha dera, salientando o magro perfil de tísico e emprestando uma audácia de atitude àquele corpo de vadio que resumira a vida numa única paixão. No rosto comprido e macilento manchas azuladas destacavam-se. Nos lábios finos, sombreados por um nascente buço castanho, vagueava um sorriso, como se no momento supremo do trespasse uma idéia feliz lhe tivesse alegremente colorido o quadro de além-túmulo. Ou talvez a certeza e a aproximação da morte tivesse tornado grato o instante que punha fim às tribulações da vida. Sobre o peito cavado pela moléstia a alva camisa francesa, engomada com esmero, bombeava o plastron de seda preta, amarrotado de leve pelas mãos cruzadas, brancas, diáfanas, veiadas dum azul escuro.

O resto do corpo perdia-se na frouxidão das roupas elegantes e caras, terminando pelos sapatos novos de polimento, entrelaçados por um lenço branco, para que os pés se não separassem. Pobre Totônio! Inutilmente lhe prendiam os pés. Já não poderia fugir em busca do pitoresco sítio do Urubus, onde solitária e triste gemia a sua adorada Emília, de quem para sempre o separava agora a terrível fatalidade da morte. Ao menos o seu juramento fora cumprido!

A sala branca, séria, desguarnecida de móveis? tinha uma melancolia que assaltava o coração da gente, logo à entrada. Da parede do fundo pendia um grande crucifixo amarelado, com chagas hediondas. Sobre pequena mesa coberta de pano preto duas velas de cera alumiavam a face esbranquiçada e menineira duma Senhora das Dores. Quadros com imagens cinzentas de santos milagrosos rodeavam o caixão mortuário, descansando na grande mesa de pinho sem lustre, forrada de pano preto, pingado de cera e picado de traças, e os santos, retratados em litografias baratas, com legendas místicas por baixo, cruzavam os olhos brancos por cima do cadáver, numa desolação. Às cabeceiras da essa improvisada três círios queimavam os longos pavios resinosos, pingando lágrimas amarelas sobre os tocheiros de pau preto, colocados no chão. A luz baça das velas perdia-se na claridade decrescente da tarde. As três chamas, privadas de toda a irradiação, pareciam três brasas oscilando no ar. Um cheiro enjoativo de cera e alfazema enchia a casa e vinha até à rua. Pelas janelas semicerradas entrava a viração da tarde. Lá dentro, nos aposentos da família, ouvia-se um soluçar contínuo e monótono, mas moderado e tímido. Num quintal vizinho cantava um galo melancólico. Na sala fizerase um silêncio quando Macário entrara. Depois um murmúrio começou, acentuou-se e se transformou em conversação cortada, a trechos, em voz baixa, como para não perturbar a solenidade triste da ocasião.

(continua...)

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