Por Eça de Queirós (1878)
Aquelas palavras caíam sobre os planos de Luísa, como machadadas que derrubam árvores. Às vezes a verdade que elas continham atravessava-a irresistivelmente, viva como um relâmpago, desagradável como um gume frio. Mas via naquela recusa uma ingratidão, um abandono. Depois de se ter instalado, pela imaginação, numa segurança feliz, longe, em Paris - parecia-lhe intolerável ter de voltar para casa, de cabeça baixa, sofrer Juliana, esperar a morte; e os contentamentos que entrevira naquele outro destino, agora que lhe fugiam de entre as mãos, pareciam-lhe maravilhosos, quase indispensáveis! E depois de que servia resgatar a carta a dinheiro? A criatura saberia o seu segredo! E a vida seria amarga, tendo sempre em volta de si aquele perigo a rondar!
Ficara calada, como perdida numa reflexão vaga; e de repente erguendo a cabeça, com um olhar brilhante:
- Então, dize!...
- Mas estou-te a dizer, filha...
- Não queres?
- Não! - exclamou Basílio com força. - Se tu estás doida, não estou eu!
- Oh! Pobre de mim, pobre de mim!
Deixou-se cair no sofá, tapou o rosto com as mãos. Soluços baixos sacudiam-lhe o peito.
Basílio sentou-se ao pé dela. Aquelas lágrimas mortificavam-no, impacientavam-no.
- Mas, santo nome de Deus, escuta-me!
Ela voltou para ele os olhos que reluziam sob o pranto:
- Para que dizias então, tantas vezes, que seríamos tão felizes; que se eu quisesse...
Basílio ergueu-se bruscamente:
- Pois tu pensaste em fugir, em te meter comigo num vagão, vir para Paris, viver comigo, ser aminha amante?
- Sai de casa para sempre, aí está o que eu fiz!
- Mas vais voltar para casa! - exclamou ele, quase com cólera. - Por que havias de tu fugir? Poramor? Então devíamos ter partido há um mês; não há razão agora para nos irmos. Para quê, então? Para evitar um escândalo? Com um escândalo maior, não é verdade? Um escândalo irreparável, medonho! Estou-te a falar como um amigo, Luísa! - Tomou-lhe as mãos, com muita ternura: - Tu imaginas que eu não seria feliz em ir viver contigo para Paris? Mas vejo os resultados, tenho outra experiência. O escândalo todo evita-se com umas poucas de libras. Tu imaginas que a mulher vai-se pôr a falar? O seu interesse é safar-se, desaparecer; sabe perfeitamente o que fez; que te roubou; que usou de chaves falsas. A questão é pagar-lhe.
Ela disse, com uma voz lenta:
- E o dinheiro, onde o tenho eu?
- Está claro que o dinheiro tenho-o eu! - E depois de uma pausa: - Não muito, estou mesmo umpouco atrapalhado, mas enfim... - Hesitou, disse: - se a criatura quiser duzentos mil réis, dão-selhe!
- E se não quiser?
- Que há de ela querer, então? Se rouba a carta é para a vender! Não é para guardar umautógrafo teu!
Vinham-lhe palavras duras; passeava pelo quarto exasperado. Que pretensão querer vir com ele para Paris, embaraçar-lhe para sempre a sua vida! E que despesa tão tola, dar um ror de libras a uma ladra! Depois aquele incidente, a carta de namoro roubada nos papéis sujos, a criada, a chave falsa do gavetão dos vestidos - parecia-lhe soberanamente burguês, um pouco pulha. E parando, para acabar:
- Enfim; oferece-lhe trezentos mil réis, se quiseres. Mas pelo amor de Deus, não faças outra;não estou para pagar as tuas distrações a trezentos mil réis cada uma!
Luísa fez-se lívida, como se ele lhe tivesse cuspido no rosto.
- Se é uma questão de dinheiro, eu o pagarei, Basílio!
Não sabia como. Que lhe importava! Pediria, trabalharia, empenharia... Não o aceitaria dele!
Basílio encolheu os ombros:
- Estás-te a dar ares; onde o tens tu?
- Que te importa? - exclamou.
Basílio coçou a cabeça, desesperado. E tomando-lhe as mãos, com uma impaciência reprimida:
- Estamos a dizer tolices, filha, estamos a irritar-nos... Tu não tens dinheiro.
Ela interrompeu-o, agarrou-lhe violentamente o braço;
- Pois sim, mas fala tu a essa mulher, fala-lhe tu, arranja tudo. Eu não a quero tornar a ver. Se avejo, morro, acredita. Fala-lhe tu!
Basílio recuou vivamente, e batendo com o pé:
- Estás doida, mulher! Se eu lhe falo, então pede tudo, então pede-me a pele! Isso é contigo. Eudou-te o dinheiro, tu arranja-te!
- Nem isso me fazes?
Basílio não se conteve:
- Não! Com os diabos, não!
- Adeus!
- Tu estás fora de ti, Luísa!
- Não. A culpa é minha - dizia, descendo o véu com as mãos trêmulas eu é que devo arranjartudo!
E abriu a porta. Basílio correu a ela, prendeu-a por um braço.
- Luísa, Luísa! O que queres tu fazer? Não podemos romper assim! Escuta...
- Fujamos então, salva-me de todo! - gritou ela, abraçando-o ansiosamente.
- Caramba! Se te estou a dizer que não é possível!
Ela atirou com a porta, desceu as escadas correndo. O cupê esperava-a.
- Para o Rossio - disse.
E deitando-se para o canto da carruagem, rompeu a chorar, convulsivamente.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.