Por Eça de Queirós (1887)
Mas, bruscamente, o tabuado do Caimão fugiu sob meus pés ovantes. Estaquei, enfiado. Oh miséria! Humilhação! Era a vaga enjoadora... Corri à borda; sujei imundamente o azul do Mar de Tiro; depois rolei para o beliche - e só ergui do travesseiro a face mortal, quando senti as correntes do Caimão mergulharem nas calmas águas onde outrora, fugindo de Ácio, caíram à pressa as âncoras douradas das galeras de Cleópatra!
E outra vez, estremunhado e esguedelhado, te avistei, terra baixa do Egito, quente e da cor de um leão! Em tomo aos finos minaretes voavam as pombas serenas. O lânguido palácio dormia à beira da água entre palmeiras. Topsius sobraçava a minha chapeleira, serrazinando cousas doutíssimas sobre o antigo farol. E a pálida religiosa já deixara o Caimão, pomba do ermo escapada ao milhafre - porque o milhafre no seu vôo fechara a asa, sordidamente enjoado!
Nessa mesma tarde, no Hotel das Pirâmides, soube com júbilo que um vapor de gado, El Cid Campeador, partia de madrugada para as terras benditas de Portugal! Na caleche de riscadinho, só com o douto Topsius, dei o derradeiro passeio nas sombras olorosas do Mamudiê. E passei a curta noite numa rua deleitosa. Oh meus concidadãos, ide lá, se apeteceis conhecer os deleites ásperos do Oriente... Os bicos de gás sem globo assobiam largamente, torcidos ao vento; as casas baixas, de pau, são apenas fechadas por uma cortina branca, atravessada de claridade; tudo cheira a sândalo e alho; e mulheres sentadas sobre esteiras, em camisa, com flores nas tranças, murmuram suavemente: - Eh môssiu! Eh milord!... Recolhi tarde, exausto. Ao passar na Rua das Duas Irmãs, avistei sobre a porta de uma loja cerrada a mão de pau, pintada de roxo, que empolgara o meu coração. Atirei-lhe uma bengalada. Este foi o último leito das minhas longas jornadas.
De manhã, o fiel e douto Topsius veio, de galochas, acompanhar-me ao barracão da alfândega.
Enlacei-o longamente nos braços trêmulos:
- Adeus, companheiro, adeus! Escreva... Campo de Santana, 47...
Ele murmurou, estreitado comigo:
- Aqueles trinta mil-réis, lá mandarei...
Apertei-o generosamente, para abafar essa explicação de pecúnia. Depois, já com a bota na proa do bote que me ia levar ao Cid Campeador:
- Então, posso dizer à Titi que a coroazinha de espinhos é a mesma...
Ele ergueu as mãos, solene como um pontífice do saber:
- Pode dizer-lhe em meu nome que foi a mesmíssima, espinho por espinho...
Baixou o bico de cegonha ornado de óculos - e beijamo-nos na face como dous irmãos.
Os negros remaram. Eu levava, pousado sobre os joelhos, o caixote da suprema relíquia. Mas quando o meu bote, à vela, fendia a água azul - passou rente de outro bote lento, levado a remos para o lado do palácio que dormia entre palmeiras. E num relance vi o hábito negro, o capuz descido... Um largo, sequioso olhar, pela vez derradeira, procurou as minhas barbas. De pé, ainda gritei: "Oh filhinha, oh magana!" Mas já o vento me levara. Ela, no seu bote, sumia a face contrita - e sobre o delicado peito que ousara arfar, decerto a cruz pesou mais forte, ciumenta e de ferro!
Fiquei mono... Quem sabe? Era aquele, talvez, em toda a vasta terra, o único coração em que o meu poderia repousar, como num asilo seguro... Mas quê! Ela era só monja, eu só sobrinho. Ela ia para o seu deus; eu ia para a minha tia. E quando nestas águas os nossos peitos se cruzavam, e sentindo a sua concordância, batiam mudamente um para o outro - o meu barco corria com vela alegre para Ocidente, e o barco que a levava, lento e negro, ia a remos para Oriente... Desencontro contínuo das almas congêneres - neste inundo de eterno esforço e de eterna imperfeição!
V
Duas semanas depois, rolando na tipóia do Pingalho pelo Campo de Santana, com a portinhola entreaberta e a bota estendida para o estribo, avistei entre as árvores sem folhas o portão negro da casa da Titi! E, dentro desse duro calhambeque, eu resplandecia mais que um gordo César, coroado de folhagens de ouro, sobre o seu vasto carro, voltando de domar povos e deuses.
Era decerto em mim o deleite de rever, sob aquele céu de janeiro, tão azul e tão fino, a minha Lisboa, com as suas quietas ruas cor de caliça suja, e aqui e além as tabuinhas verdes descidas nas janelas, como pálpebras pesadas de langor e de sono. Mas era, sobretudo, a certeza da gloriosa mudança, que se fizera na minha fortuna doméstica e na minha influência social.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.