Por Franklin Távora (1878)
- Que é feito? Está no poder do principal dos mascates. Quem? Antonio Coelho?
- Sim, senhor.
- Oh! não me digas isto, Francisco. E eu ainda aqui. vamos, corramos. Mas aonde iremos? Para onde correremos?!
Para a casa do mascate. Correram os fidalgos e o matuto como loucos pela rua afora. João da Cunha levava o inferno no coração. Aquela triste nova dava-lhe a esgotar as fezes do cálix de amargura que bebia desde a véspera. Em toda a sua vida nunca sentira tão profunda, tão desumana dor penetrar-lhe a alma.
Todas as portas, tanto as inferiores como as superiores, estavam hermeticamente fechadas. Do lado de dentro o silencio era profundo. Tudo indicava que na casa não havia viva alma.
A João da Cunha, perdido em cogitações e incertezas, só faltava desesperar.
- Meu Deus, meu Deus, que hei de fazer? Onde irei descobrir o infame? Onde irei achar minha infeliz mulher? Estiveram um momento curtindo silenciosos, de pé, a modo de privados do exercício da razão, aquela angustia sem nome.
Súbito uma detonação, que parecia partir do interior do sobrado, veio ressoar do lado de fora.
- Estão ai, estão dentro. Matou-a o malvado, exclamou o sargento-mór. Adivinho tudo. Quis violentá-la, ela resistiu e ele matou-a. Mas eu o matarei também. Matarei o vilão.
Lívidos, como cadáveres, atiraram-se à porta que lhes pareceu menos resistente. A coices de arcabuz, conseguem metê-la dentro. Voam de escadas acima como quatro sombras, quatro espectros fantásticos. A claridade do dia chegava ao interior da casa como luz crepuscular; mas aos olhos deles o que se apresentava eram trevas profundas. Francisco foi o primeiro que abriu uma das portas, e João da Cunha o que se atirou para o interior da casa, que não conhecia. O cheiro da pólvora e a nuvem de fuma ainda ondulante indicaram a direção que eles deviam tomar. Chegam enfim ao dormitório do negociante. Uma voz enfraquecida fez ouvir então estas palavras:
- Não me matem, não me matem.
Aos pés do leito havia um vulto sentado e outro estendido.
- Por Nosso-Senhor-Jesus-Cristo, não acabem comigo.
- Quem és tu, miserável? Perguntou o sargento-mór.
- Era Bartolomeu, o barcaceiro. Contou tudo. Tinha estado na véspera com o negociante. Tinha concertado esperar por ele na Borboleta; mas tendo visto os dobrões que o negociante inadvertidamente lhe mostrara, projetou logo apossar-se deles furtivamente. Esteve na barcaça até a hora em que a sorte pareceu ser pelas armas dos mascates; mas tanto que soube da entrada da tropa do governo, correu ao sobrado, calculando que Coelho seria morto, ou ao menos preso. Chegando ai, fechou-se por dentro para afastar qualquer suspeita, e forçou a burra. Quando a tampa cedeu à violência, um tiro partiu de dentro, e o feriu acima do ventre. Era o tiro que eles tinham ouvido. Em vão procurou o dinheiro que o tinha tentado. O que encontrou foi uma pistola presa ao cofre por oculto aparelho, ali posto intencionalmente para a fazer disparar sobre quem o violasse. E a Borboleta?
Deve de estar ainda no porto à minha espera. Os quatro amigos atiraram-se imediatamente fora do aposento e ganharam a rua em violenta carreira para o porto.
XXVIII
A enormidade e a iminência do perigo abateram o grande animo da senhora-de-engenho, a qual, percebendo levantar-se diante de seus olhos o vulto horripilante da morte, não escolheu meios de fugir a esta fúnebre visão, e deixou-se arrastar sem resistência e como sem consciência pelo mercador.
De feito, ela ouvira centenas de vozes pedir do lado de fora a sua cabeça em resgate do crime que fora aliás praticado por seu marido; vira a casa tomada pelos amotinados, resolutos a não terem para ninguém, e muito menos para ela, se não fosse o negociante, a menor contemplação; conhecera enfim que sua vida, posto que à sombra da proteção dele, não se podia considerar ainda de todo segura. Então não hesitou, não refletiu. Pegou da mão que se lhe estendia. O instinto da própria conservação impõe-se como uma fatalidade. D. Damiana não podia mostrar-se superior a essa lei absoluta e impreterível.
Para Coelho a crise tinha chegado à solução natural e única. João da Cunha, uma vez nas mãos dos inimigos, não haveria sair delas com vida. E o homicídio, previsto pelo mercador, não esteve longe de ser cometido nos primeiros momentos depois da prisão do senhor-de-engenho; mas interpôs-se uma circunstancia, menos filha do acaso do que da clemência com que o céu quis vir a seu socorro. Os filhos de Jeronimo Paes assentaram não lhe tirar a vida senão depois de perdida a esperança de um resgate em dinheiro, por então muito em voga.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.